O Homem Baile

Simples assim

Com formação de trio e sem superprodução, Sting reduz palco e de forma quase intimista desfila grandes sucessos do Police e da carreira solo. Fotos: Daniel Croce.

Sting mostra boa forma física e vocal e brilha com o contrabaixo das antigas surrado que só ele

Sting mostra boa forma física e vocal e brilha com o contrabaixo das antigas surrado que só ele

Já passa da metade da noite e está para acontecer aquilo que acontece, de um modo ou de outro, há mais de 40 anos. Só que, agora, de um jeito diferente. Em cima do palco, apenas três músicos em clima de ensaio meio que decidindo na hora o que tocar. Um deles, a estrela da companhia, usa um contrabaixo surrado, o mesmo desde ao menos 2001 (relembre), assim como o parceiro tem dependurada no dorso uma guitarra desgastada que só ela. Sob os olhares de um neófito e atento baterista, eles não param um minuto sequer, não trocam de instrumento em momento algum e passam, no melhor estilo Paul McCartney, os quase 100 minutos da apresentação sem tomar nem um golinho de água, para a alegria dos roadies. Na beirada no palco, no centro, sob luzes estroboscópicas, Sting e seu trio enfiam a instrumental “Reggatta De Blanc” no meio de “Can’t Stand Losing You” e faz-se a mágica de uma noite pra lá de especial.

O procedimento é adotado pelo Police, o trio que catapultou Sting ao estrelato desde que a “Reggatta de Blanc” (1979), a faixa título do segundo disco da banda apareceu, e bem antes dela própria virar vinheta da saudosa Fluminense FM, quando, por aqui, tudo começou. E é por isso que uma lotada Farmasi Arena, no Rio, vibra pra valer na última sexta (14/2). E não foi só nesse fatídico momento, porque, quando foi anunciada a “Sting 3.0 Tour”, em formato de trio, ficou o sabor antecipado de que, assim, seriam tocados muitos hits do Police – metade em um arredondamento pouco preciso – e que, ainda tem mais essa, a carreira solo de um artista que se coloca entre os maiores do mundo, tem por si só outros números que habitam o inconsciente coletivo da música pop através de filmes, séries e muitos Grammys e outros prêmios conquistados. Ou seja, não tem mesmo como dar errado.

Formação de trio em ação: o guitarrrista Dominic Muller, Sting no centrro e o baterista Chris Maas

Formação de trio em ação: o guitarrrista Dominic Muller, Sting no centro e o baterista Chris Maas

A novidade por assim dizer é a simplicidade de um artista desse quilate. Para ajudar no formato, Dominic Miller, o tal portador da guitarra desgastada, acompanha Sting há cerca de 35 anos e garante que melhor entrosamento não há, ao passo que Chris Maas, o atento baterista, não perde o rumo nem quando uma música que não vinha sendo tocada entra no repertório, caso de “Wrapped Around Your Finger”, em uma versão lindamente modificada. Em “Message In a Bottle”, já na abertura, ele faz as vezes de Stewart Copeland com incrível precisão: um perfeito dublê de performance. Muller, ex-aluno de Sebastião Tapajós, também não enrubesce ao emular as incríveis texturas que Andy Summers colocava no caldeirão do Police, enfatizando dedilhados com desenvoltura que resultam em aplausos por parte da plateia, em várias oportunidades.

Novidade no repertório é “I Wrote Your Name (Upon My Heart)”, single lançado por essa formação há cerca de cinco meses, cuja batida mais pesada e quase dançante é a senha para a parte final e mais a animada da noite. Isso porque um pouco antes um bloco intermediário mais calmo dá uma caída no show. O que não cai, e isso é incrível, é característica voz de Sting, em ótima forma aos 73. Ele alterna a característica voz aguda com tons mais graves; canta “Driven to Tears” meio às avessas, forçando a voz no bojo da música e diminuindo a pressão no refrão; “faz o Freddie Mercury” várias vezes como em “Walking On The Moon”; mostra o fôlego em dia nos compridos versos de “King Of Pain”; e fala umas frases em português dos tempos do ativismo pró Amazônia/Cacique Raoni. Tudo isso sem ler nada em teleprompter e transitando de lado a outro do palco, com um microfone daqueles colados no rosto.

O entrosamento de Muller e Sting: parceria que já dura uns 35 anos entres turnês e álbuns gravados

O entrosamento de Muller e Sting: parceria que já dura uns 35 anos entres turnês e álbuns gravados

A adesão do público é total, mesmo em músicas menos conhecidas e em outras de sabor duvidoso, como a arabesca “Desert Rose”, parceria com o músico argelino Cheb Mami – quem não fez dancinha do ventre no salão que atire a primeira pedra -, ou na boa interpretação de “Fragile” (sem versão em português, thank God), única vez em que Sting trocou o baixão das antigas por um violão semielétrico, no desfecho de um bis que merecia mais agitação, com, quem sabe, “Synchronicity II”. Ausências, aliás, são muitas. Como a belíssima “I Burn For You”, mezzo Police mezzo solo, que parece ter saído do set list de última hora. Ou “Moon Over Bourbon Street” ou outra da fase Blue Turtles. Ou coisas mais recentes como a ótima “I Can’t Stop Thinking About You”, do álbum “57th & 9th” (2016). Ou mais The Police, que, vamos e venhamos, nunca é demais.

Mas o abaixo-assinado se esvai na versão meio reggae – tinha que ser – de “Englishman in New York”, com aquele “ô-ô” que parece ensaiado com o povaréu; na indefectível “Roxanne”, o ponto de virada da carreira do músico, segundo ele próprio, já no bis, com mais cantoria; na caribenha, para dizer o mínimo, “Every Little Thing She Does Is Magic”, e dá-lhe dança no meio do salão; no crescente dramático de “Never Coming Home”, grata surpresa; ou mesmo na pueril “So Lonely”, que a turma adora e ainda tem como plus um belo solo de Dominic Miller. Nada que supere, contudo, a dobradinha final com a já citada “King of Pain” e suas intrincadas armadilhas, e o blockbuster maior de todos, a incancelável “Every Breath You Take”, com a precisa batida de caixa de Chris Maas incorporando Stewart Copeland. É, não tinha como ser melhor mesmo.

O versátil Chris Maas: perfeito dublê de Stewart Copeland e preciso em todo o repertório da noite

O versátil Chris Maas: perfeito dublê de Stewart Copeland e preciso em todo o repertório da noite

Set list completo

1- Message in a Bottle
2- If I Ever Lose My Faith in You
3- Englishman in New York
4- Every Little Thing She Does Is Magic
5- Fields of Gold
6- Never Coming Home
7- Mad About You
8- Seven Days
9- Why Should I Cry for You?
10- All This Time
11- Driven to Tears
12- Wrapped Around Your Finger
13- Can’t Stand Losing You /Reggatta de Blanc
14- Shape of My Heart
15- I Wrote Your Name (Upon My Heart)
16- Walking on the Moon
17- So Lonely
18- Desert Rose
19- King of Pain
20- Every Breath You Take
Bis
21- Roxanne
22- Fragile

Agitaçao total do trio: simplicidade para tocar grandes sucessos de um longa e prrolífera carreira

Agitaçao total do trio: simplicidade para tocar grandes sucessos de um longa e prrolífera carreira

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