No Mundo do Rock

Novos mercados

Veterano na cena rock brasileira, Republica investe em carreia internacional com gravação de disco nos Estados Unidos e shows na Europa. Fotos Divulgação: Marcos Hermes (1), Adriano fagundes (2) e Matheus Bonafé (3).

Marco Vieira (baixo), LF Vieira (guitarra), Leo Beling, Mike Maeda (bateria) e Jorge Marinhas (guitarra)

Marco Vieira (baixo), LF Vieira (guitarra), Leo Beling, Mike Maeda (bateria) e Jorge Marinhas (guitarra)

O ano de 2017 vai terminando com um ótimo saldo para o Republica. O grupo, com mais de 20 anos de carreira no Brasil, dá um enorme passo para consolidar uma carreira internacional. Primeiro, a gravação do novo álbum, “Brutal & Beautiful”, nos Estados Unidos, sob a batuta do afamado produtor Matt Wallace (Faith No More, R.E.M., Deftones). Depois, a realização de shows na Europa, não em uma turnê do tipo desbravadora como acontece em geral com bandas brasileiras, mas fazendo a abertura para medalhões como Scorpions e Alice Cooper.

A banda, formada por Leo Beling (vocais), LF Vieira e Jorge Marinhas (guitarras), Marco Vieira (baixo) e Mike Maeda (bateria), é também figura carimbada em grandes festivais nacionais como o Lollapalooza e o Rock In Rio, no qual tocou, pela tocou pela terceira vez seguida. Na edição desse ano, no Palco Sunset, apresentou a íntegra de “Brutal & Beautiful”, o tal quarto disco, num preparo, ao vivo, para o desenrolar da planejada fase internacional da carreira da banda.

Conversamos via e-mail com o baterista Mike Maeda, que contou alguns sustos que a banda passou nesse giro pela Europa, incluindo um enfarto(!), uma pane nos equipamentos e um passaporte perdido; sobre a gravação do videoclipe da música “Beautiful Lie”, estrelado pela atriz global Isis Valverde; além de uma espécie de receita para se tornar “um artista mainstream” por essas plagas. Leia abaixo a entrevista completa:

Rock em Geral: Vocês acabam de fazer alguns shows na Europa, abrindo para Scorpions e Alice Cooper, como isso aconteceu?

Mike Maeda: Os convites aconteceram diretamente dos empresários de ambas as bandas. Em um primeiro momento, enviamos o nosso material de divulgação através do nosso empresário, Paulo Fellin, e depois de muitas conversas e análises fomos convidados para estes shows.

REG: Por que foram poucas apresentações - duas com o Scorpions, três com Alice Cooper -, e não como banda de abertura de todo o trecho da turnê, ou de um ou de outro?

Mike: Levando-se em consideração que abrir apenas um show do Scorpions ou Alice Cooper já pode ser considerada uma grande honra e recompensa, acho que fomos muito bem honrados de termos a oportunidade de dividir o palco em cinco apresentações. Só não rolaram mais datas porque cumprimos com a logística e convites oferecidos a nós. Mas, na certa, mais coisas rolarão em breve.

REG: Fale sobre os shows em si, de como o público recebeu a banda, já que nem sempre é fácil agradar plateias em shows de abertura:

Mike: Viajamos para a Europa receosos e preocupados com que tudo desse certo. Felizmente, no fim, tudo deu muito certo e a resposta do público foi surpreendente até demais! Fomos muito bem recebidos não só pelo público, como pelas produções e equipes das outras bandas. A galera na Europa respeita demais artistas novos e se mostra disposta a conhecer novos sons, principalmente vindos de fora. A prova disso é que após os shows, sempre íamos para o merchan da banda (NE: banquinha que vende CDs, camisetas, etc) e a recepção do público foi fantástica. Mesmo durante as apresentações, conseguimos trazer a plateia junto e fazer com que entrassem na onda do som.

REG: Tiveram contato com os artistas/equipe das bandas principais? Alguma história pra contar pra sempre?

