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Mais sujo e mais agressivo

Ratos de Porão revê encontro com o thrash metal e com o mercado internacional ao tocar repertório de 30 anos atrás. Fotos: Nem Queiroz.

João Gordo corre atrás de cantar ainda mais rápido e ao mesmo tempo seguir se fazendo entender

João Gordo corre atrás de cantar ainda mais rápido e ao mesmo tempo seguir se fazendo entender

Na agenda histórica do Ratos de Porão há várias datas para serem comemoradas concomitantemente, e no Circo Voador desses tempos estranhos, por vezes é isso o que conta na hora de agendar um show. Tanto que já passaram pela lona apresentações com a íntegra do álbum “Anarkophobia”, quando completou 25 anos no ano passado (relembre), e de “Feijoada Acidente?”, quando fez 20, há dois anos (relembre também), com boa resposta de público, apesar de muita gente não estar nem aí para isso. Desta feita, na sexta (11/8) é a vez dos 30 anos de “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo”, muito embora “RDP Ao Vivo”, que não chega a ser um álbum, mas é até hoje um dos discos mais influentes do punk/hardcore nacional, complete 25 primaveras também este ano.

Aos marinheiros de primeira viagem, “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo” é o álbum em que o Ratos mergulha fundo no thrash metal e salta de verdade para o mercado internacional, sendo que uma versão do disco, sob o título “Dirty And Aggressive”, foi produzido com a letras convertidas para o inglês, pela primeira vez na história do grupo. Da formação da época, resta metade na atual, João Gordo (vocal) e o guitarrista e fundador Jão. Assim, o início do show é promissor, com o grupo enfileirando, já entre as quatro primeiras, bem como no disco, “Plano Furado”, um clássico da História do Brasil anotado pelo Ratos, e “Crise Geral”, um dos maiores sucessos não comerciais do grupo e cujo refrão volta a ser atual, sem clichês desnecessários, ante à apatia generalizada que assume a pauta.

O baterista Boka, 'impositor' da velocidade abissal que desafia os outros três integrantes do RDP

O baterista Boka, 'impositor' da velocidade abissal que desafia os outros três integrantes do RDP

Ocorre que as músicas, embora ensaiadas com correção, ao que parece, são tocadas não como há 30 anos, mas como o Ratos é hoje. Explica-se que o grupo largou o thrash na estrada há tempos e, nos últimos discos e shows têm mostrado um crust grosseirão que passa por cima de tudo e de todos sem prestar condolências. O que quer dizer que as músicas – qualquer uma delas – são tocadas em uma velocidade abissal, e se o sujeito menos atencioso der mole, nem vai reparar que uma de suas favoritas está sendo executada antes de terminar. E não só pela performance descomunal do baterista Boka, mas - e sobretudo - por uma incrível disposição de Jão, de verdade cada dia mais agressivo e sujo; e João Gordo é que se dane para cuspir seus tijolos e se fazer entender. Há até quem esteja discutindo, até agora, com o ouvido zumbido, se essa ou aquela outra entrou ou não no repertório.

Pois no computo final nem rolou a íntegra do tal disco, mas as que foram tocadas – sete no total, caso a conta não falhe - não fizeram feio. Além do começo assustador, brilham hinos como “Sentir Ódio e Nada Mais”, um verdadeiro esplendor de palhetadas thrash cujo conteúdo, no olhar de hoje, faz parecer ainda mais profético, ao ser vomitado em 1987; e a avassaladora “Pensamentos de Trincheira”, um hardcore metálico arrasa quarteirão, caso o termo existisse. Em contrapartida, uma pérola como “Exército de Zumbis”, gravada apenas para um split com o espanhol Looking For An Answer, em 2012, aparece em um bloco menos conhecido que inclui ainda “Expresso da Escravidão” (“Homem Inimigo do Homem”, 2006) e “Engrenagem” (Onisciente Coletivo”, 2003). Do mais recente, “Século Sinistro”, de 2014, só a discreta “Sangue & Bunda”.

A performance desabalada do guitarrista Jão é outro destaque da grosseria que o Ratos aplica sem dó

A performance desabalada do guitarrista Jão é outro destaque da grosseria que o Ratos aplica sem dó

De um modo ou de outro, para a horda que estrebucha no meio do salão, tudo pode não passar de detalhes que têm pouca importância, dada a prioridade total na ignorância sonora. Mas a coisa muda de figura com peças do naipe de “Beber Até Morrer” e de “Aids, Pop, Repressão”, recebidas com fôlego renovado, assim como nota-se ausências como “Vida Animal”, “Farsa Nacionalista”, “Que Vergonha”, “Paranoia Nuclear” e por aí vai. Ao mesmo tempo em que, vamos e venhamos, João Gordo já não esconde o cansaço depois de uma horinha só de show, o que confere ao grupo nos dias de hoje uma apresentação dentro do possível. E que, nesses termos, intensidade é o que não falta, em noites cujo encontro de Ratos de Porão com o Circo Voador, feitos um para o outro, como se sabe, jamais serão em vão.

Set list completo:

1- Tattoo Maniac
2- Plano Furado
3- Ignorância
4- Crise Geral
5- Morrer
6- Mad Society
7- Crianças Sem Futuro
8- Ascensão e Queda
9- Beber Até Morrer
10- Máquina Militar
11- Sangue & Bunda
12- Banha
13- Arranca Toco
14- Exército de Zumbis
15- Expresso da Escravidão
16- Engrenagem
17- Pensamentos de Trincheira
18- Peste Sexual
19- Sentir Ódio e Nada Mais
20- Crucificados Pelo Sistema
Bis
21- Aids, Pop, Repressão
22- Igreja Universal

Em agitação ampla, Jão e o baixista Juninho saem do chão e voam sobre o palco do Circo Voador

Em agitação ampla, Jão e o baixista Juninho saem do chão e voam sobre o palco do Circo Voador

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Comentários enviados

Existem 3 comentários nesse texto.
  1. Porão em agosto 12, 2017 às 18:54
    #1

    Sei lá se sou sempre do contra, mas foi um dos melhores Ratos de minha sobrevida nefasta!

  2. Luciano UPHB em agosto 12, 2017 às 20:16
    #2

    Repertório antigo. E cada vez mais atual. Brasil, desordem e retrocesso.

  3. Leonardo em agosto 14, 2017 às 14:13
    #3

    Me lamento muito por ter perdido esse show. Ratos cada vez mais esporrento e foda-se como deve ser um show de hardcore.

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