O Homem Baile

Arrasador

Com som bem equalizado e precisão na escolha das músicas, Slayer atropela o público no Maximus Festival em performance impecável. Fotos: Alessandra Tolc/ARTS Live Frames.

Tom Araya canta, toca baixo e enlouquece o público em um dos melhores shows do Maximus Festival

Tom Araya canta, toca baixo e enlouquece o público em um dos melhores shows do Maximus Festival

Os três músicos, cascudos, estão de costas para a multidão, enquanto o baterista, oculto entre uma cacetada de pratos e tambores, faz ecoar uma sonoridade sombria e aterrorizante. As luzes mantêm o palco todo em vermelho naquilo que parece reproduzir o outro lado da eternidade. O clima, que vem sendo de fortuita satisfação, é tenso de propósito, como na criação do prenúncio daquilo que, todos sabem, em algum momento vai acontecer. Ecoa, então, um dos maiores e mais funestos riffs de guitarra de todas as épocas. É o Slayer começando a tocar “Raining Blood”, no horário nobre do Maximus Festival, sábado passado (13/5), em São Paulo. E aí, vamos e venhamos, não há quem segure a horda de batedores de cabeça que gira em eterna espiral e levanta literalmente a poeira.

Não é exatamente o início do show, e é até difícil apontar uma curva ascendente quando o quarteto parece ter encontrado o set list mais ajustado para 70 minutos de bola rolando, de modo que há trechos notoriamente matadores. Como a aparição de “Black Magic”, coladinha justamente em “Raning Blood”, que é para a turma não pensar que já acabou e pode descansar. Não é o que deseja Kerry King, que aplica solos sobre solos com uma intensidade impressionante. O baterista Paul Bostaph, cujos serviços prestados em vários períodos da banda não deixa dúvidas, está em uma fase esplendorosa, tocando com incríveis precisão e agressividade, de modo quem não há quem sinta saudades de Dave Lombardo, o batera da formação original, fora desde 2013.

Os guitarristas Gary Holt, importante para essa  fase do Slayer, e Kerry King, aterrorizador até no visual

Os guitarristas Gary Holt, importante para essa fase do Slayer, e Kerry King, aterrorizador até no visual

As irmãs não gêmeas “Dead Skin Mask”/“Seasons in the Abyss” também aparecem grudadas em outro ponto alto da noite. A primeira, anunciada cinicamente por Tom Araya como música de amor, tem até cantoria à capela, antes de King, ensandecido, trocar de mão freneticamente no braço da guitarra. Na segunda, executada com rara perfeição técnica, o público pira pra valer, acelerando como em um trem desgovernado rumo à tragédia. As duas faixas são do álbum “Seasons In The Abyss”, lançado em 1990 e que, guardadas as devidas proporções, é para o Slayer o que foi o “Black Album” para o Metallica, o que de certo modo explica a penetração junto a uma plateia diversificada como a de um festival. E ressalte-se que o Slayer é disparado a banda mais pesada e agressiva de todo o Maximus.

Do álbum mais recente do Slayer, o brutal “Repentless”, lançado há quase dois anos, são duas. A faixa-título, que abre o show com a sensacional introdução de antemão, quando os músicos ainda estão se preparando para entrar no palco, e “When the Stillness Comes”, de início também sombrio, e que se revela atraente ao vivo – mais ainda do que do disco – pelo peso arrastado e torturante aos ouvidos menos calejados. A essa altura, o som tá alto pra cacete e com uma equalização incrivelmente boa, seguramente a melhor de todo o festival. E é natural que Gary Holt, o guitarrista do Exodus emprestado ao Slayer desde 2011, se solte mais nelas; em “Repentless”, ele entra no palco energizado, a mil por hora.

Kerry King, figura singular no mundo do metal, toca guitarra com incríveis precisão e velocidade

Kerry King, figura singular no mundo do metal, toca guitarra com incríveis precisão e velocidade

Holt é peça chave para a sequência da carreira do Slayer após a morte de Jeff Hanneman, em 2013, já que dificilmente o grupo encontraria um substituto melhor que esse contemporâneo na criação do thrash metal, lá pelos idos dos anos 80. O palco segue no melhor estilo Slayer, com as luzes girando freneticamente em verde, azul ou vermelho e os panos de fundo gigantes com as capa de “Repenteless”, assinada pelo brasileiro Marcelo Vasco, e o indefectível logotipo. Outros destaques possíveis em uma noite de elevado nível de satisfação são “Mandatory Suicide”, com a lindeza dos riffs melódicos no início; uma renascida “Postmortem” com os guitarristas apostando corrida; e a instantaneamente enlouquecedora “War Ensemble”. Um show com repertório certeiro, som nas alturas e incrível execução por parte dos músicos. Não tem como ser melhor.

Set list completo:

1- Repentless
2- Disciple
3- Postmortem
4- Hate Worldwide
5- War Ensemble
6- When the Stillness Comes
7- Mandatory Suicide
8- Fight Till Death
9- Dead Skin Mask
10- Seasons in the Abyss
11- Hell Awaits
12- South of Heaven
13- Raining Blood
14- Black Magic
15- Angel of Death

Tom Araya, o baterista Paul Bostaph, oculto, e os detalhes do visual cavernoso do palco do Slayer

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