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Desfecho exemplar

Matanza Fest chega à última edição com ótima adesão de público e deixa legado de reinserção de bandas de rock na programação do Circo Voador. Fotos: Felipe Diniz.

matanzafest18-1Terminar por cima da carne seca é quase uma obsessão no meio musical e quem no futuro for às lágrimas ao se lembrar de um festival como o Matanza Fest, nas edições do Rio, vai sempre ter em mente imagens de um Circo Voador lotado, com a trupe de camisas pretas se estapeando durante toda a noite. Na de ontem (28/7), contudo, a lotação chegou aos píncaros do extremo cheio pra caralho à beça, e todos caíram na pegadinha do vocalista Jimmy London, que já anunciou como sendo, na verdade, a última apresentação do Matanza na casa, não esta, mas outra já agendada para o final de outubro, quando a banda, ao menos nesse formato atual, se desafaz pra valer. “Hey, Jimmy, vai tomar…”. Ou, por outra, não vai, não.

Fica e ensina pra essa gente descolada do Circo Voador a grande lição deixada pelo Matanza Fest, este sim, o último de todos: a de trazer bandas de rock que têm representatividade no mercado. Hoje, a curadoria da lona, berço do rock nacional do nos 80, se interessa mais por medalhões da mpb e por novidadeirismos efêmeros associados à terrível farra dos ecléticos. Se não fosse o Matanza Fest, este novo Circo Voador, já com quase 15 anos nas costas, não teria colocado em seu palco nomes como Cólera, Inocentes, DFC e Olho Seco, só para citar algumas das bandas que nos tempos do Circo - vá lá - raiz, certamente tinham espaço garantido; e ainda teve a edição com Biohazard. Bio-ha-zard. Nesses tempos estranhos, foi preciso uma banda como o Matanza criar seu próprio festival para dar exemplo e deixar o legado/lição de moral. Que não seja em vão.

E não é porque não foi o último que o show do Matanza deixa e ser bom. Com o cancioneiro acumulado nessas vinte e duas primaveras que não são apenas um sonho de verão, o grupo se dá ao luxo de omitir uma música ou outra que ainda assim os 90 minutos de bola rolando têm a adesão ampla geral e irrestrita do público, em todas as 31 pedradas – já foram 37 -, tocadas como se nada tivesse acontecido, como se Jimmy não tivesse sido escanteado por motivos de sabe-se lá exatamente quais são. Ele segue impecável com as tiradas nos intervalos dos blocos de quatro, cinco músicas cada, tudo tocado no talo e com um volume ensurdecedor; e isso não é nenhuma novidade. A perícia técnica e a velocidade com que as músicas são tocadas seguem como a máxima de um show que pouca banda contemporânea a eles consegue.

Há, sim, um quê de emoção em músicas como “Tempo Ruim”, um romântico tema de despedida que banha de lágrimas os olhos até um grosseirão – o personagem, não o sujeito – como Jimmy. A música premonitoriamente tem os versos talhados para momentos como esse, mas até “Clube dos Canalhas”, longe de ser uma das melhores da banda, mas muito querida, pela ode ao improvável, parece diferente. “Não precisa devolver a carteirinha”, alerta o vocalista. Tem também pérolas como a idolatrada “Eu Não Gosto de Ninguém”, “Ressaca Sem Fim”, mais metal impossível, e “Bom é Quando Faz Mal”, entre outros temas do Matanza que jamais serão abordados por outro alguém com a genialidade de Marco Donida, e que são pura identificação com o público forjado na raça, à ferro, fogo, cerveja e whisky em todo esse tempo.

Donida é também a grande ausência, mas se esse não é mesmo o derradeiro show da banda, que se convoque o compositor e idealizador de quase tudo, ausente das turnês já há 10 anos, para outubro. E que, em um sprint final – nunca foi pedido nada - a banda supere o limite das 40 músicas em um único show, sem deixar de fora tijoladas do naipe de “Em Respeito ao Vício”, “Pandemonium”, “Amigo Nenhum”, “Sabendo Que Posso Morrer” e “Melhor Sem Você”. Não que a avalanche de estapeamento, braços erguidos, cabelos voando e punhos cerrados dependam disso nessa noite que, sim, é o epílogo para muita gente, tenha sido economizada por este ou aquele fator. Porque a coleção de canções do Matanza – repita-se - chegou a um nível de identificação/compartilhamento com seus fãs que é impossível não funcionar, seja qual for o repertório da noite. Um feito e tanto para uma banda improvável acima de tudo.