Mike: Sim, tivemos contato com as equipes que, por sinal, foram extremamente educadas e pró-ativas conosco. Fora isso, pudemos conhecer o Alice Cooper, que parte da banda já havia sido apresentado a ele durante o último Rock In Rio, e trocamos uma boa ideia com alguns dos integrantes da banda dele. Com o Scorpions o contato foi mais limitado por questões de logística mesmo, mas fomos muito bem recepcionados pelo Mikkey Dee (ex-Motörhead), atual baterista do Scorpions. Em relação às histórias, toda turnê tem seus causos que ficam registrados para a eternidade. Desta vez não foi diferente, muitas coisas aconteceram. Por exemplo: o Marco Vieira, baixista, literalmente fez o segundo show de abertura para o Scorpions, em Estocolmo, enfartando. Após o show o cara foi direto para uma angioplastia, colocou dois “stents” e teve que deixar o resto da turnê. Em dois shows a pedaleira do LF Vieira, guitarrista, parou de funcionar minutos antes do início. Foi dramático, mas deu tudo certo! O Leo, vocalista, perdeu o passaporte dele enquanto ficou de acompanhante do Marco na Suécia, e o resto da equipe e banda seguiu adiante. Infelizmente, eu perdi minha querida avó quase no fim da turnê, no mesmo dia em que tocaríamos na Bélgica. Naquele dia eu tive uma performance incrível em homenagem à ela. Histórias não faltam!

REG: Já há planos de seguir nessa turnê internacional? Datas agendadas? E no Brasil?

Mike: Sim, com certeza! A intenção do Republica é cada vez mais abrir espaço no exterior e explorar novos mercados. Em breve anunciaremos mais datas na Europa e no Brasil também.

REG: O novo disco, “Brutal & Beautiful”, foi produzido por Matt Wallace. Por que a escolha desse produtor e como vocês chegaram até ele?

Mike: Escolhemos o Matt por um simples motivo: ele é o cara que produziu o Faith No More e é considerado como o sexto integrante da banda. Além de ser um dos melhores produtores “hit makers” da indústria fonográfica e ter produzido bandas como Maroon 5, Deftones e 3 Doors Down, entre muitas outras. Quando resolvemos gravar o novo álbum do Republica, fizemos uma listinha com os principais produtores que sonhávamos em trabalhar juntos. Nos chamaram de loucos, que isso seria impossível, etc. Mas fomos atrás, procuramos na internet, mandamos “demos” do material novo e fomos escolhidos! Esses produtores não trabalham com qualquer um. Literalmente escolhem os artistas com querem trabalhar, e o Matt adorou a proposta do nosso som. No final, criamos uma intimidade tão grande com ele que hoje podemos dizer que somos uma grande família. O Matt está diretamente envolvido em quase todas as ações do Republica.

REG: Fale um pouco mais sobre o processo de composição e de gravação do disco, onde e quando foi gravado, as impressões do estúdio e todo o trabalho com Matt Wallace:

Mike: O processo de produção do novo álbum começou no início de 2015, antes da segunda participação da banda no Rock In Rio. Primeiramente, umas cinco ou seis músicas foram compostas e gravadas em uma demo produzida pelo Lampadinha. Essas músicas foram apresentadas no RIR e em seguida ao festival, mais cinco músicas foram gravadas. No total, viajamos com umas 15 músicas para Los Angeles onde fizemos uma pré-produção de uma semana com o Matt Wallace. Em seguida, selecionamos 11 músicas para serem gravadas. O Matt é um gênio! Durante o processo de pré-produção ele desmontou e remontou as músicas em novas versões que são as que estão registradas. O cara é insano no trabalho, uma máquina de produzir e possui um dos melhores “ouvidos” que eu já conheci. Fora que ele é extremamente musical e um “amor” de pessoa, bom coração e um exemplo de ser humano. Enfim, as bateras foram gravadas no SteakHouse Studios, onde muita gente já gravou por lá. Desde Van Halen, Korn até a Pink. O estúdio possui uma mesa EMI/Neve construída à mão pelo próprio Neve. A outra versão desta mesa está no estúdio Abbey Road. O restante do álbum foi gravado no estúdio do Matt, o Delux, dentro do icônico Sound City Complex, onde alguns dos maiores álbuns clássicos do rock foram gravados. A engenharia de áudio ficou a cargo do Paul Fig, que já trabalhou com bandas como Alice In Chains, Rush, Korn, Deftones, etc. Todos eles são muito meticulosos, detalhistas ao extremo, e fazem uma fusão entre a técnica e inspiração muito foda! Fomos obrigados a ralar duro na mão desses caras. No nosso canal do youtube é possível conferir um pouco do que foram essas gravações em detalhes. Lá tem tudo! Podemos afirmar com absoluta certeza que foi uma das maiores experiências das nossas vidas!

