Recital
Em espetáculo de câmara, delicado novo projeto de Robert Plant emociona em show intimista e envolvente no Rio. Imagem: Marcos Bragatto.
Os olhos marejados daquele senhor a caminho dos 80 anos não eram só a imagem da emoção de cantar com maestria um grande sucesso de uma das maiores bandas de rock de todas as épocas e lugares. O abraço que recebeu da recente parceira, já de costas para o público de câmara, então rebelado e de pé, jamais foi tão necessário e reconfortante. Do outro lado do balcão, havia muitos outros senhores, com suas proles, é verdade, também emocionados com tal performance, simples, mas também emblemática de muitos outros anos, épocas, eras, e a vida segue aprontando. É assim que Robert Plant e seu mais novo projeto musical se vê no encerramento da fantástica “Going to California”, o tal clássico do Led Zeppelin, pelo qual ele próprio diz que não gosta muito de ser lembrado, na noite desta quinta (21/5), em um Vivo Rio lotado. Me engana que eu gosto, Plant.
O tal projeto se chama Robert Plant Saving Grace With Suzi Dian, a cantora e acordeonista que lhe afaga após o momento mais emocionante da noite, e que com Plant divide todas as músicas, em um interessante dueto male/female e, vamos e venhamos, de gerações. A banda de fundo, com quatro músicos que tocam bateria, violoncelo, banjo, violão e até guitarra, é algo semi-acústico – tudo plugado, nota-se -, delicado em termos de arranjos, mas que fornece um certo peso dramático em toda a apresentação. Tudo ajudado por uma precisa concatenação de músicas no roteiro do show, que se desenvolve em um belo crescente de interpretação. Que é, a bem da verdade, o ponto alto em uma banda essencialmente de intérprete, já que o único álbum lançado, no final do ano passado, autointitulado, é todo de releituras de músicas mais ou menos conhecidas, mas muito bem adaptadas ao estilo/sotaque musical da banda em si.
Assim, entram no repertório quase metade das faixas do disco, acrescidas de nada menos que quatro do Led Zeppelin e outras duas da por vezes subestimada carreira solo de Plant, com destaque maior para “Calling to You”. A música, com afiada guitarra de Tony Kelsey e um solo de acordeon de Dian, é bem conhecida da plateia, até pela facilidade do refrão colante e bem repetido. E é aí que realça a principal característica do cantor Robert Plant aos 77 anos. Os de ouvido mais atentos e treinados dirão que ele canta nesse ou aquele tom mais alto ou mais baixo, consoante com o avançar da idade, mas o segredo é que ele mantém os trejeitos vocais que o consagrou, em parte pelo sotaque britânico, mas muito pelo seu próprio estilo, incluindo aqueles sedutores “oh, yeah”, “oh, baby”, “come on” e assim por diante. Suzi Dian, atenta, o acompanha com os olhos de uma caloura, mas com a firmeza de que não nasceu ontem.
É assim que as adaptações de músicas do Led caem muito bem, e são reconhecidas logo de cara pela plateia, aboletada em cadeiras enfileiradas. Como de hábito, Plant escolhe músicas “menos blockbusters”, já que não existe canção desconhecida do Led Zeppelin, também com sotaque folk rock, de modo a encaixar mais facilmente nesse projeto/banda de intérprete. Afora a maravilha de emoção que é “Going to California”, chamam a atenção as versões de “Ramble On”, acrescida de um delicado solo de violão e que explode com peso no refrão, e a boa participação de Dian, numa versão bem identificada pelo público; e “Friends”, que encerra a primeira parte no show com o ápice do tal crescente do repertório citado lá em cima. A música exalta a dupla de cantores afinados e forçando o alcance da voz juntos, no meio do palco, no final, quando os instrumentos cessam repentinamente.
Entre as releituras de outros artistas, vale destacar “Everybody’s Song”, da barulhenta banda indie(!) Low, primeiro single do disco do Saving Grace, em ótima interpretação vocal de Plant/Dian; “Angel Dance”, do sempre cool Los Lobos, aqui com um desfecho dos mais cativantes, com o público participando na palma da mão, como em vários outros momentos da noite; e “Let the Four Winds Blow”, da fase de Plant na Strange Sensation, outro de seus efêmeros projetos. Nada supera, porém, a sensacional interpretação de “Going to California”, curiosamente sem bateria e sem a parceira Suzi Dian, mas com aquele dedilhado de violão/guitarra e com surpreendentemente a cara do Led Zeppelin que Plant não quer dar. Tanto que, pela espécie de ato falho, ele próprio não se aguenta e se vê com os olhos marejados e a voz embargada em pleno palco. De longe o momento de destaque em um ótimo show, em que pese as idiossincrasias de um grande ícone do rock na convivência com a própria história. É isso, aí, Plant. Dá um abraço aqui.
Nota: De a cordo com a assessoria de imprensa do show, a produção da banda de Robert Plant não permitiu a atuação do nosso fotógrafo profissional, daí o registro de imagem canhestro feito com um daqueles aparelhos emburrecedores.
Set list completo
1- The Very Day I’m Gone
2- The Cuckoo
3- Higher Rock
4- Ramble On
5- As I Roved Out
6- Orphan Girl
7- Let the Four Winds Blow
8- Four Sticks
9- It’s a Beautiful Day Today
10- Calling to You
11- Angel Dance
12- For the Turnstiles
13- Friends
Bis
14- Going to California
15- Everybody’s Song
Tags desse texto: Led Zeppelin, Robert Plant
