Não é sempre que se tem a oportunidade de ver um show do Olho Seco no Rio, ainda mais em um Circo Voador lotado, ainda mais para uma audiência mais jovem, que precisa conhecer o começo de tudo. A banda, liderada pelo pioneiro Fabião, um dos maiores incentivadores do punk rock nacional, é espécie de patrimônio imaterial do estilo, e aparece com formação rejuvenescida. O show é verdadeira aula de história, com citações ao seminal festival O Começo do Fim do Mundo, em “Haverá Futuro?” (olha o lema “No future” do punk aí), e a Redson, o saudoso líder do Cólera e também integrante do Olho Seco, em “Botas, Fuzis e Capacetes”, faixa-título do clássico EP de estreia, de 1983.

Fabião atribui a rouquidão que lhe é característica à diferença de temperatura do veranico carioca para o inverno paulistano, mas sua voz nunca acaba, em que pese a ajuda nos vocais de apoio da banda. O público, majoritariamente do Matanza, até demora um pouco, mas logo se entrega, levado pelos mais velhos, aos prolíficos três acordes da banda. Ainda mais em clássicos fáceis de cantar como “Que Vergonha”, eternizada pelos Ratos de Porão – outra matéria da aula -, “Isto é Olho Seco” (“Seco! Seco! Seco!”) e “Nada” (“O que você está fazendo sentado atrás dessa mesa?”), todas com rodas de dança, punhos cerrados e cantoria apurada, de modo que parecia que o show do Matanza já tinha começado. Viu como se faz, Circo Voador?

Antes, foi o Carro Bomba que não fez por menos. Com um volume de som alto pra dedéu para uma banda de abertura, e o som equalizado com perfeição, desandou a baixar riffs e mais riffs de guitarra sobre o público, realçando como poucos um heavy rock pesadaço. Com uma base sólida formada pelos irmãos Marcelo e Ricardo Schevano, respectivamente guitarra e baixo, e o baterista Biel Astolfi, o vocalista Rogério Fernandes, que não nasceu ontem, manda muito bem nos vocais, desfilando falsetes sem exageros, mas com muita intensidade. O início com as poderosas “Máquina” e “Mondo Plástico” desperta o interesse do público de imediato; as letras são todas em português. Outros destaques são “Queimando a Largada”, mais identificada com o metal tradicional, com refrão fácil, fácil de cantar junto, e “Bala Perdida”, ótima composição, com viés instrumental criativo. Excelente show.

Na abertura do festival ainda tocou a banda de black metal do ABC paulista Justabeli.

Set list completo Matanza:
1- Introdução
2- O Chamado Do Bar
3- Meio Psicopata
4- Contrycore Funeral
5- O Último Bar
6- Eu Não Gosto de Ninguém
7- Santa Madre Cassino
8- Sua Assinatura
9- Pé na Porta, Soco na Cara
10- Odiosa Natureza Humana
11- Tudo Errado
12- Clube dos Canalhas
13- Ela Não Me Perdoou
14- Conforme Disseram as Vozes
15- Remédios Demais
16- Mesa de Saloon
17- Mulher Diabo
18- Carvão, Enxofre, Salitre
19- Interceptor V-6
20- Ressaca Sem Fim
21- Maldito Hippie Sujo
22- A Arte do Insulto
23- Pior Cenário Possível
24- Todo Ódio da Vingança de Jack Buffalo Head
25- Matanza em Idaho
26- Tempo Ruim
27- Whisky Para Um Condenado
28- Rios de Whisky
29- Eu Não Bebo Mais
30- Ela Roubou Meu Caminhão
31- Estamos Todos Bêbados
32- Bom é Quando Faz Mal

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