Integrantes da banda junto com Alice Cooper, nos bastidores do Rock in Rio: contato gerou convite

Integrantes da banda junto com Alice Cooper, nos bastidores do Rock in Rio: contato gerou convite

REG: O disco anterior, “Point Of No Return”, foi produzido por Roy Z. Não quiseram continuar com ele?

Mike: O Roy Z, na verdade, fez uma participação na faixa “Goodbye Asshole” do álbum anterior, o “Point Of No Return”. Ele tocou guitarra. O disco foi produzido pelo famoso produtor brasileiro Luis Paulo Serafim, outro grande amigo da banda que até hoje trabalha conosco. Durante as gravações do álbum em Los Angeles, o Roy Z foi nos visitar e nos deu, inclusive, muitos conselhos. Ele é como um irmão para o Republica e um grande profissional. Agora, a intenção de escolhermos um produtor como o Matt para o “Brutal & Beautiful” foi por causa da nossa busca da sonoridade e potência dos trabalhos que já conhecíamos desses caras. Queríamos a mesma linha para nós.

REG: Em que países “Brutal & Beautiful” foi lançado, e como tem sido a repercussão do novo material, incluindo o Brasil?

Mike: O “Brutal & Beautiful” foi lançado em muitos países na Europa e no Brasil. Para ser sincero, nem sei dizer exatamente todos os países onde o álbum foi lançado. Mas sei que recebemos excelentes críticas de mídias da Espanha, França, Itália, Holanda, etc. Na Alemanha já somos a décima primeira banda mais tocada no Spotify local. Para nós isso já é uma grande vitória! No Brasil, algumas músicas vêm tocando em algumas rádios e a repercussão tem sido ótima. “Beautiful Lie” e “Intimacy Of Your Soul” são duas músicas que receberam muito destaque e sentimos um retorno grande do público brasileiro em relação a essas músicas. O curioso é que mesmo as músicas antigas dos trabalhos anteriores passaram a ter mais “listeners” em nossas mídias sociais graças ao nosso novo trabalho.

REG: Com mais de 20 anos de carreira, só agora a banda está investindo em uma carreira internacional. É o momento certo ou a falta de visibilidade no Brasil, onde a cena rock não tem tanto espaço, é que impulsionou essa possibilidade?

Mike: Na minha opinião, um pouquinho dos dois. É o momento certo porque todos os integrantes do Republica estão na mesma vibe, sintonia e foco em relação ao “Brutal & Beautiful”. Isso permite uma entrega necessária, e que não é pouca, para que tudo funcione. Ao mesmo tempo, além do anseio pessoal de todos os membros em ter um foco na carreira internacional da banda, é claro que temos mais espaço em países da Europa e Estados Unidos. Infelizmente, no Brasil, o nicho do mercado é bem menor e possui menos espaço nas mídias mainstream. O que não significa que temos uma cena ruim. Muito pelo contrário! Temos algumas das melhores bandas de rock e artistas mais bem preparados do mundo! Nosso foco internacional é, apenas, uma escolha particular da banda.

REG: O clipe da música “Beautiful Lie” é estrelado pela atriz Isis Valverde, e a música “Stand Your Ground” fez parte da trilha sonora de uma novela da Rede Globo. Como esse processo aconteceu? Uma coisa tá ligada à outra?

Mike: Os dois fatos não possuem relação nenhuma. Quando finalizamos o trabalho de mixagem e masterização do “Brutal & Beautiful”, rolou uma oportunidade de enviarmos o trabalho para a direção de arte da Globo. No fim, a música foi parar nas mãos do diretor Dennis Carvalho, que estava dirigindo a novela “Rock Story”, e procurava por uma música mais pesada para as cenas dramáticas da novela. Sabemos que ele adorou essa faixa e quis usá-la na trama. Foi assim que conseguimos este espaço. Em relação à Isis Valverde, a música “Beautiful Lie” entrou para a trilha do filme “Amor.com”, que tem ela como protagonista. Temos uma relação muito amigável com a produtora Total Filmes, responsável pela produção deste trabalho. Na nossa cabeça um clipe com a Isis seria perfeito para imprimir a ideia do que queríamos. Literalmente pedimos uma ajuda da produtora para contatar o empresário dela e ver o que poderia rolar. Porém, a Isis recebe diversos convites para gravações de clipes. Por isso tivemos que enviar o nosso material para que ela pudesse checar antes se topava participar. Para a nossa surpresa ela adorou a ideia e topou participar do clipe de “Beautiful Lie”. Conseguimos filmar um clipe fantástico, lindo, com direção do Rafael Kent e produção da Corazon Filmes.

