Imagem é Tudo

Rush

Rush: Beyond The Lighted Stage
(Universal)

rushbeyond1Os diretores Sam Dunn e Scot McFadyen estão se especializando em fazer documentários sobre o heavy metal, onde o Rush – vá lá – acaba se encaixando. Para não cair em repetições dentro do formato, a dupla busca alternativas que dessa vez incluíram depoimentos dos pais dos integrantes, com a adição de incríveis imagens da época em que o adolescente Alex Lifeson era persuadido (em vão, como se sabe) a não trocar a sala de aula pela guitarra. Outra artimanha das mais louváveis é adaptar o formato ao conteúdo. Se o batera Neil Peart viajou feito um louco para se livrar da lembrança de dramas pessoais, pilotando uma moto, a solução foi reproduzir parte do trajeto, tudo acompanhado pelas câmeras. O sisudo Peart, que se acusa tímido, fala como nunca nesse filme, rodado originalmente para exibição nos cinemas.

Para penetrar ainda mais – e de forma pretensamente natural – na intimidade do trio, um jantar somente com os três e câmeras “escondidas” foi agendado. Deu certo: com o passar do tempo e a ingestão de sucessivas taças de vinho pode se ver Geddy Lee, Lifeson e Peart soltos como nunca, num verdadeiro deleite para os fãs que gostam de saber como os ídolos “realmente são”, longe dos palcos. Esse talvez seja o principal quitute dos extras do DVD, no segundo disco (inacreditavelmente sem legendas), além de imagens raras de shows, de 1974 e 1979. Outras mais comuns, retiradas de vídeos recentes (“Snakes And Arrows” e “R-30”) que todo fã já tem na prateleira também entraram, junto com a íntegra de imagens editadas no meio do filme.

Talvez o maior problema dos diretores tenha sido colocar, em cerca de 90 minutos, uma trajetória longa – 40 anos de banda – com mais percalços que os fãs poderiam imaginar. Por isso algumas das fases, representadas por nada menos que 19 álbuns de estúdio, foram salientadas, a saber: a) O quase fim da banda por conta do “esquisito” álbum “Caress Of Steel” (1975) e o subsquente renascimento com “2112” (1976), na primeira vez em que o trio disse não para os anseios do mercado; b) O limite técnico e a exaustiva busca da perfeição durante as gravações de “Hemispheres” (1978), que contém “La Villa Strangiato”, a música mais difícil de ser tocada em todos os tempos, e o relaxamento no disco posterior, com o hit “Spirit Of Radio”; c) O sucesso em grande escala com “Moving Pictures” (1981), do hit “Tom Sayer”; d) A “fase teclado” que assombrou a banda no final dos aos 80 e o posterior retorno às guitarras; e e) O processo de superação das tragédias pessoais de Neil Peart, no final dos anos 90, que resultou numa parada de cerca de quatro anos, no que todos pensavam que era o fim definitivo do grupo.

A trajetória do Rush em si é emocionante, e, contada com certa leveza no longa, deve entreter também aqueles que não são fãs do grupo, mas interessados minimamente em rock e música pop. Além de artistas obviamente influenciados pelo Rush, como o baterista do Dream Theater, Mike Portnoy, e Sebastian Bach, nomes como Trent Reznor (Nine Inch Nails), Jason McGerr (Death Cab For Cutie), Matt Stone (um dos criadores do desenho animado South Park) e Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, dão respaldo ao percurso do trio. Teórico, Corgan é curiosamente o mais “acadêmico” entre eles, elaborando várias teses que explicam a longevidade do Rush. Produtores de várias fases também tentam decifrar cada período, sobretudo Terry Brown, que assinou oito álbuns e foi considerando por muito tempo como o quatro integrante.

Em suma, o roteiro do filme mostra como uma banda tão criticada e subestimada se mantém por tanto tempo por cima da carne seca – “a maior cult band do mundo”, como Geddy Lee gosta de falar. Nesse caminho, são apresentados trechos e críticas destacadas de textos antigos que respaldam a tese, mas seria mais interessante se os diretores fossem atrás desses mesmos críticos que sempre detonaram o Rush, no mínimo para verificar se eles, atropelados pelos fatos, mudaram de opinião. Falta, também, o depoimento de alguém da crítica para explicar o porquê dessa longevidade e, musicalmente, buscar conceituar o som praticado pelo Rush em várias de suas fases. É verdade que os próprios músicos (Lee, Lifeson e Peart) e os produtores dão pistas aqui e acolá, mas o assunto poderia ser mais aprofundado. Características inerentes ao grupo, como o cuidado com as capas dos discos, que, desobedecendo aos conceitos do marketing, jamais repetiram um logotipo; os diferentes arranjos da sempre frondosa bateria de Peart; e a fase “double neck” de Lee e Lifeson, entre outras peculiaridades, poderiam ter sido abordadas.

Nada disso tira o mérito do filme, que se justifica pela história da banda em si, mas ganha contornos dramáticos que o colocam acima da obviedade de uma biografia, contada pela sucessão de fatos. Além de serem “do ramo” e ainda canadenses como Lee, Lifeson e Peart, os diretores têm a sensibilidade necessária para fazer de um documentário uma peça cinematográfica tão representativa quanto outros gêneros. Sabem que o objetivo, no fim das contas, é entreter o público. Neste “Rush: Beyond The Lighted Stage” ele conseguiram. De novo.

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