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Besta enjaulada

Atração principal com espaço diminuto, Krisiun é a pura síntese do esporro no Garage Sounds, no Rio; Enterro e Tamuya Thrash Tribe salientam a trinca do metal extremo. Fotos: Nem Queiroz.

O baixista e vocalsita do Krisiun, Alex Camargo, no comando do furioso repertório metal extremado

O baixista e vocalsita do Krisiun, Alex Camargo, no comando do furioso repertório metal extremado

O lamento de que que o Krisiun, mesmo encabeçando um festival, tem menos de uma hora pra tocar não subtrai do trio toda a brutalidade do metal extremo globalizado que ele representa. Por isso, sem nenhuma delonga, o baixista Alex Camargo e sua falta de palavras comanda um atropelo que, além do cenário arrasa-quarteirão do Surra um pouco mais cedo (veja como foi), esbanja no quesito técnica e velocidade, em que pese a condução insana do baterista Max Kolesne, um ícone mundial em seu ofício, que faz tudo parecer diferente depois de um show do Krisiun. Explica-se um certo perfil democrático do Garage Sounds, que aconteceu nesta sexta (12/7) no Rio, e dispõe de 40 minutos para o trio e meia hora para as outra 15 bandas, umas coladas nas outras. O festival segue itinerante em outras 10 cidades até o final do mês.

Para se ter uma ideia o show é menor até do que o de abertura para o Cradle of Filth, que rolou há menos de dois meses no Circo Voador, e o repertório, resguardados os limites de tempo, é mais ou menos o mesmo (relembre). Ou seja, menos espaço para músicas do bom novo álbum da banda, “Scourge Of The Enthroned”, que saiu no ano passado; na verdade menos espaço pra tudo. Não para que esse trio infernal – e o guitarrista Moyses Kolesne, que completa a formação, está adiadíssimo – inicie uma sequência marteladora que abusa dos tímpanos do público, ainda mais com o som, sempre é bom enfatizar, com ótima qualidade, além de alto pra cacete. Porque simplesmente não é possível o desfrute de tamanha brutalidade com sussurros e vendedores de segredo: tem que ser alto, estridente, esporrento, barulhento, sem trégua para o bem-estar auricular.

De novo com formação de trio, o Enterro, liderado pelo baixista e vocalista Alex Kafer, faz bonito

De novo com formação de trio, o Enterro, liderado pelo baixista e vocalista Alex Kafer, faz bonito

Mas “aqui é metal”, anuncia de cara Camargo, mostrando que todo mundo é igual, sim, ao menos até a segunda página. E se falta muita coisa, mesmo sem entrar no quesito “preferidas da casa”, tem muita diversão dos quintos dos infernos nessa espécie de síntese do esporro. Como o refrão/verso/título de “Blood Of Lions”, já reverberado de lado a lado na pista. Ou na sombria, de início, “Scourge Of The Enthroned”, que contém uma evolução instrumental repleta de groove (quem procura acha) e que aponta para um solo daqueles que os olhos não conseguem acompanhar o passeio dos dedos no braço da guitarra. Ou ainda “Descending Abomination”, já um clássico, que parece melhorar a cada vez que é tocada, enfatizando uma irresistível mudança de andamento, poucas vezes evidenciada após solitária audição. Limonada feita, sim, senhor.

O que parece fácil para o Enterro, que dessa vez não tem o guitarrista Marco Donida, em turnê com o Matanza Inc (em novembro o ausente era o outro guitarrista, China, relembre). Mas o trio remanescente nessa noite está disposto a azucrinar os neurônios dos desacostumados ao black metal sem máscaras que só se vê na Cidade Maravilhosa, ainda mais quando o som é de ótima qualidade, coisa rara, mas crucial para o brilhar do gênero. E aí fica fácil para o cascudo Alex Kafer vociferar músicas do naipe de “Excommunicated”, já um clássico da banda, dedicada aos fãs citados nominalmente. Fãs que aclamam o arremate do show, com “This Land Shall Burn”, espécie de locomotiva from hell, acrescida de um belo solo de China. Agora falta o grupo gravar um álbum para incrementar essa formação, completada pelo baterista Cavaal.

Show com a completa formação do Tamuya Thrash Tribe: metal pesado com percussão das boas

Show com a completa formação do Tamuya Thrash Tribe: metal pesado com percussão das boas

Um show completão do Tamuya Thrash Tribe, com percussão e tudo, não é coisa fácil de ser ver, e por isso mesmo o show do Garage Sounds já se pronuncia especial, anda mais com o som bem equalizado. O grupo, que mistura thrash metal com referências a cultura indígena, vai bem na primeira parte, mas muitas vezes exagera na segunda; incluir “Canto das Três Raças”, consagrada por Clara Nunes, no repertório de um show de meia hora já é demais. Mas a data serve também para o lançamento do single “Senzala/Favela”, parceria com Marcelo D2, e no fim das contas o que a memória vai guardar são os riffs pesadões e as evoluções e solos do ótimo guitarrista Leonardo Emanoel.

Se tem uma banda que destoa do cast do Garage Sounds Rio pode chamá-la de Psilocibina. Porque o trio, arisco e inventivo, está muito longe de pertencer a qualquer segmento do rock independente, underground ou o que quer que seja. Com um som todo instrumental, dialoga, porém, com diversas linguagens, que flertam com o classic rock, fusion, jazz e improváveis adjacências. Sem as madeixas de outrora, tocaram em um horário indigesto – a penúltima posição no grid -, e com os microfones desligados entraram mudos e saíram calados, sem ocupar a meia hora reservada. Mas emendaram ótimas improvisações instrumentais – não se sabe quando começa ou termina cada uma das músicas -, de gosto apurado e rara perfeição técnica. Coisa linda, meus amigos. Coisa linda.

Espécie de estranho no ninho, o Psilocibina fez ótima apresentação instrumental, já na alta madrugada

Espécie de estranho no ninho, o Psilocibina fez ótima apresentação instrumental, já na alta madrugada

Set list completo Krisiun

1- Slay the Prophet
2- Combustion Inferno
3- Scourge of the Enthroned
4- Blood Of Lions
5- Descending Abomination
6- Slaying Steel
7- Ace Of Spades

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