O Homem Baile

Bons de palco

Noitada de rock no Circo Voador ressalta evolução do Boogarins e o apelo popular de banda ao vivo d’O Terno. Fotos: Nem Queiroz.

Todo o feeling do guitarrista e vocalista do Boogarins, Dinho Almeida, durante o show de encerramento

Todo o feeling do guitarrista e vocalista do Boogarins, Dinho Almeida, durante o show de encerramento

Quase que o Circo Voador, berço do rock nacional no passado, deixa de reservar uma única noite com as bandas de rock novas neste mês de janeiro. Quase porque ontem o couro comeu com dois nomes nem tão novos assim, mas que estão, ambos, em franca evolução. Boogarins e O Terno mostraram que são bons de palco, têm, sim, um bom séquito de seguidores e, em meio a terrível farra dos ecléticos instalada nos anos pós internet, são pontas de lança do rock nacional. Chamada de Jardim Elétrico Festival, a noitada de rock varou a madrugada sem dó e teve ainda o Bike, de São Paulo, como banda de abertura. Faltou só um grupo local para fazer as honras de anfitrião, mas isso são outros quinhentos.

Queridinho da mídia desespecializada depois de notado no exterior, o Boogarins evolui a passos largos, com um som ao vivo mais encorpado e uma firmeza que realçam as composições viajantes registradas em estúdio. A entrada do baterista Ynaiã Benthroldo, que já vestiu a camisa do Macaco Bong, parece que não, mas deu um up grade no show dos caras, não por caso o seu instrumento aparece alinhado com os demais, à frente do palco. Quem comanda o show são os guitarristas Dinho Almeida e de Benke Ferraz, mas dessa vez, talvez por uma equalização do som que lhe é favorável, o baixista Raphael Vaz se salienta em várias das músicas. No fundo, no fundo, tudo contribui para o crescimento de um entrosamento que tende a fazer a banda melhorar cada vez mais no palco, o que se converte em aumento do público, substancialmente maior do que quando eles tocaram nesse mesmo Circo Voador, junto com o Autoramas, no ano passado (relembre).

Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d'O Terno, demonstra um inesperado bom humor no palco

Tim Bernardes, vocalista e guitarrista d'O Terno, demonstra um inesperado bom humor no palco

O show, entretanto, tem dois inícios. Um que não valeu, pela escolha equivocada de uma música repleta de nuances, e, portanto, incapaz de levantar a plateia. A correção vem com “Lucifernandes”, já um hit que – aí, sim – inicia os trabalhos. Muitas músicas do novo álbum, “Manual ou Guia Livre de Dissolvição dos Sonhos”, lançado no ano passado, são tocadas como se fossem das antigas, dada a participação do bom púbico que permanece na lona, mesmo com o avançar da hora. Ente elas, dá para salientar “6000 Dias (Ou Mantra dos 20 Anos)”, com uma pegada setentista forte, evoluções de guitarras de parte a parte, e um exuberante retorno para a música propriamente dita; e também “Avalanche”, que cai no gosto da plateia em especial. Já “Cuerdo” se destaca pela intensidade instrumental, sobretudo nos mil braços de Benthroldo.

A apresentação de gente grande dura mais uma hora e meia, feito banda headliner de festival, muito por causa das músicas serem alongadas em verdadeiras viagens instrumentais, que é o melhor do Boogarins. O grupo segue sem negar referências ao trabalho de Júpiter Maçã, cujo fantasma é o mais novo morador das entranhas do Circo Voador, mas também revela apreço, aparentemente inusitado para o público do festival, ao rock progressivo de Pink Floyd e afins. Se falta algo para uma banda já grande, mas com enorme potencial para crescer mais, é a composição de uma canção pop, curta e colante, como se fosse “Outono”, do não menos psicodélico Violeta de Outono. Um mero detalhe para quem comandou uma ótima ode às guitarras, como o rock deve ser.

