Engrenagem ajustada
Show técnico e cativante do Dream Theater no Rio, com íntegra do novo álbum e rara suíte, tem grande adesão do público. Fotos: Daniel Croce.
Para começar, e sem o menor constrangimento, a banda opta por tocar – e anunciara isso de antemão – a íntegra do álbum mais recente, o bom “Parasomnia”, lançado no ano passado, em cerca de 70 minutos de pura ousadia, para quem se diz ainda na turnê que comemora o aniversário de 40 anos. Um desafio e tanto para qualquer um, menos para o Dream Theater, que vê os fãs interessados e participativos desde os primeiros acordes de “In the Arms of Morpheus” até a suíte de quase 20 minutos “The Shadow Man Incident”, que encerra o disco. Tudo de um modo ainda meio contemplativo, exceto por verdadeiros hits como “Midnight Messiah”, cujo andamento mais para o rock do que para o metal, com bom refrão, pega o público de jeito, e “Night Terror”, que ainda tem um ótimo desafio de Mike Portnoy, o tal baterista, a John Petrucci, o guitarrista, de encantar até o mais desavisado que está por fora das recentes artimanhas do DT. Não por acaso, tratam-se de dois dos singles de “Parasomnia”, sendo que “Night Terror” foi antecipada por aqui nos shows de 2024 (relembre).
Como de hábito, mas aparentemente de uma forma mais espetaculosa, o show tem grande produção cênica, incluindo uma cama instalada no centro do palco – o tema central de “Parasomnia” são os distúrbios do sono; telões no fundo, na borda do teclado de Jordan Rudess e sob a bateria de Portnoy, recebendo imagens em ritmo alucinante; vários tiros de fumaça de canhões instalados na beirada do palco; e ainda feixes de raio laser, disparados do teto, das laterais e mesmo de torres posicionadas na frente do telão de fundo de palco. Em “The Shadow Man Incident”, um inflável gigante aparece do lado direto do palco, com a imagem que provavelmente provoca as sombras do pesadelo citado na canção; artifício pouco comum nas turnês do Dream Theater, mas desde já aprovado. Dispositivos sutis como a toca do pedestal do microfone de James LaBrie, um com salientes carrancas no topo, outro com o logo da banda esculpido em metal no meio, também fazem parte to espetáculo.A segunda parte do show, depois de um intervalo e sem que a banda tenha falado um “oi”, com o público – música boa fala por si só – é reservada para grandes ícones da carreira, dos tais 40 anos que dá nome a turnê, mas com duas ressalvas. A primeira, que não é de bom tom tocar números que não tenham sido originalmente compostos com Mike Portnoy na banda, daí apenas “The Enemy Inside”, que é dessa lavra, ter sido incluída. E com grande acerto, dada a generosa cantoria por parte da plateia, e ainda porque contempla um inspirado solo de Petrucci. A segunda, e aí palmas para a banda, é o cuidado em não repetir músicas do set list dos shows onde tocou em 24, caso do Rio. Assim, apenas uma música, a já citada “Night Terror”, por razões óbvias, é repetida de uma show para o outro, enriquecendo e muito a memória gerada na caixola dos fãs que foram nas duas noites. E eles não são poucos.
O que abre espaço, por exemplo, para uma versão de “Peruvian Skies” alongada e abarrotada de referências a ícones do rock que é a base para o quinteto. É um Pink Floyd aqui, um Metallica acolá, e assim se reforça a máxima estabelecida durante muito tempo, a de que o DT é um coletivo de todas essas bandas clássicas (inclua Rush, Deep Purple, Yes, etc), envolvido por muita técnica e peso, inerentes ao prog metal, subgênero do metal no qual o grupo é o grande emblema planetário. O que não subtrai em nada a relevância da banda, muito menos a versão da música, ao vivo, com ótimas performances de todos. Tem até o baixista tímido mor John Myung, soltinho, e a participação de Rudess com um vistoso keytar, ambos na beirada do palco com LaBrie e John Petrucci. No fundo, um entusiasmado Mike Portnoy está tão leve que parece que vai criar asas e voar sobre o público enquanto toca. A plateia, claro, vem junto cantando e cantarolando tudo.Para completar as nada menos que três horas de duração do show, a terceira parte, ou bis, como queiram, vem com a execução, na íntegra, de outra suíte, “A Change Of Seasons” e suas sete partes. O que não ocorria desde 2017, e que jamais aconteceu no Brasil, onde a banda toca com certa frequência há quase três décadas. A música tem um pequeno trecho cantado por Mike Portnoy, autor da letra, inspirada na passagem da mãe dele na época. O filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, cujas cenas aparecem no telão, segundo consta, é só parte do processo de mudança metaforizado nas estações do ano. Longe de ser uma das melhores suítes da banda (procure saber), mas, lançada no único EP deles, de 1995, é uma das primeiras de longa duração, embora seja espécie de sobra do clássico álbum “Images and Words”, de 1992, o que, ao que parece, lhe fornece certo status de “cult”. Motivo de sobra para o público se entregar completamente, além de os músicos fazerem da versão atualizada, com vinte e tantos minutos – e de novo -, um verdadeiro arregaço técnico e de bom gosto. No que se coloca a reflexão: o que esses caras vão aprontar da próxima vez?

O concentrado Jordan Rudess, no domínio do teclado giratório, inclinável e customizado com a marca DT
Parte 1
1- In the Arms of Morpheus
2- Night Terror
3- A Broken Man
4- Dead Asleep
5- Midnight Messiah
6- Are We Dreaming?
7- Bend the Clock
8- The Shadow Man Incident
Parte 2
9-The Enemy Inside
10- A Rite of Passage
11- Act I: Scene Three: I. Through My Words
12- Act I: Scene Three: II. Fatal Tragedy
13- The Dark Eternal Night
14- Peruvian Skies
15- Take the Time
Bis
16- A Change of Seasons
I The Crimson Sunrise
II Innocence
III Carpe Diem
IV The Darkest of Winters
V Another World
VI The Inevitable Summer
VII The Crimson Sunset
Tags desse texto: Dream Theater




















