O Homem Baile

Transgressão

Em performance desenfreada, Deicide revê origens e mostra que o death/thrash metal made in Florida envelheceu bem. Fotos: Daniel Croce.

O vocalista e lenda viva do death metal, Glen Benton, liderando o show de estreia do Deicide no Rio

O vocalista e lenda viva do death metal, Glen Benton, liderando o show de estreia do Deicide no Rio

Não tem boa noite. Não tem conversinha. Não tem “Rio, we love you”. Não tem cara pintada. Não tem arranjo bem cuidado, tampouco sofisticação. Não tem nem roadies, e com todo mundo olhando – e há quem não se dê conta – são os próprios integrantes, às claras, que fazem a montagem e os ajustes finais do som. São 50 minutos de paulada na moleira com o comando de uma lenda viva do death metal mundial. Ou, por outra, duas lendas da formação original de uma das bandas mais representativas do gênero, já que o baterista, espancando tambores ali atrás, é que é o sócio-fundador número um. Com a ajuda de dois novatos, tem-se, frente a frente, e pela primeira vez na Cidade Maravilhosa, o Deicide, com o puro néctar do death metal americano made in Flórida que tanto marcou o mundo ao longo das últimas décadas. Isso fazendo o show de abertura para o Behemoth (veja como foi), no Sacadura 154, no Rio, na última sexta (26/7).

Glen Benton, com uns quilões a mais, uns fios de cabelo a menos e a indefectível voz rasgada/gutural que parece cuspir pedregulho sobre o público é quem está de frente. Com mais idade, sim – quem não? – mas sem arredar uma grama sequer do peso abissal que sua banda representa. Para quem pensa que a banda parou, qual nada. Vem ao Rio para essa turnê com o bom álbum “Banished by Sin” debaixo do braço. O disco, que saiu no ano passado, cede ao menos duas músicas ao repertório cavernoso da noite. Uma delas é “From Unknown Heights You Shall Fall”, uma pérola que consegue ser ao mesmo tempo retrô, por ser tipicamente o som do Deicide, e ter um “que” de atual, com destaque para os solos velocíssimos do guitarrista Taylor Nordberg, um dos novatos citados ali em cima. Ele tem boa procedência, já que vem de bandas como o Absence, por exemplo, também de Tampa, na Flórida. O outro é Jadran “Conan” Gonzalez, ex-Exmortus, mais um representante do metal extremo americano.

Outra lenda do Deicide? O baterista e sócio-fundador número um, Steve Asheim, em ótima forma

Outra lenda do Deicide? O baterista e sócio-fundador número um, Steve Asheim, em ótima forma

Benton, que não é bobo nem nada, sabe que nunca esteve no Rio e pesca clássicos que marcaram o início do Deicide, com ênfase nos três primeiros álbuns, “Deicide” (1990), “Legion” (1992) e “Once Upon the Cross” (1995). Assim, quando o ruído pré-gravado de “Satan Spawn, the Caco-Daemon” surge nas caixas, a plateia já sabe do que se trata. Desde as incríveis viradas de bateria de Steve Asheim, a tal outra lenda, no início, passando pelo colossal instrumental thrash/death metal, até os duplos vocais de apoio dos guitarristas no refrão, tudo soa rude, sujo e com um peso abissal. E isso sem falar no alcance agudo tosco, por assim dizer, dos vocais de Glen Benton, outra marca registrada da banda. Em “Carnage in the Temple of the Damned”, do auto-intitulado disco de estreia, logo a segunda da noite, um festival de palhetadas toma conta do palco, em uma tensão death/thrash noventista inigualável e impensável nos dias de hoje. Ou seja: taí algo que envelheceu bem na música pesada.

Contribui para o conjunto da obra uma certa dose de improviso, com o “pano de fundo” da banda com o tradicional logotipo, estendido precariamente entre a bateria da banda de fundo, e os músicos, de modo que a iluminação de trás vaza através do tecido. Em contrapartida, um moderno Benton lê parte das letras em um tablet anexado ao pedestal do microfone. “Isso é qualidade de vida!”, grita um fã mais empolgado no meio do povaréu. Ele deve ter torcido o pescoço de tanto bater cabeça com a dobradinha “Scars Of The Crucifix” + “Dead by Dawn”, já na parte final do show. A primeira, que parece ter sido incluída na hora, com as impressionantes “trombadas” de bateria e baixo já na introdução, e aí quem esmerilha a guitarra é Gonzalez; e, a segunda, um clássico que por muito pouco não detonou uma daquelas aberturas de rodas de dança. Também pudera: a versão ainda mais cavalar que a do disco passou o rodo. Ali, naquele clima de felicidade geral, Glen Benton, que passou dos 33 anos de idade há tempos, até agradece. A recíproca é verdadeira, Glen.

O guitarista Taylor Nordberg, um dos novatos na banda, ex-Absence, mantém o fôlego do Deicide

O guitarista Taylor Nordberg, um dos novatos na banda, ex-Absence, mantém o fôlego do Deicide

Ainda cedo, com o público adentrando a casa, coube ao polonês Nidhogg fazer as vezes de banda de abertura, mesmo sendo atração internacional. Nidhogg é, na verdade, o nome do vocalista, que lidera o grupo e investe no black metal com nuances de metal tradicional e rock. O grupo, todo paramentado, com direito a tiara com franjinhas, dorso nu pintado de preto, couro e arames farpados, fez rápida apresentação. Destaque para músicas como “Transilvania”, precedida por certo ritual em que Nidhogg, com uma coroa de espinhos, bebe uma taça de “sangue”, e “Sic Luceat Lux”, mais veloz e com um interlúdio rock dos bons. Ele também conta histórias, como a que não conseguiu visitar o Cristo Redentor, mas ficou com uma réplica do monumento, e conversas sobre a discografia do Sepultura antes de, em espécie de homenagem aos brasileiros, mandar a cover para “Territory” e vestir uma camisa do Brasil dessas que camelô vende pra turista. Foi bom pra conhecer.

Set list completo Deicide

1- When Satan Rules His World
2- Carnage in the Temple of the Damned
3- Behead the Prophet (No Lord Shall Live)
4- Once Upon the Cross
5- From Unknown Heights You Shall Fall
6- Sacrificial Suicide
7- Satan Spawn, the Caco-Daemon
8- Sever the Tongue
9- In Hell I Burn
10- They Are the Children of the Underworld
11- Scars Of The Crucifix
12- Dead by Dawn
13- Homage for Satan

O vocalista do Nidhogg, o prórpio Nidhogg, com coroa de espinhos, bebendo uma taça de 'sangue'

O vocalista do Nidhogg, o prórpio Nidhogg, com coroa de espinhos, bebendo uma taça de 'sangue'

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