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Em noite de protestos no Circo Voador, um furioso Dead Fish lança ‘Ponto Cego’, disco que explica o drama da política brasileira pós 2013. Fotos: Fabiano Soares.

O vocalista Rodrigo Lima e todo o poder de fogo do Dead Fish, em noite de lançamento de álbum

O vocalista Rodrigo Lima e todo o poder de fogo do Dead Fish, em noite de lançamento de álbum

Não é só uma voz feminina que ecoa de cima do palco do Circo Voador nesta sexta (9/8). São três, de braços entrelaçados e microfone em punho, pra lá e pra cá. E, o melhor, vindas do meio do público, com idade não tão avançada quanto a que tem o dono do pedaço. Ele, agachado no canto do palco, observa com olhar fixo, dividido entre não deixar o pique do show cair e um orgulho daqueles de pai encantado com a cria. A música é “Mulheres Negras”, gravada há 20 anos, mas que carrega um frescor nesses tempos tão estranhos, e que já virou marca registrada nesse formato, por assim dizer, em um show do Dead Fish. Mesmo assim, segue emocionando toda vez que acontece, em um interessante ponto de inflexão de uma jornada conhecidamente frenética, mas ainda assim revigorante.

A novidade é que se trata do lançamento do álbum “Ponto Cego”, o primeiro da banda em quatro anos, que marca a volta a uma gravadora, depois de farto sucesso via crowdfunding. Temático, o disco, mixado por Bill Stevenson (baterista de bandas como Black Flag, Descendens e All), registra como poucas obras em qualquer segmento artístico os movimentos políticos e sociais do Brasil pós 2013. “Sim, foi golpe!” é como começa, para se ter uma ideia, “Sangue nas Mãos”, tocada logo no início do show, com o público respondendo a plenos pulmões. A música, que conta com o verso “Com o Supremo, com tudo”, da célebre frase de um tradicional político, realça um refrão que, de início, em disco, nem parecia tão bom assim. Contando com o novo baixista Igor Moderno, ao menos nos shows, o grupo mostra ótimo entrosamento, e Rodrigo Lima, o tal vocalista com orgulho das meninas, mostra excelente forma e, mais que isso, sem esconder ares de satisfação com o momento do Dead Fish.

Rodrigo 'voa' em um de seus saltos atléticos, com o guitarrista Ric Mastria tocando à direita

Rodrigo 'voa' em um de seus saltos atléticos, com o guitarrista Ric Mastria tocando à direita

Predomina, em um ambiente como esse - e já foi assim com os shows de abertura do Surra e do Black Pantera (veja como foi) -, o tom de protesto contra o presidente terraplanista e suas ignorantes bravatas ditas dia após dia. Mas Rodrigo alerta, antes de “MST”, outra das antigas, que “essa luta não é de um governo só, mas uma luta de vida”. Do público, o que mais se ouve é o grito de “Ei, Bolsonaro, vtnc!”, curiosamente idêntico ao tradicional grito de apoio ao próprio Dead Fish, o que pode deixar as coisas meio confusas para o incauto que não estiver plenamente conectado com a banda. Em “A Inevitável Mudança”, também das novas, a fala é sobre a perda de poder pelos movimentos progressistas em todo o mundo, e de como isso pode gerar um antídoto de resistência. A música, curta e urgente no padrão Dead Fish, é outra já bem conhecida do público.

Turma que se diverte em rodas de dança na maior parte do tempo, em moshs numerosos, sobretudo na parte final do show, em que clássicos desses 28 anos (mas já?) são tocados em profusão. Entre eles, dá pra citar “A Urgência”, cujo sotaque do hardcore melódico em nada lhe diminui, com o refrão cantado em uníssono no meio do salão; o desfecho final com a trinca peso pesado “Sonho Médio”, em interação de enlouquecer, “Bem-Vindo Ao Clube” e “Afasia”; e “Jogojogo”, nem tão clássico assim, do álbum anterior, “Vitória”, muito por uma marcante evolução de Ric Mastria. O guitarrista teve problemas técnicos pouco compreendidos por Rodrigo em alguns momentos, quando lança o microfone ao chão, e levados com bom humor em outros, ao quase mandar um “Billie Jean” de improviso. E o batera Marcão segue sentando o punho pesadamente e com viradas incomuns ao hardcore pesado, mas acessível (e isso é bom) do grupo.

O baixista Igor Modesto, Rodrigo, Ric e o baterista Marcão no fundo, e um convidado em movimento

O baixista Igor Modesto, Rodrigo, Ric e o baterista Marcão no fundo, e um convidado em movimento

Outras que tentam desvendar o nó do pós 2013 são “Sombras na Caverna”, com o primeiro (e um dos poucos) solos de guitarra do show; “Doutrina do Choque”, baseada no livro “A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre”, da ativista canadense Noemi Klein, essa já não tão bem assimilada pelo público; e “SUV’s (Stupids Utility Vehicle)”, mais cadenciada e pesada, fora do standard Dead Fish, por assim dizer, mas sem menos poder de explosão. Em “Autonomia”, Rodrigo pede e é atendido com a roda de dança com o maior diâmetro que o Circo já viu, e tudo em altíssima velocidade, e “Sonho Médio” tem o palco em momento de grande congestionamento, graças ao fluxo de fãs que sobem e se lançam sobre os outros sem parar. Pode parecer só mais um show do Dead Fish (e é), mas com “Ponto Cego”, o disco e o show, o grupo dá um relevante passo. Não só para a sua já longeva carreira, mas na caminhada que se faz necessária. Obrigado, Dead Fish.

Set list completo:

1- Asfalto
2- Sangue Nas Mãos
3- Não Termina Assim
4- Proprietários Do Terceiro Mundo
5- Selfegofactóide
6- Sombras da Caverna
7- Messias
8- Mulheres Negras
9- Doutrina do Choque
10- Rei de Açúcar
11- Fragmento
12- MST
13- SUV’s (Stupids Utility Vehicle)
14- Jogojogo
15- Zero Um
16- Queda Livre
17- A Inevitável Mudança
18- Autonomia
19- Descartáveis
20- A Urgência
21- Tão Iguais
22- Venceremos
23- Receita pro Fracasso
24- Sonho Médio
25- Bem-Vindo Ao Clube
26- Afasia

Emoção pura: o momento exato em que as mulheres tomam o poder durante o show do Dead Fish

Emoção pura: o momento exato em que as mulheres tomam o poder durante o show do Dead Fish

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Comentários enviados

Existem 2 comentários nesse texto.
  1. Leonardo Costa em agosto 11, 2019 às 22:40
    #1

    Só uma observação: o nome do baixista não é Modesto, mas Moderno. De resto belo show, mais uma marca do DF no Circo.

  2. Marcos Bragatto em agosto 13, 2019 às 11:15
    #2

    Corrigido, obrigado!

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