REG: O Republica já tocou em algumas edições do Rock In Rio, do Lollapalooza e de outros festivais de grande porte. Há alguma parceria que leva a banda tocar no evento, assim como acontece com o Doctor Phoebes (permuta com patrocinador, clique aqui e saiba mais)?

Mike: Definitivamente não! Em tudo que o Republica já esteve presente foi por méritos do nosso trabalho e porque corremos atrás! Obviamente, temos um ótimo relacionamento com todos os produtores dos festivais e respeitamos o trabalho de todos. Isso torna o nosso trabalho respeitado também, e assim conseguimos o apoio genuíno daqueles que acreditam e apoiam o Republica. Festivais como o Rock in Rio, Lollapalooza, Monsters Of Rock, etc, todos estão interessados em dar abertura para novas bandas e artistas, o que é super interessante e bacana. Mas, para isso se fortalecer, é importante que o público brasileiro vá conhecer novos trabalhos e dê oportunidade para o novo. É uma questão cultural, acima de tudo. Mas nada contra o Doctor Phoebes! Na minha opinião, eles estão certos! Não fazem ou fizeram nada de diferente do que muitas duplas sertanejas, apertadores de botões que se consideram verdadeiros DJ’s ou o artista que for que pagam por seus 15 minutos de fama. Aliás, todos sabem que, hoje, para se tornar um artista mainstream você terá que desembolsar uma bela grana para fazer o trabalho dar certo. Isso se chama investimento e dedicação. É um negócio. O Doctor Phoebes joga de forma transparente e isso é genuíno pra cacete!

REG: Você não acha que, embora dê visibilidade, tocar muitas vezes no mesmo festival, e sempre em palcos secundários, pode trazer desgaste para a imagem banda?

Mike: Acho que no nosso caso você está se referindo ao Rock In Rio, certo? Afinal tocamos nas últimas três edições. O Rock In Rio não é um festival qualquer e considerar o Palco Sunset como um palco secundário acho um grande equívoco. Qual palco no mundo consegue juntar desde Alice Cooper até Ney Matogrosso com Nação Zumbi em um mesmo evento? Isso sem contar artistas e bandas como Nile Rodgers, Korn, Sepultura, e muitos outros que já tocaram por lá. Ou seja, não dá para considerarmos o palco Sunset como algo secundário: a infraestrutura disponibilizada aos artistas é surreal, o número do público presente nos momentos dos shows é de 50 mil em média (NE: bem menos que isso, até pelo horário mais cedo no qual os shows acontecem), a audiência de transmissão online e por TV é mundial. Portanto, não dá para afirmar que isso traz desgaste para a banda, muito pelo contrário! Fortaleceu a nossa imagem, afinal foram oportunidades únicas. Até porque nunca apresentamos o mesmo show, o mesmo trabalho. Foram propostas diferentes em períodos distintos.

REG: Que paralelo você pode fazer entre o Rock In Rio e o Lollapalooza, do ponto de vista do Republica, depois de ter tocado em ambos?

Mike: Ambos são grandes festivais mainstream, mas com propostas diferentes de experiências musicais. Isso significou uma grande oportunidade de apresentarmos nosso trabalho autoral para tribos diferentes. O legal é que a receptividade do público foi maravilhosa nos dois casos o que prova que o som do Republica está maduro o suficiente para encarar diferentes tipos de mercado. Outro detalhe importante é que a história por trás destes eventos é incrível o que nos deixa muito honrados em dizer que fizemos parte disso. Seremos eternamente gratos por termos tido a oportunidade de tocar no Rock In Rio e Lollapalooza.

Clássica pose de final de show, com o público ao fundo, na abertura para o Scorpions, na Suécia

Clássica pose de final de show, com o público ao fundo, na abertura para o Scorpions, na Suécia

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