O Homem Baile

Quicante

Mesmo sem material novo, repertório bem sacado do Testament resulta em belo espetáculo dançante e batiza a nova lona do Circo Voador. Fotos: Daniel Croce.

O vocalista do Testament, Chuck Billy, sempre simpático e bem impressionado com o público carioca

O vocalista do Testament, Chuck Billy, sempre simpático e bem impressionado com o público carioca

O riff de guitarra dobrado que dá início à música é logo emendado por um cantarolar sem fim já nos primeiros segundos. Mas é um cantarolar de respeito, um brado que ecoa com direito a punhos cerrados e aquele empurra-empurra dos diabos no meio do salão. A banda, ausente há oito anos na cidade, tem a fama de ser boa de palco e, ao que parece, quer seguir deitando na cama. E não é solitária a performance matadora na tal canção, uma vez que as quase duas horas de volume ensurdecedor varando os tímpanos reservam grandes momentos, mas “Electric Crown”, nem tão conhecida assim (será mesmo?), é o suprassumo de mais um show avassalador do Testament, neste sábado (23/8) no melhor lugar possível. Ou seja, em um Circo Voador jorrando gente pelo ladrão. E com lona com cheiro de nova e o escambau.

Da dupla que se aproxima da beirada do palco o tempo todo, um é Eric Peterson, guitarrista base que sola e membro fundador da bagaça, e o outro é Alex Skolnick, que seguramente pode figurar em qualquer lista de guitarristas mais subestimados da história. São dele passagens marcantes da noite, sempre empunhado a guitarra em solos que se renovam e mantém o frescor da banda em músicas feitas, em alguns casos, há mais de 40 anos. Como lembra Peterson, antes de “The Hauting”, da época em que o thrash metal, olhando em retrospecto, se refestelava na fonte da NWOBHM; as evoluções melódicas não negam e atestam que a música envelhece muito bem. É mais ou menos sobre isso o Testament: envelhecer bem, mesmo sendo uma banda fora do primeiro escalão do thrash metal e de relevância muitas vezes questionada.

A ótima dupla de guitarristas Alex Skolnick e Eric Peterson: fator decisivo na longevidade da banda

A ótima dupla de guitarristas Alex Skolnick e Eric Peterson: fator decisivo na longevidade da banda

O início da noite com a clássica “Practice What You Preach”, ainda com o som em ajustes, é o bastante para que aquelas enormes rodas de dança se abram no meio da pista. Ou, por outra, nem tão enormes assim, uma vez que, com lotação generosa o espaço do corpo a corpo é reduzido; mas não menos intenso. “Rise Up” é uma daquelas em que o refrão pede o grito da turba, que não nega fogo bradando a plenos pulmões em meio ao corre-corre. A música é outra que traz um “ôôô” marcante, entre jatos de fumaça que são lançados do palco para o teto. Em “Native Blood”, o vocalista figuraça Chuck Billy incentiva que todos não deixem de “ter voz alta e clara”, e a música é outra com boa interação com a plateia e mais duelos de guitarras na beirada do palco.

Curiosamente, o repertório, bom, de um modo geral, não contempla nenhuma música do álbum mais recente da banda, o ótimo “Titans of Creation”, de 2020 (já pensou numa “Dream Deceiver” ao vivaço?), muito menos mostra pistas das faixas do disco “Para Bellum”, que está pronto para ser lançado, no início de outubro. Em compensação, do nada Billy anuncia a inesperada inclusão de “The Ballad”, tocada pela primeira vez dessa turnê pela América Latina, mas que tem entrado em shows esse ano, depois de bastante tempo ausente. Outra reinserida recentemente é “Return to Serenity”, com caprichada performance de Alex Skolnick. Tem ainda espaço para “Trail of Tears”, dedicada ao guitarrista Brent Hinds (ex-Mastodon), falecido recentemente em um acidente de moto. Baladas thrash? O Testament tem, sim senhor, e o público adora.

Eric Peterson em destaque, com Alex Skolnick, o baixista Steve Di Giorgio e Chuck Billy na cena

Eric Peterson em destaque, com Alex Skolnick, o baixista Steve Di Giorgio e Chuck Billy na cena

Na banda, a novidade é o baterista Chris Dovas, que substitui o cascudo Gene Hoglan. Embora tenha feito um bom solo, não parece ser um extra série. E o baixista das mil e uma bandas Steve Di Giorgio segue “palhetando” as cordas com os longos dedos. Em “First Strike Is Deadly”, Chuck Billy coloca todo mundo para cantar e a música traz espécie de acabamento épico daqueles. É o início do bloco final com “Over the Wall”, que retoma a agressividade no meio do salão; “More Than Meets the Eye”, mais uma daquelas em que a cantarolagem parece irresistível, graças às guitarras duelando sem fim; e “Into the Pit”, cujo título fala por si e desencadeia rodas de dança quicando em um sprint final de arrepiar por parte do povaréu. Demorou dois dias, mas a nova lona do Circo sentiu o que é a música pesada, assim como a antiga, no show de reabertura, do Krisiun, em 2004.

Coube ao local Reckoning Hour fazer o show de aquecimento, tarefa cumprida com eficácia. A banda, focada no death meio melódico meio brutal, vem com formação de quarteto e parece até melhor assim. Destacam-se as vocalizações alternadas entre limpas de guturais do vocalista J.P., que manda bem nas duas, ou quando tem a ajuda do guitarrista Philip Leander, que canta bem afinado. Em um show curto, com cerca de meia hora, mas com boa presença de público, destacaram-se músicas como “Away From The Sun”, que fechou o set, e a nova “Clarity”, muito boa, mas que ainda precisa ser “descoberta” pelos fãs, por assim dizer.

Intergantes do Testament se despendem do público após show matador no Circo Voador lotado

Intergantes do Testament se despendem do público após show matador no Circo Voador lotado

Set list completo

1- Practice What You Preach
2- Sins of Omission
3- Perilous Nation
4- The Pale King
5- The Haunting
6- Rise Up
7- D.N.R. (Do Not Resuscitate)
8- Low
9- Native Blood
10- Trail of Tears
11- Electric Crown
12- Souls of Black
13- Return to Serenity
14- The Ballad
15- Drum Solo
16- First Strike Is Deadly
17- Over the Wall
18- More Than Meets the Eye
19- Into the Pit

O bom vocalista do Reckoning Hour, J.P., durante a apresentaçao de abertura para o Testament

O bom vocalista do Reckoning Hour, J.P., durante a apresentaçao de abertura para o Testament

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