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Passaporte renovado

Entre sucessos de carreira, Epica mira o futuro com músicas novas em ótimo show no Rio. Fotos: Daniel Croce.

A vocalista e destaque maior do Epica, Simone Simons, em noite de afirmação e boas novidades

A vocalista e destaque maior do Epica, Simone Simons, em noite de afirmação e boas novidades

Em um trecho instrumental de uma noite fadada a festejos, os dois guitarristas se põem lado a lado à esquerda do palco e desandam em impingir evoluções de dar gosto de ouvir. E isso quando a protagonista maior – sabemos todos - sai de fininho para breve descanso no gogó nos bastidores. A música nem é uma das mais tocadas ou preferidas do sexteto, o que confere um certo elam ao episódio, e que faz a plateia, participativa na maior arte do tempo, se embasbacar, por vezes sem saber o que fazer ante a essa espécie de surpresa, em meio a certezas que o show de uma banda com mais de 20 anos de estrada sempre traz. É assim que Isaac Delahaye e Mark Jansen tomam conta do palco durante a pulsante “Fools of Damnation”, no descanso de Simone Simons, em mais uma grande passagem do Epica pelo Rio de Janeiro, neste sábado (13/9), no Sacadura 184.

Desta feita, diferentemente da última passagem pela Cidade, há seis anos (veja como foi), o grupo traz novidades debaixo dos braços: um álbum novinho em folha. “Aspiral”, lançado em abril, cede nada menos que cinco músicas ao repertório, em um claro recado de vitalidade e olhar pra frente, coisa rara de se ver em bandas com trajetória marcada por grandes sucessos. E a melhor delas é “Cross The Divide”, uma pedrada que abre a noite com total adesão do público. Também, pudera, trata-se de uma música calcada na canção pop, de refrão fácil e curta, se comparada com o material mais antigo do Epica. É bom ver uma banda do segmento se converter assim sem perder suas características primordiais, e com o apoio do público. Na mesma linha, outra das novas, “Fight to Survive” se revela quase dançante, de tão colante, embora em uma versão mais pesada que a do disco, e ainda que, nesse caso, a dicotomia vocais sujos x vocais líricos pareça desnecessária.

Em boa forma, o guitarrista solo do Epica, Isaac Delahaye desfilou um repertório de ótimos solos

Em boa forma, o guitarrista solo do Epica, Isaac Delahaye desfilou um repertório de ótimos solos

A concatenação das músicas é bem sacada, com início e final com sequências muito bem escolhidas. Se todos na plateia cantaram a nova “Cross The Divide”, pensem na sequência com “Unleashed” e “Sensorium”, tudo sem parar, sem boa noite nem nada. Essa última, ancestral, vem com um pula-pula dos infernos, braços erguidos em coreografia ensaiada, gritos de “Hey! Hey!”, “ôôô” e cantoria generalizada no meio do salão. É quando Simone, de silhueta esguia, começa a soltar voz com o alcance de outrora e a firmeza que só o tempo pode trazer, sendo disparadamente o destaque de uma banda coesa e que parece se divertir no palco. Que o diga o tecladista Coen Janssen, fanfarrão de carteirinha, que ainda desfila com uma espécie de keytar em forma de arco. O arranjo de palco, com o já tradicional deslocamento da bateria para o lado, agora tem uma plataforma atrás que permite, por exemplo, que Simone cante com os músicos tocando à sua frente, mais ou menos no mesmo plano de visão.

Quase todos os álbuns da banda tem músicas incluídas no show, embora o antecessor de “Aspiral”, “Omega”, um disco com nuances de progmetal meio anacrônico, tenha ficado de fora. Mas há pontos de remanso no show, como o de “Aspiral”, quase um recital solo de Simone e Coen, um grande anticlímax, ou na gelada, incluindo a reação do público, “Unchain Utopia”. A sequência final de três músicas, no bis – e já era de se esperar – é matadora. Tanto que, se o show acabasse depois da primeira delas, “Cry for the Moon”, já seria o suficiente. A música tem a cantoria mais intensa da noite, comandada pelo verso “forever and ever”, estampado no telão atrás do palco, que soa como se refrão fosse, e ainda Simone Simons tirando onda de camera woman, sem parar de cantar lindamente. Até os de certo modo discretos Rob van der Loo e Ariën van Weesenbeek, baixista e baterista, respectivamente, se salientam.

Membro fundador do Epica, o guitarrista Mark Jansen também é o responsável pels vocais rasgados

Membro fundador do Epica, o guitarrista Mark Jansen também é o responsável pels vocais rasgados

O arremate final com “Consign to Oblivion”, faixa-título do segundo álbum, tem abertura de roda de dança meio forçada, que nem pega muito, já que a música em si não pede o procedimento. E também não supera as antecessoras, “Cry for the Moon” e “Beyond the Matrix”, essa, embora das mais recentes, com agitação geral por parte do público e ótimos solos de Isaac Delahaye, outro que segue em boa forma. O que nos leva de volta à “Fools of Damnation”, a grande novidade da noite, tocada apenas pela segunda vez nessa turnê, e com grandes destaques instrumentais. E ainda às cinco músicas novas corajosamente tocadas no show. Conjunto da obra que garante o status de passaporte renovado para o sexteto, que, se depender da animação do público dessa noite, ainda tem muita lenha pra queimar e muita viagem para fazer de volta ao Brasil. Ainda bem.

Set list completo

1- Cross the Divide
2- Unleashed
3- Sensorium
4- Apparition
5- Quietus
6- Fools of Damnation
7- Fight to Survive
8- Arcana
9- Unchain Utopia
10- Aspiral
11- Design Your Universe
Bis
12- Cry for the Moon
13- Beyond the Matrix
14- Consign to Oblivion

O baixista Rob van der Loo, Simone Simons e o baterista Ariën van Weesenbeek em ação no Sacadura

O baixista Rob van der Loo, Simone Simons e o baterista Ariën van Weesenbeek em ação no Sacadura

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