Em transição de formação e sob a administração de Johanna Platow, Lucifer faz bom show no Rio, com ênfase no disco mais recente. Fotos: Daniel Croce.

A líder absoluta da nova formação do Lucifer, Johanna Platow, em ação performática no show do Rio
Bem no meio de uma música de início sinistro, sombrio, assustador até, sob um riff de guitarra daqueles, a vocalista se vê de joelhos com o pedestal de um peculiar microfone em punho, para encanto do público, seleto, de iniciados. A canção não chega a ser um dos destaques do repertório, tampouco a que mais se salienta na noite, mas a performance de certo modo dramática e com um carisma bem específico, é o que chama atenção em um pico de vibração misturado com contemplação. É assim – e não seria essa a única vez na noite – que Johanna Platow conquista o público em uma verdadeira interpretação, no “modo rock ocultista de ser”, para “At the Mortuary”, uma das músicas do novo álbum do
Lucifer, neste domingo (26/4), no pequeno, mas aconchegante Experience Music, no Rio.
No começo, não parecia que seria assim. Vinda do palcão como show de abertura do Festival Bangers Open Air, que aconteceu em São paulo, no sábado, a banda se deparou com um local acanhado, sem o clássico cenário de fundo de palco, e com Johanna um pouco incomodada com o efeito escuro da (falta de) iluminação que não lhe permitia “ver as pessoas no meio da plateia”. A música escolhida para abrir os trabalhos, “Anubis”, nada menos do que o single de estreia da banda lá dos primórdios de antes do primeiro álbum ser lançado, não chega a ser uma boa escolha pelo desconhecimento por parte do público. Intrinsecamente, pode ter algum significado de recomeço, uma fez que, há cerca de um ano, a banda se desmontou com a separação do casal Johanna Platow-Nicke Andersson; juntos, eles compuseram os quatro discos mais recentes da banda. O que faz essa nova formação ser comandada pela vocalista, em um momento, por assim dizer, de adaptação ou transição para um futuro incerto.

A baixista da nova formação do Lucifer, Claudia González Díaz, agrada geral com boa atitude no palco
Daí talvez venha a razão de o show ser tão curto - cerca 70 minutos – e incluir ainda um cover de “Going Blind”, do
Kiss, espaço que poderia ser aproveitado para mais uma da própria banda. O que se vê logo de cara é que se sai muito bem a baixista Claudia González Díaz, cujo modo de tocar à
Glenn Hughes de início de carreira e carisma chamam a atenção, sobretudo em músicas como “Wild Hearses”, também mais lenta e arrastada, com um sotaque à
Black Sabbath indispensável para bandas de rock ocultista do naipe do Lucifer. Do outro lado do palco, a guitarrista Coralie Baier parece ainda bem tímida, sobrando para o outro guitarrista, Max Eriksson, a tarefa de executar, e muito bem, todos os solos. Lembrando que, embora associado ao novo classic rock e ao rock setentista, o Lucifer não é dado a viagens guitarrísticas exageradas como pode parecer. E que a guitarrista titular da nova formação, a afamada Rosalie Cunningham, não veio para esse giro pela América Do Sul. Completa a banda o batera e destruidor de caixas Kevin Kuhn, que acumulou duas trocas no período.
Quase metade do repertório do show é reservado para músicas do disco mais recente, “Lucifer V”, que saiu há cerca de dois anos, e que Johanna considera o melhor deles, só para se ter uma ideia do desastre que foi o desmonte da banda. Dentre elas, além da já citada “At the Mortuary”, tem também a ótima “Riding Reaper”, cadenciada, mas com colantes evoluções de guitarra – um volumezinho a mais cairia bem - e a assustadora transformação que “Fallen Angel” tem em cima do palco, muito mais impactante do que em disco, onde já brilha como faixa de abertura. Poderia ter aberto também o show, mas ficou muito bem ao ser escolhida para o desfecho da noite. É aí que Johanna, após a clássica cena de todos de costas empunhando seus instrumentos para o baterista, em “sucessivos finais”, desaba no chão, em outro momento de grande carisma que o público adora.

A guitarrista Coralie Baier, ainda um pouco tímida, ao lado da agitada Johanna Platow no show do Lucifer
O “colante” ali em cima significa que a banda, embora identificada com o rock ocultista e suas vertentes sombrias, tem, sim composições com forte sotaque pop, o que abre de modo amplo o tal do leque de opções. Não custa lembrar do
Ghost e do
Hellacopters, a outra banda de Nicke Andersson, que dividia tudo com Johanna Platow até outro dia, grupos também focados em melodias e canções cativantes por baixo de muito esporro. Que o diga “Bring Me His Head”, do “Lucifer IV”, música símbolo desse artifício e uma das melhores composições em se tratando de canção de rock dos últimos tempos. Pena que, ao vivo, neste show, perde um pouco de força pelo som baixo da guitarra de Eriksson, e por um tom de galhofa da cantora em maior sintonia com o stage manager(!) do que com o público durante essa música. O que também, apesar do bom show como um todo, deixa em aberto o que será do Lucifer daqui pra frente, com essa formação que parece realmente provisória. Como quase tudo nesses tempos tão estranhos, vai ter que ser um dia de cada vez. Amém.
Set list completo:
1- Anubis
2- Ghosts
3- Crucifix (I Burn for You)
4- Riding Reaper
5- Wild Hearses
6- Lucifer
7- At the Mortuary
8- Slow Dance in a Crypt
9- The Dead Don’t Speak
10- California Son
11- Bring Me His Head
12- Goin’ Blind
13- Fallen Angel

Vista do show do Lucifer no Rio, com Johanna Platow cantando e manipulando o pedestal do microfone
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