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Rush

Classic Albums
2112/Moving Pictures
(ST2)

rushclassicalbumParece mentira, mas quando entrou em estúdio para gravar o que seria o álbum “2112”, hoje um clássico do rock, o guitarrista do Rush, Alex Lifeson, tinha apenas duas guitarras: uma semi-acústica e uma Stratocaster, emprestada. O momento do grupo também não era bom. Depois de uma estreia promissora e certo sucesso com o álbum “Fly By Night” (1975), o disco seguinte, “Caress Of Steel” (1975), cheio de experimentalismos pouco resolvidos, foi um fracasso de crítica, público e venda, e fez a gravadora se reunir para exigir da banda um disco que fosse mais comercial. O trio topou e gravou nada menos que “2112”, cuja faixa-título tem mais de 20 minutos e ocupava o um lado inteiro do vinilzão. Os chefões da gravadora não acreditaram e ouviram de Cliff Burnstein, que fazia o meio de campo entre banda e gravadora que “existia um lado 2 com faixas comerciais a serem trabalhadas”. Por pouco “2112” não foi engavetado para todo o sempre.

Histórias resgatadas do fundo baú como estas estão no documentário “Classic Albums” que finalmente contempla o Rush, e logo com dois títulos – em geral é escolhido o disco mais relevante de cada artista. O resultado é que, no fim das contas, o DVD ganhou extras com quase o mesmo tempo de duração do programa (cerca de uma hora). Foi no “2112” que as letras de ficção científica do batera Neil Peart se tornaram marca registrada do Rush e conquistaram certa antipatia, ao citar autores como Ayn Rand, considerada “de direita” por setores da mídia na época. O livro dela, “The Fountainhead” (“A Nascente”), foi parar na mão de Peart. Era o que ele precisava para definir a luta do indivíduo (o próprio trio) contra o sistema (a gravadora). Começava ali a fama de cult do grupo, ao atrair fãs que se sentiam subjulgados pela sociedade e precisavam, também, lutar por espaço.

Figura das mais importantes para o Rush, que produziu nada menos que oito discos do trio, incluindo os dois tratados no DVD, Terry Brown é quem melhor explica como as coisas aconteceram dentro do estúdio. “2112” foi gravado quase todo ao vivo, em cerca de uma semana, já que o orçamento era exíguo. Mas cabe a Geddy Lee mostrar, já nos extras, como a introdução clássica de “2112” (aquela de “viagem de nave espacial”) foi feita não por ele, mas pelo designer gráfico Hugh Syme (autor de várias capas de discos para o grupo, incluindo o “Starmam”, o “indivíduo” que toca a estrela no álbum), que passava o tempo no estúdio usando um sintetizador. Geddy carrega o sample até hoje nos shows e aciona a intro apertando uma única teclinha. Lindo ver isso.

Em boa parte do programa Geddy e Alex (Peart, claro, gravou em separado) discutem com Brown como a música “Tom Sawyer” e o álbum “Moving Pictures” definiram o que eles chamam a toda hora de “a assinatura do Rush”. Terry Brown trabalhou um bocado para fazer da bateria de Neil Peart algo contemporâneo para a época, no final de 1980. Já havia acontecido o punk, que deixou as coisas em aberto com a new wave e o produtor achava que tudo deveria partir da bateria, tanto que Stewart Copleand, do Police, passou a ser referência para Peart, desde, pelo menos, o álbum anterior, “Permanent Waves” (1980). Considerando que já nessa época Peart era desafeito ao sucesso, a tarefa não deve ter sido fácil. O escape veio na letra de “Limelight”, que era para ser uma espécie desabafo do letrista, mas acabou sendo premonitória do grande sucesso que o Rush – aí, sim – faria depois de “Tom Sayer” e de “Moving Pictures”.

“Limelight” tem o que Alex considera um de seus melhores momentos, no solo, que é reproduzido no estúdio. Peart também toca quase a íntegra de “Tom Sawyer” na batera, além de reproduzir o aquecimento que faz antes de subir num palco, que mais parece o solo oficial de um show. Ele também toca “YYZ”, que nasceu da batida de código morse feito por um piloto de avião que levava o trio para um show. YYZ é o código do aeroporto internacional de Toronto, e a batida do código morse é reproduzida nos “crótalos” (pequenos pratos), tocados na introdução. Umas das passagens mais densas e pesadas da música, no início e no final, vem também da batida na tecla do código morse. Para Geddy Lee a música, talvez a mais popular peça instrumental em todos os tempos, tem a conotação de “volta pra casa”, de descanso pós turnês, porque lembra o aeroporto da cidade deles.

Quem já assistiu ao excepcional filme “Rush: Beyond The Lighted Stage”, vai notar a presença de figuras conhecidas. Além de Terry Brown e Cliff Burnstein, aparecem o empresário do grupo, Ray Danniels e o batera do Foo Fighters, Taylor Hawkins, mas esse não participa do longa. Entre muita conversa, é interessante ver quais músicos são referência para um trio que inspirou muitos artistas ao longo dos anos. Entre muitos nomes dá pra perceber que Peart aponta Keith Moon, do The Who; Alex vai de Jimmy Page, do Led Zeppelin; e Lee fica com Jack Bruce, do Cream. Curiosamente, não há explicação, em todo o vídeo, sobre os títulos dos álbuns, embora muito se fale das letras das músicas. Ficou para a próxima conversa. A deste DVD é absolutamente imperdível. Corra atrás.

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