O Homem Baile

Engrenagem ajustada

Show técnico e cativante do Dream Theater no Rio, com íntegra do novo álbum e rara suíte, tem grande adesão do público. Fotos: Daniel Croce.

O vocalitsta do Dream Theater, James LaBrie: sobrevivente apesar das agruras do posto que ocupa

O vocalitsta do Dream Theater, James LaBrie: sobrevivente apesar das agruras do posto que ocupa

Juntos na beirada do palco, fazendo uma dobradinha menos alegórica e mais tímida, guitarrista e baixista de dedos ágeis instigam a plateia a participar ainda mais em uma noite fadada a ousadia, reencontros e outras satisfações que só um show de rock pode proporcionar. No meio dele se infiltra um verdeiro cantor de rock que segue desafiando as agruras do tempo. No fundo, no alto, uma bateria de incontáveis peças, incluindo três bumbos, é dominada por um expert do instrumento que andava desgarrado da turma, mas que já é a segunda vez que reaparece por aqui ocupando o lugar que jamais deveria ter deixado. Ao lado dele, um teclado que inclina, gira, brilha, acende, recebe projeção de imagens e ainda sai som quando é operado por outro dos caras que entendem do riscado. É essa a imagem geral do palco do show do Dream Theater, na verdade um espetáculo variado do tipo três um, que a despeito dos clichês envolvidos, é cheio de novidades.

Para começar, e sem o menor constrangimento, a banda opta por tocar – e anunciara isso de antemão – a íntegra do álbum mais recente, o bom “Parasomnia”, lançado no ano passado, em cerca de 70 minutos de pura ousadia, para quem se diz ainda na turnê que comemora o aniversário de 40 anos. Um desafio e tanto para qualquer um, menos para o Dream Theater, que vê os fãs interessados e participativos desde os primeiros acordes de “In the Arms of Morpheus” até a suíte de quase 20 minutos “The Shadow Man Incident”, que encerra o disco. Tudo de um modo ainda meio contemplativo, exceto por verdadeiros hits como “Midnight Messiah”, cujo andamento mais para o rock do que para o metal, com bom refrão, pega o público de jeito, e “Night Terror”, que ainda tem um ótimo desafio de Mike Portnoy, o tal baterista, a John Petrucci, o guitarrista, de encantar até o mais desavisado que está por fora das recentes artimanhas do DT. Não por acaso, tratam-se de dois dos singles de “Parasomnia”, sendo que “Night Terror” foi antecipada por aqui nos shows de 2024 (relembre).

O filho pródigo Mike Portnoy, imerso no kit de bateria de inúmeras peças que inclui três bumbos

O filho pródigo Mike Portnoy, imerso no kit de bateria de inúmeras peças que inclui três bumbos

Como de hábito, mas aparentemente de uma forma mais espetaculosa, o show tem grande produção cênica, incluindo uma cama instalada no centro do palco – o tema central de “Parasomnia” são os distúrbios do sono; telões no fundo, na borda do teclado de Jordan Rudess e sob a bateria de Portnoy, recebendo imagens em ritmo alucinante; vários tiros de fumaça de canhões instalados na beirada do palco; e ainda feixes de raio laser, disparados do teto, das laterais e mesmo de torres posicionadas na frente do telão de fundo de palco. Em “The Shadow Man Incident”, um inflável gigante aparece do lado direto do palco, com a imagem que provavelmente provoca as sombras do pesadelo citado na canção; artifício pouco comum nas turnês do Dream Theater, mas desde já aprovado. Dispositivos sutis como a toca do pedestal do microfone de James LaBrie, um com salientes carrancas no topo, outro com o logo da banda esculpido em metal no meio, também fazem parte to espetáculo.

