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Espetáculo pleno

Behemoth reafirma relevância no black metal em show completo em que música, iluminação e figurino seguem bem acoplados. Fotos: Daniel Croce.

O vocalista, guitarrista e dono da coisa toda no Behemoth, Adam 'Nergal' Darski, em ação

O vocalista, guitarrista e dono da coisa toda no Behemoth, Adam 'Nergal' Darski, em ação

Ainda nem está na hora exata do início do espetáculo e um som de coração batendo forte em um ventre desconhecido anuncia uma noite de grande poder sonoro e visual. Das profundezas dos quintos dos infernos logo surgem no palco quatro cavaleiros trajados a rigor quando o assunto é black metal: corpse paint, muito couro, pregos, tachas e arames e alegorias e adereços de todo tipo e espécie. Tudo sob uma luz, na maior parte do tempo, estroboscópica e – vê-se em seguida - ajustada para cada uma das singelas canções. A primeira delas, embora recente, já é cantada e acompanhada por punhos erguidos em coreografia ensaiada, tendo no comando espécie de papa from hell que se vale de plataformas no palco para exercer a força que tem sobre o público. É assim que o Behemoth, apresentando “The Shadow Elite”, inicia uma noite daquelas no Sacadura 154, no Rio, na última sexta (26/9).

No comando está o vocalista, guitarrista e dono da coisa toda Nergal, nome que, não custa enfatizar, se confunde com o da própria banda polonesa. A música, que surpreende pela massiva adesão por parte do público – não deveria ser assim, mas que causa surpresa, ah, causa – faz parte do disco mais recente da banda, “The Shit Ov God”, lançado em maio. Trata-se de um petardo agressivo daqueles que anuncia que a banda não está para brincadeiras no disco, tampouco no show, como se percebe logo de cara. Ao todo, são tocadas três faixas desse álbum, tido pela crônica do metal extremo como uma joia na carreira já longeva da banda. Outra que se salienta é “Lvciferaeon” – sim, a banda é toda trabalhada na letra ‘v’ e cria peculiar ortografia -, esta não só pelo peso, velocidade e riffs poderosos executados com perfeição esporrenta que um show desse tipo exige, mas pelo verso/refrão “If I am god”, gritado a plenos pulmões, em outro sinal de que o disco novo pegou de verdade por essas plagas.

Nergal interagindo com o baixista Tomasz 'Orion' Wróblewski, com o pé apoiado no retorno

Nergal interagindo com o baixista Tomasz 'Orion' Wróblewski, com o pé apoiado no retorno

Boa parte do espetáculo advém de poderosas combinações de luz com os riffs de guitarra distorcidos e espancamento de bumbos duplos que aplacam o público sem dó. Isso, somado a fartas injeções de fumaça e cuidados especiais com a indumentária de Nergal, modificada praticamente a cada número dos 15 apresentados, resultam em um efeito global hipnotizante, sufocante e, por fim, arrebatador. Isso sem tirar o mérito da música, que, em tese, é o que importa. Aqui, contudo, é o chamado conjunto da obra teatralizante que faz a coisa funcionar com mais eficácia e poder de convencimento sensorial de um modo quase que instintivo, subliminar até. Por isso os feixes de luzes cruzados sobre Nergal no início de “The Shit ov God”, a terceira das novas e faixa-título do disco, ou a mitra preta alongada usada por ele em “Bartzabel”, já um clássico, embora recente, pode não parecer, mas fazem grande diferença.

Em relação à última passagem da banda pela Cidade, há quase três anos, em uma turnê abrindo para o Arch Enemy (veja como foi), o repertório tem três músicas a mais e novidades, além das três do disco novo. Uma delas é “Demigod”, embalada, por assim dizer, por um ótimo entrosamento entre os músicos e com direito a coreografia de Nergal com Seth, o outro guitarrista, em solos melódicos na beirada do palco, o que se repete em várias ocasiões. Outra é “Wolves ov Siberia”, de introdução pré-gravada – tem muito isso no show também – com crianças em prantos, e que positivamente não pega no público, em que pese a urgência e a aceleração insanas impingidas no palco. Completam a banda o baixista Orion e o baterista a Inferno, ausente em 22, e que contribui decisivamente para o ritmo alucinado, mas mesmo assim técnico desse tipo de música.

O guitarrista Patryk 'Seth' Sztyber, o caçula da turma, em momento de concentração total e solo

O guitarrista Patryk 'Seth' Sztyber, o caçula da turma, em momento de concentração total e solo

Depois do disco novo, brilha o álbum “The Satanist”, com três músicas cedidas ao set. E aí que a coisa pega pra valer, muito embora, em um show do Behemoth, não há, aparentemente, uma concatenação do repertório, de modo a ter um crescimento no final, pois o que conta é a plenitude de toda a apresentação. Mesmo assim, ponto para “Blow Your Trumpets Gabriel”, mais lenta e arrastada, que vem com tonalidades épicas, e um final instrumental cativante; e para “Chant For Eschaton 2000”, um desfecho bem planejado que tem de tudo que se vê espalhado pela noite: riffs poderosos, solos coreografados, iluminação supimpa e cantoria generalizada por parte do público. O bis ligeiro, com “O Father O Satan O Sun!”, dá o carimbo de que, hoje, o Behemoth, meio death, meio rock até, sem as sofisticações contemporâneas que assolam o gênero, é uma das bandas mais relevantes do black metal mundial. Aceitem.

Set list completo

1- The Shadow Elite
2- Ora Pro Nobis Lucifer
3- Demigod
4- The Shit ov God
5- Conquer All
6- Blow Your Trumpets Gabriel
7- Ov Fire and the Void
8- Lvciferaeon
9- Bartzabel
10- Wolves ov Siberia
11- Once Upon a Pale Horse
12- Christians to the Lions
13- Cursed Angel of Doom
14- Chant for Eschaton 2000
Bis
15- O Father O Satan O Sun!

Nergal interagindo com o bom público na Sacadura 154: adesão total na maior parte do tempo

Nergal interagindo com o bom público na Sacadura 154: adesão total na maior parte do tempo

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