O Homem Baile

Embolou

Misturas peculiares e pegadinhas do Fleshgod Apocalypse têm sonoridade comprometida na abertura para o Epica no Rio. Fotos: Daniel Croce.

Comendo poeira: a vocalista de vestes ancestrais do Fleshgod Apocalypse, Veronica Bordacchini

Comendo poeira: a vocalista de vestes ancestrais do Fleshgod Apocalypse, Veronica Bordacchini

A banda é de metal dos mais extremos, mas, súbito, o baixista e vocalista, com semblante malvado turbinado por eficiente corpsepaint, anuncia uma valsa. Antes, saca do pedestal do microfone uma bandeira do Brasil previamente ali enrolada, como parte do cenário, e anuncia que trata-se não de uma bandeira, mas de um prêmio para o melhor dançarino da noite. Em seguida, a vocalista, trajada no rigor das vestes ancestrais, diz que é ela a incumbida de escolher o vencedor. E o público que se vire pra dançar, porque é assim que banda começa a tocar “Morphine Waltz”, uma pedrada daquelas que não se dança nem a pau. Mas ressalta a simpatia de Francesco Paoli, o tal baixista e cantor, e de Veronica Bordacchini, a soprano que canta pra dedéu, em pleno show do Fleshgod Apocalypse, na abertura para o Epica, neste sábado (13/9), no Sacadura 154, no Rio.

Ocorre que, por vezes, tem-se mais humor do que a música extrema costuma suportar, e a contrapartida de esporro não pode faltar. E não falta mesmo, já que a banda italiana, embora seja conhecida por elementos incomuns, como um piano o tempo todo no palco, vai pesado e velozmente na maior parte do tempo, graças ao ótimo baterista Eugene Ryabchenko, e com um death metal gritado que deixa Veronica comendo poeira na maior parte do tempo. Acontece, por exemplo, em “Pendulum”, uma das novas, do disco mais recente da banda, “Opera”, que saiu há cerca de um ano, e em “Sugar”. Coladas uma na outra, representam um dos melhores momentos do show e têm aplauso garantido. Perguntados por Paoli quem ali no público estava vendo o show da banda pela primeira vez, quase todo mundo levantou os braços, embora essa seja a segunda vinda ao Rio; a outra foi em 2017.

Baixista e vocalista, Francesco Paoli prometeu premiar o melhor dançarino com uma bandeira brasileira

Baixista e vocalista, Francesco Paoli prometeu premiar o melhor dançarino com uma bandeira brasileira

A ideia de juntar tantos elementos diferentes em uma banda só, como o esporro do death metal, a sutileza de um piano e os vocais altos e líricos femininos, em contraponto aos masculinos e rasgados/guturais é melhor do que execução em si. Ao menos no caso do Fleshgod Apocalypse. Ou, por outra, ao menos com a banda tocando ao vivo nessa noite. Primeiro, porque tudo soa meio embolado de modo a não se identificar as partes envolvidas, e, depois, parece que falta certa medida nessa mistura, além de músicas, por assim dizer, atrativas. Seja pelas composições em si ou pelos arranjos, tudo soa muito confuso. E nem se pode apontar para a qualidade do equipamento de palco, já que, no show do Epica (veja como foi), estava tudo ótimo, bem definido e equalizado de maneira adequada.

O que, se de certa forma ofusca uma voz aqui e um teclado acolá, compensa pelo peso e velocidade reunidos. Em “Bloodclock”, por exemplo, anunciada como “love song”, o couro come pra valer, mas percebe-se a afinação e o alcance de Veronica Bordacchini, com alguma nitidez. A música é outra do disco novo – são cinco no total -, o primeiro desde a saída de Paolo Rossi, baixista, vocalista e fundador da banda. No repertório, mesmo com o tempo curto, já que se trata de um show de abertura, ainda cabem a antiga “The Violation”, dedicada à banda de fundo, e “Blue (Da Ba Dee)”, segundo consta uma cover da banda italiana de dance music Eiffel 65, encenada como sugestão torta de Ryabchenko, que “tenta” tocar no piano, em mais uma pegadinha da banda. É claro que a música é convertida em uma pedrada daquelas. Mas que dá pra melhorar, isso dá.

O baterista Eugene Ryabchenko, muito responsável pelo peso e pela velocidade no Fleshgod Apocalypse

O baterista Eugene Ryabchenko, muito responsável pelo peso e pela velocidade no Fleshgod Apocalypse

Set list completo

1- Ode to Art (de’ Sepolcri)
2- I Can Never Die
3- Minotaur (The Wrath of Poseidon)
4- The Fool
5- Pendulum
6- Sugar
7- Morphine Waltz
8- No
9- Bloodclock
10- Epilogue
11- The Violation
12- Blue (Da Ba Dee)

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