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Zumbido sem fim

Matanza aproveita som equalizado no talo para encerrar seu próprio festival com a sutileza de uma escavadeira desgovernada. Fotos: Nem Queiroz.

O maestro Jimmy London rege a plateia e se realiza com um peculiar concerto para a juventude

O maestro Jimmy London rege a plateia e se realiza com um peculiar concerto para a juventude

Um maestro from hell rege o coro de mais de mil vozes que sabe quase todas as letras das músicas de cor e salteado; não que seja fácil. Os movimentos com os braços erguidos, contudo, não são sutis, muito menos providos da elegância dos concertos matinais para sabe-se lá para qual juventude. Para essa, é o que lhes basta. É um festival, a madrugada é longa em mais uma noite de Circo Voador jorrando camisa preta pelo ladrão e o deságue se traduz em uma pororoca dos quintos dos infernos quando a última banda entra no palco. É o desfecho de mais um Matanza Fest e a figura quase bíblica do tal maestro representado por Jimmy London tem uma tarefa das mais insanas nos próximos cento e poucos minutos: manter o nível de esporro, vibração, êxtase e satisfação geral lá nas alturas.

Ocorre que – e ainda tem mais essa – o som está equalizado em um volume saturado absurdo de fazer o ouvido zumbir pelas próximas semanas e deixar Lemmy Kilmister, sabe-se lá onde, com um raro sorriso escancarado. E, como se sabe, as músicas são emendadas cruelmente umas nas outras, de modo que não há respiro, pera aí que eu vou ali e que tais vacilações. E – ainda tem essa outra – a formação é turbinada pela presença do encastelado Donida, o guitarrista chave para se entender o Matanza e suas andanças pelo som pesado e por personagens com os quais todo mundo ali no meio do salão (será mesmo?) se identifica, de um modo ou de outro. Há tempos, no entanto, não segue a banda nas turnês, e, com ele, o couro come pra valer, em dobro, de modo que o repertório pode praticamente ser virado de ponta cabeça que o resultado não deixa a desejar.

Jimmy e o guitarrista Donida, peça chave para se entender o Matanza e suas andanças pelo som pesado

Jimmy e o guitarrista Donida, peça chave para se entender o Matanza e suas andanças pelo som pesado

Daí que parece normal o início com um bloco de músicas das antigas, em que brilha “Santa Madre Cassino”, justamente pela resposta do público, em uma cantoria linda, ao reger do maestro Jimmy. E que dá até para encaixar, mais adiante, “Mais Um Dia Por Aqui”, desenterrada de priscas eras quando juntar meia dúzia de três ou quatro era difícil pra dedéu. E assim mesmo misturar, parece até que no modo aleatório inconsciente coletivo, pedradas como “Eu Não Gosto de Ninguém”, patrimônio inalienável do público, em letra e música; “A Arte do Insulto”, que parece ter se tornado real profissão de fé do ideário camisa preta da noite; o dilema desapontador de “O Último Bar”; ou mesmo “Tudo Errado”, nem sempre contemplada pelos palcos do grupo.

Verificações que enterram os argumentos segundo os quais um show do Matanza é sempre a mesma coisa. E são reforçadas por versões bem diferentes de algumas músicas, como “Quanto Mais Feio”, espécie de surf heavy music metal; “Santânico” (sane-se lá qual parte), que se pronuncia mais lenta e é arrematada numa velocidade abissal, imposta pelo batera Jonas; e a mítica “Clube dos Canalhas”, sem o blábláblá de antes. Mudanças que, por vezes, interferem até na coreografia de Jimmy London, resultando em terríveis dancinhas sem noção, mas – vá lá – até divertidas. Curiosamente, a música mais recente da banda, a boa “Assim Começa a Bebedeira”, lançada em um compacto em vinil no final do ano passado, não é tocada, o que também faz lembrar que já é hora de a abanda gravar um novo disco, o sucessor de “Pior Cenário Possível”, que saiu já há mais de dois anos.

Teve até parabéns pra você para Jimmy, o aniversariante deste domingo e para o guitarrista Maurício

Teve até parabéns pra você para Jimmy, o aniversariante deste domingo, e para o guitarrista Maurício

Em que pese o esforço para empurrar goela abaixo quase 40 músicas sem tirar, é preciso registrar ausências relevantes como as de “Pandemonium”, “Em Respeito ao Vício” (aquela do brado “mundo horrível!”, leitura ajustada desses tempos estranhos) ou a tristemente solene “Whisky Para Um Condenado”, entre outras. Para cada uma delas, no entanto, há uma “Ressaca Sem Fim” aqui ou uma “Bom é Quando Faz Mal” acolá que jamais decepcionam para quem está em cima do palco ou no meio do salão. E – acredite se quiser – teve até parabéns pra você, para Jimmy, que comemora neste domingo, 16, e para o guitarrista Maurício, que festejou na semana passsada. Este sim, um breve momento de ternura durante os tais cento e poucos minutos em que o nível de esporro, vibração, êxtase e satisfação geral foi mantido lá nas alturas. Como um show do Matanza deve verdadeiramente ser.

Para ver como foram os shows de abertura, com Inocentes, DFC e Cabeça, clique aqui.

Set list completo:

1- Introdução
2- Interceptor V-6
3- Santa Madre Cassino
4- Rio de Whisky
5- Conforme Disseram as Vozes
6- Bom é Quando Faz Mal
7- O Chamado Do Bar
8- Taberneira, Traga o Gim
9- Tudo Errado
10- O Que Está Feito, Está Feito/Eu Não Bebo Mais
11- Eu Não Gosto de Ninguém
12- Todo Ódio da Vingança de Jack Buffalo Head
13- Quanto mais Feio
14- Clube dos Canalhas
15- Odiosa Natureza Humana
16- Tempo Ruim
17- Matadouro 18
18- Contrycore Funeral
19- Remédios Demais
20- Mesa de Saloon
21- Ressaca Sem Fim
22- Santânico
23- Carvão, Enxofre, Salitre
24- Five Feet High
25- Maldito Hippie Sujo
26- Remédios Demais
27- O Último Bar
28- Ela Não Me Perdoou
29- Mulher Diabo
30- Sabendo Que Eu Posso Morrer
31- Pé na Porta, Soco na Cara
32- Mais Um Dia Por Aqui
33- Meio Psicopata
34- A Arte Do Insulto
35- Ela Roubou Meu Caminhão
36- Estamos Todos Bêbados
37- Interceptor V-6

O baixista Dony escobar, Donida, Jimmy, o baterista Jonas e Maurício: formação turbinada do Matanza

O baixista Dony escobar, Donida, Jimmy, o baterista Jonas e Maurício: formação turbinada do Matanza

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