A segunda parte do show, depois de um intervalo e sem que a banda tenha falado um “oi”, com o público – música boa fala por si só – é reservada para grandes ícones da carreira, dos tais 40 anos que dá nome a turnê, mas com duas ressalvas. A primeira, que não é de bom tom tocar números que não tenham sido originalmente compostos com Mike Portnoy na banda, daí apenas “The Enemy Inside”, que é dessa lavra, ter sido incluída. E com grande acerto, dada a generosa cantoria por parte da plateia, e ainda porque contempla um inspirado solo de Petrucci. A segunda, e aí palmas para a banda, é o cuidado em não repetir músicas do set list dos shows onde tocou em 24, caso do Rio. Assim, apenas uma música, a já citada “Night Terror”, por razões óbvias, é repetida de uma show para o outro, enriquecendo e muito a memória gerada na caixola dos fãs que foram nas duas noites. E eles não são poucos.

Os dedos ágeis de John Petrucci, cujos solos foram ovacionados pelo público em mais de uma vez

Os dedos ágeis de John Petrucci, cujos solos foram ovacionados pelo público em mais de uma vez

O que abre espaço, por exemplo, para uma versão de “Peruvian Skies” alongada e abarrotada de referências a ícones do rock que é a base para o quinteto. É um Pink Floyd aqui, um Metallica acolá, e assim se reforça a máxima estabelecida durante muito tempo, a de que o DT é um coletivo de todas essas bandas clássicas (inclua Rush, Deep Purple, Yes, etc), envolvido por muita técnica e peso, inerentes ao prog metal, subgênero do metal no qual o grupo é o grande emblema planetário. O que não subtrai em nada a relevância da banda, muito menos a versão da música, ao vivo, com ótimas performances de todos. Tem até o baixista tímido mor John Myung, soltinho, e a participação de Rudess com um vistoso keytar, ambos na beirada do palco com LaBrie e John Petrucci. No fundo, um entusiasmado Mike Portnoy está tão leve que parece que vai criar asas e voar sobre o público enquanto toca. A plateia, claro, vem junto cantando e cantarolando tudo.

Para completar as nada menos que três horas de duração do show, a terceira parte, ou bis, como queiram, vem com a execução, na íntegra, de outra suíte, “A Change Of Seasons” e suas sete partes. O que não ocorria desde 2017, e que jamais aconteceu no Brasil, onde a banda toca com certa frequência há quase três décadas. A música tem um pequeno trecho cantado por Mike Portnoy, autor da letra, inspirada na passagem da mãe dele na época. O filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, cujas cenas aparecem no telão, segundo consta, é só parte do processo de mudança metaforizado nas estações do ano. Longe de ser uma das melhores suítes da banda (procure saber), mas, lançada no único EP deles, de 1995, é uma das primeiras de longa duração, embora seja espécie de sobra do clássico álbum “Images and Words”, de 1992, o que, ao que parece, lhe fornece certo status de “cult”. Motivo de sobra para o público se entregar completamente, além de os músicos fazerem da versão atualizada, com vinte e tantos minutos – e de novo -, um verdadeiro arregaço técnico e de bom gosto. No que se coloca a reflexão: o que esses caras vão aprontar da próxima vez?

O concentrado Jordan Rudess, no domínio do teclado giratório, inclinável e customizado com a marca DT

O concentrado Jordan Rudess, no domínio do teclado giratório, inclinável e customizado com a marca DT

Set list completo:

Parte 1
1- In the Arms of Morpheus
2- Night Terror
3- A Broken Man
4- Dead Asleep
5- Midnight Messiah
6- Are We Dreaming?
7- Bend the Clock
8- The Shadow Man Incident
Parte 2
9-The Enemy Inside
10- A Rite of Passage
11- Act I: Scene Three: I. Through My Words
12- Act I: Scene Three: II. Fatal Tragedy
13- The Dark Eternal Night
14- Peruvian Skies
15- Take the Time
Bis
16- A Change of Seasons
I The Crimson Sunrise
II Innocence
III Carpe Diem
IV The Darkest of Winters
V Another World
VI The Inevitable Summer
VII The Crimson Sunset

O tímido mor John Myung, dessa vez soltinho, percorrendo velozmente todas as cordas do contrabaixo

O tímido mor John Myung, dessa vez soltinho, percorrendo velozmente todas as cordas do contrabaixo

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