Home Destaque

Bem arredondado

Show do New Model Army no Rio encanta pelo conjunto da obra de uma banda com trajetória incomum. Fotos: Daniel Croce.

O chefão do New Model Army, Justin Sullivan, em ótima forma, 33 anos depois no Rio outra vez

O chefão do New Model Army, Justin Sullivan, em ótima forma, 33 anos depois no Rio outra vez

A coreografia ensaiada com braços erguidos e gritos de “hey!” - quatro vezes – no ritmo das guitarras é de uma insofismável beleza e um de dos grandes momentos de uma noite desde já adentrada na História. São anos de espera que chegam ao fim para aquele que, de certo modo, e guardadas as devidas proporções, é o show mais esperado do ano. Ou, por outra, dos últimos 33(!) anos. Por isso paira no ar aquela tensão dos não iniciados, daqueles para quem o show de rock antecede a si próprio e não se encerra em si mesmo. E o fato de “The Hunt” só ter aparecido no bis do show do New Model Army seguramente é motivo de preocupação para quem ajudou a encher o Circo Voador, no Rio, em um saboroso e olfativo – que o diga o chefão da banda, Justin Sullivan - domingão de outono (9/6).

Isso porque “The Hunt” foi regravada pelo Sepultura, o que de imediato a coloca no panteão de favoritas da banda não só por essas plagas, mas sobretudo por aqui. E porque sabe-se, a banda, já na quinta década de firme atuação, tem o hábito de não incluir todos os grandes hits, ainda mais levando-se em conta que o NMA só fez grande sucesso por aqui em determinado período, no final dos anos 80/início dos 90. Ou seja, afora os fãs mais dedicados, a turma só quer música desse período. Mas é preciso lembrar que, por vezes, é nas músicas menos badaladas que uma banda mostra vigor, carisma e pegada de uma apresentação ao vivo, a ponto de converter a plateia de supetão. E é exatamente o que acontece, e é justamente esse um dos motivos para uma banda de porte mediano – vá lá - durar mais de 40 e poucos anos, e contando…

O baixista Ceri Monger, bom nos vocais de apoio e que volta e meia toca percussão também

O baixista Ceri Monger, bom nos vocais de apoio e que volta e meia toca percussão também

E é por isso que, em cerca de 1h40, são incluídas nada menos de cinco faixas do novo álbum deles, o bom “Unbroken”, lançado em janeiro. E que todas elas atingem o público de um modo ou de outro, seja na emoção do impacto da abertura com “Coming or Going”, uma das melhores do disco; na percussiva “Do You Really Want to Go There?”, com refrão/título pegajoso de dar gosto, e que de fato põe todo mundo pra cantar; ou em “Language”, outra com bom refrão e na qual Sullivan mostra uma empolgação danada, reforçando o crédito que ele mesmo dá ao trabalho novo, e a aposta na renovação do repertório. O termo “percussiva” ali em cima não é ao acaso. O arranjo, a custa de um ótimo trabalho do baterista Michael Dean, aparece em várias músicas, e em duas delas – “Stormclouds” e “Idumea”, outra das novas – o baixista Ceri Monger assume um kit de bateria auxiliar.

Ao todo o show cobre 10 dos 16 álbuns lançados pela banda em todo esse tempo, e inclui peças por vezes inusitadas, mas sempre apresentadas com muito vigor e com realce para características básicas do grupo: a) a voz de Sullivan, em boa forma; b) o sotaque british/folk em uma das poucas bandas de rock em que o violão é possível; c) os backing vocals afinados e bem inseridos; e d) músicas quase incomparáveis entre si. O que acontece em “Green and Grey”, espécie de patinho feio do álbum “Thunder and Consolation” (1989), é quase um up grade épico na música, sobretudo no desfecho. Em “51st State” revela-se, sem muitos comentários, a alegria de ver ao vivo o maior hit da banda em todas as épocas, e “Angry Planet”, da fase mais recente, tem guitarras distorcidas de fazer inveja ao bater de cabeça do metal pesado.

O ótimo guitarrista do New Model Army, Dean White, parceiro certeiro de Justin Sullivan

O ótimo guitarrista do New Model Army, Dean White, parceiro certeiro de Justin Sullivan

A lista de ausências, em um flash de memória, é grande, inclui “Stupid Questions”, “Vagabonds”, “White Coats”, “Innocence” e por aí vai. Mas como pensar nisso quando se tem “Purity”, reformada com belos arranjos de teclados, e “Wonderful Way to Go”, as duas juntinhas no desfecho do show? Ou ainda durante o bis matador com, além do momento punhos erguidos de “The Hunt”, “Get Me Out”, desencadeando inédita animação por parte do público, e “I Love the World”, com Justin Sullivan tirando onda de frontman, sem guitarra e com o gogó em dia até a última ponta? Ademais, não é possível olhar para uma apresentação redondinha dessas no varejo. O show é espetáculo fechado em si mesmo e vale cada minuto pelo conjunto da obra e pela trajetória de uma banda incomum em todos os sentidos.

Set list completo

1- Coming or Going
2- Long Goodbye
3- First Summer After
4- Language
5- Winter
6- Stormclouds
7- Do You Really Want to Go There?
8- Never Arriving
9- Here Comes the War
10- 225
11- Green and Grey
12- Idumea
13- 51st State
14- Angry Planet
15- Purity
16- Wonderful Way to Go
Bis
17- Get Me Out
18- The Hunt
19- I Love the World

Nota: O equívoco de colocar uma banda cover para fazer a abertura de um show internacional queima o filme de todos: da casa, da Cidade, do País. Uma pena.

New Model Army no Circo Voador: Dean White, Justin Sullivan, Ceri Monger e o batera Michael Dean

New Model Army no Circo Voador: Dean White, Justin Sullivan, Ceri Monger e o batera Michael Dean

Tags desse texto:

Comentários enviados

Apenas 1 comentários nesse texto.
  1. Alexandre Bolinho em junho 10, 2024 às 14:08
    #1

    Lindo, Bragatto! A banda da minha vida fazendo, como sempre, um show matador. E a observação sobre a abertura é perfeita: um equivoco inacreditável. Valeu! Abraço.

Deixe o seu comentário

Seu email não será divulgado