O Homem Baile

Cacetada

No Rock In Rio, Anthrax deixa público ensandecido em show que não seria tão bom se fosse no Palco Mundo. Fotos: Vinicius Pereira.

O vocalista do Anthrax, Joey Belladonna, em grande forma no show que enlouqueceu o Palco Sunset

O vocalista do Anthrax, Joey Belladonna, em grande forma no show que enlouqueceu o Palco Sunset

Quando se dá conta o vocalista matusquela, depois de quase uma hora gastando a garganta feito um guri, vê, bem ao seu lado, no show da sua própria banda, outro vocalista, bonachão, que não resistiu nos bastidores e avançou para dentro do palco para cantar, ao menos, o refrão que ele supõe saber de cor. Uma cena de congraçamento entre bandas que não chega ser coisa inédita no heavy metal, ainda mais em se tratando de contemporâneos, mas que enriquece, do ponto de vista do público, a tal experiência de que tanto falam os marqueteiros sem noção. E assim uma multidão de lascar vê o show do Anthrax no Rock In Rio – cacetada pura – terminar com Joey Belladonna e Chuck Billy, do Testament, cantando juntos o clássico sagrado “Indians”.

A música, oportuna em tempos de perseguição indígena no Brasil, de figuração histórica americana ganha ares de protesto mesmo sem querer, e gera inesperada repercussão nas redes, muito embora não pareça ser isso o que passa pela cabeça do público que abarrota os arredores do Palco Sunset. No início, mesmo com shows imperdíveis (para o sedento fã de metal, todos são), que muda prioridades a cada momento, já parecia que seria assim. Riffs de guitarra pesadíssimos que lembram o Pantera soam como um chamado para a aglomeração generalizada, e quando a apropriada “Caught in a Mosh” é reconhecida, a agitação ampla, geral e irrestrita surpreende até os músicos, cascudos que só eles.

Joey Belladonna ao lado do felicíssimo guitarrista Scott Ian, integrante fundador do Anthrax

Joey Belladonna ao lado do felicíssimo guitarrista Scott Ian, integrante fundador do Anthrax

O que leva Belladonna a interagir o tempo todo com o público, mesmo quando está a cantar, em expressões e gestos provocativos que conclamam para uma participação ainda mais intensa. E ela vem, mesmo que não só em aberturas de roda no meio do povão, mas com as palmas no refrão de “Now It’s Dark”, ou nos gritos de “Hey! Hey!” com os punhos erguidos em “Got The Time”, a segunda da noite. Sábio, o guitarrista Scott Ian, numa paradinha em “Indians”, dá o papo: “Mesmo que não participe da roda, balance a cabeça, erga os braços, faça o chifrinho do metal, só não deixe de botar pra quebrar!”. Ian, fundador no início dos anos 1980 da banda que não é nada, não é nada, é uma das quatro grandes do thrash metal mundial, é pura alegria em forma de guitarrista no palco.

O tempo é curto e, em vez de mandar músicas da fase mais recente – o disco “For All Kings”, de 2016, é ótimo – o quinteto investe na fase que consolidou a banda no mercado, no final dos anos 80/início dos 90, o que resulta em uma performance matadora. E – ainda tem mais essa – por ser o primeiro show internacional do dia do metal no festival, encontra um público com larga disposição, no dia em que o Sunset recebe mais gente nesse horário. O cenário do palco, simples, contribui com uma insistente iluminação estroboscópica e disparos de fumaça atrás do baterista Charlie Benante, outro antigo no posto. Completam a formação atual o alucinado baixista Frank Bello e o guitarrista Jon Donais, o caçula da turma.

Toda a performance do alucinado baixista Frank Bello, em um dos melhores shows do dia do metal

Toda a performance do alucinado baixista Frank Bello, em um dos melhores shows do dia do metal

Uma fala de Scott Ian sobre a insuspeita vontade de tocar no Rock In Rio abre a reta final do show com “A.I.R.”, em um festival de palhetadas dos dois guitarristas, com ênfase no solo de Donais, e a sugestiva “Antisocial”, originalmente da banda francesa Trust, que começa com ares de balada, mas enlouquece o público quando o ritmo vem mais acelerado. Só então chega o momento mais esperado do show, daqueles que se sabe que vai acontecer e que vai ser lindo, com “Indians”. Na empolgação, Joey Belladonna até faz as vezes documentarista ao tomar a câmera das mãos de um repórter para filmar a multidão em transe. Quando se dá conta, Chuck Billy está ao seu lado para um desfecho sensacional de um show que, positivamente, não teria sido tão bom se fosse no Palco Mundo.

Set list completo:

1- Caught in a Mosh
2- Got the Time
3- Madhouse
4- I Am the Law
5- Now It’s Dark
6- Efilnikufesin (N.F.L.)
7- A.I.R.
8- Antisocial
9- Indians

A constância do baterista do Anthrax, Charlie Benante, que assina boa parte das músicas do grupo

A constância do baterista do Anthrax, Charlie Benante, que assina boa parte das músicas do grupo

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