Boogarins: a bateria de Ynaiã Benthroldo, alinhada com os demais integrantes, na frente do palco

Boogarins: a bateria de Ynaiã Benthroldo, alinhada com os demais integrantes, na frente do palco

Mais cedo, O Terno se aproveitou do bom horário para desfrutar do apoio de um público maior e que surpreendentemente canta várias de suas músicas, numa boa demonstração de apelo pop do repertório. No palco, o trio deixa de ser aquela banda chocha dos discos e se converte, na maior parte do tempo, em um ótimo power trio. E, aí, as referências ao Experience, de Jimi Hendrix, se evidenciam pra valer, ainda mais sem o teclado que por vezes o grupo usa nos shows. Não que o guitarrista Tim Bernardes desande a solar feito um guitar hero, mas a sonoridade é toda do Expericence, chegando a vazar, por assim dizer, trechos de músicas como “Little Wing”, entre tantas outras. Com o som bem equalizado, o baixista Guilherme D’Almeida tocando feito guitarra, com palheta, e muitos efeitos pré-gravados, o trio bota pra quebrar, o público adora e o fantasma de Hendrix, que também habita a lona do Circo, sorri.

Mas o roteiro do show, com músicas dos dois álbuns do grupo (“66” e “O Terno”) tem lá suas nuances, com citações ao samba brega em “Bote Ao Contrário”, por exemplo, ou na fanfarra “Papa Francisco Perdoa Tom Zé”, do próprio, desnecessária, mas divertida mesmo assim. No cover atualizado para “Trem Azul”, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, o grupo dá um coice na patusca mpb, isso é muito bom e a plateia adora, mesmo porque o trio é possuidor de um inesperado bom humor, coisa rara na cidade natal deles. Outros grandes momentos do show são “Quando Estamos Todos Dormindo”, que até começa meio assim, assim, mas termina com um ótimo crescente instrumental, numa viagem daquelas; o início com “O Cinza”; e “66’, com sotaque rockabilly. Se puder, vá a um show desses caras.

O Terno se converte em power trio, sob as bênçãos do fantasma de Hendrix, que habita a lona do Circo

O Terno se converte em power trio, sob as bênçãos do fantasma de Hendrix, que habita a lona do Circo

No show de abertura, o esperto Bike mostra músicas do disco de estreia, “1943”, e ainda uma mais nova, que já é preparada para um segundo lançamento. O grupo vai fundo no indie psicodélico de baixo impacto, mas peca por usar uma formuleta para compor/tocar as músicas. Todas começam como se não fossem dar em nada, para, então, da metade para o final, receber um grande encorpamento instrumental pesado. Por vezes, dá para desenvolver o raciocínio lógico do tipo “começa logo na metade que é melhor”, mas, se fosse assim, seria jogada no lixo grande parte do rock progressivo que tanto influencia esses meninos, ainda que eles não admitam/saibam disso. Os caras se dizem “chapados”, mas são ingênuos e podem melhorar bastante. Mesmo assim, fizeram um bom show, e tinha bastante gente para vê-los ainda ano início da noite.

Set list completo O Terno:

1- O Cinza
2- Bote Ao Contrário
3- Eu Não Preciso de Ninguém
4- Eu Confesso
5- Papa Francisco Perdoa Tom Zé
6- 66
7- Quando Estamos Todos Dormindo
8- Desaparecido
9- Trem Azul
10- Eu Vou Ter Saudades
11- Ai, Ai, Como Eu Me Iludo
12- Medo do Medo
13- Zé, Assassino Compulsivo

Set list completo Boogarins (fornecido pela banda):

1- Falsa Folha de Rosto
2- Sei Lá
3- Lucifernandes
4- Tempo
5- 6000 Dias (Ou Mantra dos 20 Anos)
6- Mario de Andrade
7- Selvagem/Master
8- Avalanche
9- San Lorenzo
10- Cuerdo
11- Infinu

Linha de frente do Bike: indie psicodélico ingênuo que ainda tem muito a evoluir, mas o show foi bom

Linha de frente do Bike: indie psicodélico ingênuo que ainda tem muito a evoluir, mas o show foi bom

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