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Sopro sinistro

Em show curto, agressivo e fechado em si próprio, Marduk assusta pela potência e velocidade de um repertório matador. Fotos: Daniel Croce.

O vocalista do Marduk, Mortuus, um grandalhão com pulmões privilegiados, em agressiva condução

O vocalista do Marduk, Mortuus, um grandalhão com pulmões privilegiados, em agressiva condução

Já passa de meia hora desde que o show começou e é a primeira vez em que o público, completamente iniciado, tem a oportunidade de bater cabeça, e isso em um show de metal. Não é, contudo, um show de metal como outros, é um show de black metal, uma de suas vertentes mais sombrias e extremas, e com um dos grandes baluartes do gênero. E, mesmo assim, a bateção de cabeça só acontece lá pela metade da cruel “Burn My Coffin”, um petardo de melodia crua desenvolvida por guitarras ofegantes que sufocam os tímpanos menos familiarizados. É o Marduk impingindo uma sinistra avalanche sonora em pleno Teatro Odisséia, no Rio, nesta quinta (20/9).

Porque, até então, a performance do quarteto é assustadora, com músicas desenroladas na velocidade da luz, e o vocalista Mortuus, um gigante com jeito de Frankenstein, se esgoelando como um louco, em sequências poéticas, por assim dizer, difíceis de cantar, caso não se tenha pulmões privilegiados. Os parcos intervalos são preenchidos por trilhas e injeções de fumaça que transportam o público para a treva total, plena e sem saída. A iluminação, quase sempre estroboscópica – e em grande fase na casa - reforça o clima sufocante e realça, em closes certeiros, a agilidade com que o guitarrista Morgan “Evil” e o baixista Magnus “Devo” deslizam os dedos sobre as cordas de seus instrumentos, em perícia técnica digna de nota, e tudo isso a serviço de um tipo de música sombria, sinistra.

O pelotão de frente do Marduk: o guitarrista Morgan 'Evil', Mortuus e o baixista Magnus 'Devo'

O pelotão de frente do Marduk: o guitarrista Morgan 'Evil', Mortuus e o baixista Magnus 'Devo'

São assim “The Levelling Dust”, com uma estonteante evolução de guitarras já na parte inicial, e – fato raro no show do Marduk – um momento solo não menos agressivo ante ao contexto geral; e “Baptism by Fire”, um clássico esfuziante da banda, que pira o público, dividido entre a adoração e a incredulidade. Em relação às versões registradas em disco, as músicas são tocadas em uma velocidade muito maior, com a condução do nervoso baterista Fredrik Widigs, resultando em uma agressividade singular, já que Mortuus e asseclas não arregam. O resultado é uma intensidade tão larga que o show não tem como durar muito mais que uma horinha só – os caras não aguentariam -, em que pese “Warschau”, que era esperada para um solitário bis, não ter sido tocada até agora.

Do disco mais recente, o regular “Viktoria”, que saiu em junho, são duas incluídas no repertório. “Equestrian Bloodlust” parece ser a preferida do público, com a urgência intrínseca ao show e um desfecho abrupto, e “Werwolf”, o single do disco, por assim dizer, é uma traulitada nos cornos da plateia ensandecida. Mas a que chama mais a atenção é “The Blond Beast”, do trabalho anterior, “Frontschwein”, de 2015. Com uma batida quase new wave anos 80, musicalmente falando trata-se de uma peça - muito boa, diga-se - fincada no pós punk de fazer o fã das antigas torcer o nariz. O que, de outro lado, fornece à derradeira parte da noite uma aura mais leve, descarregada pero no mucho, em se tratado de black metal e de Marduk. Com a omissão do eventual bis com “Warschau”, o arremate é com a extraordinária “Wolves”, carregada de mudanças de andamento/direção que salienta vida criativa no black metal. Tudo assustadoramente agressivo, claro.

Mortuus se dirige ao público durante o show do Marduk: agressividade plena e assustadora

Mortuus se dirige ao público durante o show do Marduk: agressividade plena e assustadora

Mas a noite é a da segunda edição do No Class Festival, e as bandas de abertura marcam presença. Cada vez mais arregimentado no palco, o 7Peles tem a apresentação mais vultuosa. O grupo, liderado por um papa from hell com indumentária negra, faz do show uma missa do Mal, com o som muito bem executado também; não é só o visual e o incenso que contam. A consistência sonora do grupo só melhora, ainda mais com a boa qualidade do equipamento nessa noite. Antes, o veterano Heia, de Aparecida, Goiás, fez uma apresentação um tanto confusa, até pela dificuldade do vocalista em se comunicar. O black metal do grupo, entretanto, é bastante convincente, incluindo letras em português e a indumentária característica com corpse paint e tudo. Diferentemente do Vociferatus, que abriu os trabalhos com a casa quase vazia. Com trajes comuns que faziam o show parecer passagem de som, o grupo mostra um death/black metal com referências ao Sepultura – teve até cover de Nação Zumbi – e que tem muito espaço para, sobretudo conceitualmente, melhorar.

Set list completo Marduk:

1- Panzer Division Marduk
2- Baptism by Fire
3- Werwolf
4- Of Hell’s Fire
5- The Levelling Dust
6- Cloven Hoof
7- Intervalo
8- Throne of Rats
9- Burn My Coffin
10- Equestrian Bloodlust
11- The Blond Beast
12- Into Utter Madness
13- Wolves

No fundo, o ótimo baterista Fredrik Widigs acelera o andamento, com Mortuus na frente do palco

No fundo, o ótimo baterista Fredrik Widigs acelera o andamento, com Mortuus na frente do palco

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