Emoção pura
Com incrível atraso, Lynyrd Skynyrd estreia no Rio em show com ótima adesão que explora o legado de uma banda ainda em boa forma. Fotos: Reprodução Facebook Lynyrd Skynyrd.

O vocalista do Lynyrd Skynyrd, Johnny Van Zant, agita o público com o pedestal do microfone em punho
No início, já se sabia que seria assim. Isso por que, de cara, a banda emenda três porradas do chamado southern rock sem dó nem piedade. “Workin’ for MCA”, cujo início já desencadeia uma cantoria generalizada que seria marca durante toda a noite; “What’s Your Name”, com a entrada das duas ótimas vocalistas de apoio (Dale Krantz Rossington e Carol Chase), outra marca registrada que a banda mantém e eleva a formação para nove integrantes, coisa rara em turnês internacionais, ainda mais para uma banda tão querida que jamais havia tocado na cidade; e a grudância que é “That Smell”, que todos pensam que tem letra sobre um assunto, mas é exatamente o contrário, e isso pouco importa pela força da canção em si, incluindo a plasticidade da pronúncia. É nela que Rick começa a debulhar a guitarra, seguido pelos asseclas Mark Matejka e Damon Johnson, que parecem gêmeos para além do conceito de twin guitars que o grupo também absorve, e com muita propriedade.
O conceito estético do tal southern rock aparece em um vídeo de abertura em que se salienta o orgulho seminacionalista do jeca americano, com imagens de pântanos, animas daquele habitat, incluindo certa simplicidade exposta em várias músicas, sendo o maior caso outro dos hinos do gênero e do rock de um modo geral, “Simple Man”. A música, não por acaso, é apresentada pelo vocalista Johnny Van Zant como “provavelmente a favorita de vocês”, e, dada a recepção do povaréu, ele acerta em cheio. Johnny é irmão mais moço 12 anos de Ronnie, vocalista e membro fundador, que se foi no fatídico acidente aéreo de 1977, em que morreram vários integrantes da banda e da equipe técnica. Ele é homenageado em “Free Bird” como se fosse o próprio pássaro livre, e inclusive aparece cantando com a banda no telão, em uma estratégia de gosto duvidoso, mas que acaba reforçando a emoção das perdas na banda; o pedestal vazio na frente do palco com o chapéu que costumava usar é outro desses artifícios.
Outra bonita homenagem é feita ao guitarrista Gary Rossington, que chegou a ser o único remanescente da formação original, mas partiu em 2023. As imagens dele com a banda ilustram toda a música “Tuesday’s Gone”, e o que aparece de gente emocionada/feliz cantando no telão não está no gibi. O repertório não é do tipo “novidades”, uma vez que a banda já há bastante tempo vive do próprio legado e de turnês “de exibição”, de modo que a música mais nova entre as 15 apresentadas em 90 minutos de bola rolando tem quase 20 anos de lançada. Mesmo assim, há curiosidades com “I Need You”, balada dedicada as mulheres e que voltou ao set list nessa turnê, e “The Needle and the Spoon”, ambas do segundo álbum da banda, “Second Helping”, de 1974, com destaque, de novo, para a trinca de guitarristas, e para o piano de calda branco e exuberante – e ainda tem mais essa – do ótimo Peter Keys. Completam o time o discreto, mas pungente baixista Robbie Harrington, e o ótimo batera Michael Cartellone, com um kit exíguo e eficientíssimo.Segundo consta, o maior hit entre todos do Lynyrd Skynyrd, até pela inclusão na trilha sonora do simpático blockbuster “Forrest Gump”, é “Sweet Home Alabama”, que encerra a primeira parte do show, como mais uma expressão de orgulho local, que contagia a plateia de gogó afiado; aliás, como segue cantando bem o tal do Johnny. Não sem antes outro clássico, “Gimme Back My Bullets”, e “Call Me the Breeze”, única emprestada de outro autor, J.J. Cale, também conhecido por feras como Eric Clapton; procure saber. A música, que de início flerta com o rock’n’roll raiz, se converte em pretexto – mais um – para as delirantes viagens dos três guitarristas. E então chegamos no verdadeiro transe descrito lá em cima, com “Free Bird” levando todos os músicos ao limite técnico e físico em sua parte mais acelerada, em um dos trechos mais representativos de uma música tocada ao vivo em todas as épocas e lugares. Demorou, mas o Lynyrd Skynyrd abalou as estruturas no Rio, de modo que Johnny Van Zant promete voltar. A julgar pela boa forma da banda e pela participação numerosa do público, pode apostar que eles voltam, sim.
Set list completo:
1- Workin’ for MCA
2- What’s Your Name
3- That Smell
4- I Need You
5- Gimme Back My Bullets
6- Down South Jukin’
7- Saturday Night Special
8- Still Unbroken
9- The Needle and the Spoon
10- Tuesday’s Gone
11- Simple Man
12- Gimme Three Steps
13- Call Me the Breeze
14- Sweet Home Alabama
Bis
15- Free Bird
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