O Homem Baile

Abrandado

Sem pegada, Red Hot Chili Peppers mantém a sina de altos e baixos no Rock In Rio. Fotos divulgação Rock In Rio: Marcelo Paixão/I Hate Flash (1 e 2) e Wesley Allen/I Hate Flash (3).

O vocalista do Red Hot Chili Peppers, Anthony Kiedis, que comanda a plateia em várias baladinhas

O vocalista do Red Hot Chili Peppers, Anthony Kiedis, que comanda a plateia em várias baladinhas

As melhores partes do show são exatamente as que um baterista excepcional e um baixista fora do comum desandam a tirar um som ao vivo, com um élan de improviso. O show, aliás, começa assim, como se não tivesse ainda iniciado, em uma possível fase de ajuste de instrumentos e vamos ver o que acontece. Se algo inspirador e que mostra músicos livre de amarras para viagens artisticamente falando, não é exatamente nisso que o público que lota literalmente a Cidade do Rock está interessado. É o Rock In Rio em plena noite de encerramento, neste domingo (24/9), e o Red Hot Chili Peppers está mais para a péssima apresentação de 2001 do que para o verdadeiro passeio que foi o show da de 2011 (relembre).

Incrível como, em seis anos, uma banda boa de palco, com pegada e musicalmente inventiva cai em uma calmaria de Pedro Alvares Cabral. Ou, por outra, vem de bem mais longe a abrandada sonora do grupo, sobretudo nos palcos, onde costumava arrebatar a participação do público na raça. Agora, vive de um hit aqui e outro acolá, tocados com certa displicência, para dizer o mínimo, e inevitáveis baladinhas, comandadas por um Anthony Kiedis cada vez mais canastrão. Só que se espera bem mais para uma banda escalada para o encerramento não de uma das noites do Rock In Rio, mas de todo o festival. De modo que, numa hora dessas, ganha ares de inaceitável entrarem apenas 16 números em menos de hora e meia de show. Ok, não é preciso seguir a trilha mastodôntica do Guns N’Roses, na véspera (veja como foi), cada coisa no seu lugar, mas são 35 anos de carreira para mostrar.

De certo modo, o paralelo entre os dois shows procede. Assim como Slash e sua turma, o Red Hot também turbina muitas das músicas com citações e introduções instrumentais. E, vamos e venhamos, quem tem o baixista figuraça Flea, agradecido por tocar em um festival que tem no cast o Sepultura, que diz amar, e o baterista monstro Chad Smith, tem tudo para fazer esse artifício dar certo. Só precisa combinar com o público, que, nesse caso, salvo os chamados die hard fãs, é o mais genérico entre os genéricos, portanto pouco acostumado a raciocínios e compreensões um pouquinho mais elaborados, ainda mais por dois monstros como esses. Por isso, a junção de “I Wanna Be You Dog”, dos Stooges, com “Right on Time”, um dos grandes momentos da noite, passa despercebida e, se a primeira parte durasse mais, seguramente seria motivo de reclamação.

O excepcional baterista Chad Smith e o guitarrista Josh Klinghoffer, já há oito anos nessa formação

O excepcional baterista Chad Smith e o guitarrista Josh Klinghoffer, já há oito anos nessa formação

A tendência, no desenrolar do raciocínio, é apontar o dedo para o guitarrista Josh Klinghoffer como o responsável por esse estágio xoxo do RHCP, mas esse exercício de covardia só é praticado pelas inefáveis viúvas de John Frusciante. Josh participa muito bem dos álbuns recentes da banda, já estava no bom show de 2011, e, se não se salienta entre Flea e Chad, também não compromete, e os motivos estão mais na gênese e no desenrolar da carreira da banda do que nessa formação que dura já oito anos e não permite cultivo ao luto. Formação que, ao menos nessa noite, envolveu o repertório em uma bela embalagem “funk de raiz atualizado”, por assim dizer. Como se vê na dobradinha “Sir Psycho Sexy”/“The Power of Equality”, duas das quatro pinçadas de “Blood Sugar Sex Magik”, álbum número um deles, e também em “Tell Me Baby”, onde até Josh Klinghoffer se diverte.

Entre as músicas do novo álbum, “The Getaway”, lançado no ano passado, que bem poderia ser uma desculpa para que o show se alongasse, apenas três foram apresentadas. A melhor é “Go Robot”, com ótimo desempenho instrumental, sendo que “Dark Necessities”, canção apenas razoável que salienta o solo de Josh, e a sem graça “Goodbye Angels”, já no bis, passaram como ilustres desconhecidas pela plateia. O que faz o público dançar mesmo é, curiosamente, “Did I Let You Know”, inspirada na guitarra paraense, para dizer o mínimo, e sucessos globais do naipe de “Can’t Stop”, a primeira a afiar cantoria; as babas “Under the Bridge” e “By the Way”, com Flea estalando as cordas do baixo de maneira impressionante; e o arremate precoce com “Give It Away”. Pena que a música, composição extraordinária, aparece incrivelmente sem pegada e acaba por sintetizar a fraqueza de um show que tinha tudo para ser pedrada pura.

Set list completo:

1- Intro
2- Can’t Stop
3- Snow (Hey Oh)
4- The Zephyr Song
5- Dark Necessities
6- Did I Let You Know
7- I Wanna Be Your Dog/Right on Time
8- Go Robot
9- Californication
10- Tell Me Baby
11- Sir Psycho Sexy
12- The Power of Equality
13- Under the Bridge
14- By the Way
Bis
15- Goodbye Angels
16- Give It Away

Fofo: o baixista Flea, agradecido por tocar em um festival que tem no cast o Sepultura, que diz amar

Fofo: o baixista Flea, agradecido por tocar em um festival que tem no cast o Sepultura, que diz amar

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