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Armamento pesado para todos

Sobrando em um elenco que aposta na diversidade estéril, Metallica passa por cima na apresentação mais concorrida de todas as edições do Lollapalooza. Fotos Divulgação Lollapalooza: Camila Cara/MRossi

O líder do Metallica, James Hetfield, faz o símbolo do metal no encerramento da noite de sábado do Lolla

O líder do Metallica, James Hetfield, faz o símbolo do metal no encerramento da noite de sábado do Lolla

Era de se esperar, mas nem tanto. Com um novo álbum no mercado e precisando mostrar a força desse repertório, o Metallica passou por cima do público sem dó no encerramento da primeira noite do Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, neste sábado (25/3). Tocando para o maior público da história de seis edições do festival no Brasil – cerca de 100 mil pessoas no total, segundo os produtores - o grupo soube equilibrar as novidades – nada menos que cinco das 12 músicas novas - com clássicos de todas as épocas, incluindo relíquias nem sempre inseridas nos shows mais recentes. Por isso o show supera o tempo previsto no roteiro para manter as tradicionais duas horas e 20 e 18 músicas, modelo consagrado por uma banda que se reconhece como clássica, contudo, sem jamais cochilar na rede da acomodação.

Foram muitos anos dissecando e revirando de ponta cabeça um repertório encerrado no álbum “Death Magnetic”, que parecia coisa fina até a chegada, no ano passado, do excepcional “Hardwired… to Self-Destruct”. Dele sai quase um terço do repertório, a começar pela dobradinha matadora “Hardwired”/“Atlas, Rise!”, que o público já conhece como se das antigas fosse, cantando tudo ao pé da letra, sobretudo nos refrães. Pense quantas bandas nesse mundão do rock iniciam um show com um armamento tão pesado, com um riff de guitarra distorcido e num volume ensurdecedor; não há, definitivamente, como não ser atingido ou ficar incólume a tal explosão de energia, tanto para fãs do tipo “die hard” como para a farra de ecléticos que habita um festival como o Lollapalooza. É o Metallica para todos, sem perder um grama sequer de seu peso habitual, passando por cima, também, das distinções fortalecidas nesses dias binários de isto ou aquilo.

O baixista Robert Trujillo, o baterista Lars Ulrich, atrás, o guitarrista Kirk Hammett e James Hetfield

O baixista Robert Trujillo, o baterista Lars Ulrich, atrás, o guitarrista Kirk Hammett e James Hetfield

E bota peso nisso. Para James Hetfield, o momento mais pesado do show continua sendo “Sad But True”, no clássico questionamento quase metafísico “Do you wanna heavy?”. Mas como ignorar pauladas na moleira como “Whiplash”, da raiz do thrash da Bay Area californiana, da qual o grupo é sócio fundador, ou a também arrastada “Harvester Of Sorrow”, nem sempre incluída nos shows mais recentes? A apresentação é pesada o tempo todo, mesmo em momentos mais refinados, convertidos em cantarolagem explicita, como o solo de guitarra que faz o interlúdio da hoje incrivelmente palatável “Master Of Puppets”; em “Memory Remains”, essa acessível de berço mesmo; ou em “Fade to Black”, verdadeira obra-prima da criatividade do metal pesado, que faz o povão soltar a voz como poucas vezes faz em outras ocasiões.

Porque na maior parte do tempo, aquela turma que se aboleta na frente do palco está se estapeando de lado a outro, em aberturas de rodas de dança que se intercedem entre si, em um espetáculo raro, considerando ainda a visão além do horizonte do povaréu na espécie de vale onde o palco principal do Lolla é montado já há quatro anos; é gente que não acaba mais. O show da nova turnê é, para além da música, todo remodelado. Saem a passarela gigante que colocava a bateria de Lars Ulrich nas alturas, e as transmissões de vídeos do próprio show, ao vivo, e entram clipes renovados para todas as músicas, subvertendo a ordem tecnológica com imagens em sépia e nem sempre com alta resolução. Sai a pirotecnia que fazia tudo pegar fogo – até “Fuel” rodou do set – e entram mais raios lasers, sobretudo lançados junto com fumaça sobre o público. Em “One”, o efeito, entre metralhadoras de guitarras, e junto com o dramático vídeo, tem o auge na apresentação.

James Hetfield agitando com Robert Trujillo e suas caras e bocas, no início do show do Metallica

James Hetfield agitando com Robert Trujillo e suas caras e bocas, no início do show do Metallica

Longe se ser cansativo como diz um desses clichês do rock ao longo dos anos, os solos dessa vez são mais estendidos e ainda muito significativos. O do baixista Robert Trujillo, que chega a batucar no instrumento como se atabaque fosse, lembra Cliff Burton, da formação original, morto em 1986 em um acidente com o ônibus de turnê, citando coisas antigas como “Anesthesia (Pulling Teeth)”. O de Kirk Hammett, que nem precisa de um solo específico, já que esmerilha a guitarra o tempo todo com destacada destreza, lembra canções como “Leper Messiah” e outras do imaginário do fã de longa data. Mais do que tempo para rearranjo de palco, como acontecia antes, são momentos de pura inventividade individual, mas nada supera a junção dos três integrantes – além, de Trujillo e Hammett, James Hetfield – na beirada do palco tocando, como em “One”, por exemplo, ou acumulados no praticável da bateria, rodeando Lars, em “Master Of Puppets”.

Ainda entre as músicas novas, “Moth Into Flame”, que para sempre será lembrada pelo rebolado sem noção de determinada musa pop, é Hetfield que desembola um admirável novelo de riffs, para alguém que já teve tantos highlights de secar a fonte na carreira de mais de 30 anos. “Now That We’re Dead” mantém o peso do álbum e do show, e “Halo on Fire” é a que menos apetece o público, muito embora tenha sensível apelo e guarde para a parte final uma estonteante evolução instrumental. Outras do ótimo álbum novo poderiam ter entrado no repertório do show, como “ManUKind”, dedicada a Lemmy Kilmister, ou “Spit out The Bone”, prima distante de “Battery”, mas como reclamar quando ela própria – “Battery” – abre o bis furiosamente? Fúria contrabalanceada pela insossa “Nothing Else Matters”, cuja vocação – dizem – é dar projeção a cantoras irrelevantes, mas que se converte em alegria na indispensável “Enter Sandman”, a excepcional canção que faz do Metallica ser o que é hoje. Metallica para todos.

Membros fundadores do Metallica: Lars Ulrich recebe James Hetfield no praticável de sua bateria

Membros fundadores do Metallica: Lars Ulrich recebe James Hetfield no praticável de sua bateria

Set list completo:

1- Hardwired
2- Atlas, Rise!
3- For Whom the Bell Tolls
4- Memory Remains
5- The Unforgiven
6- Now That We’re Dead
7- Moth Into Flame
8- Harvester Of Sorrow
9- Halo on Fire
10- Whiplash
11- Sad But True
12- One
13- Master of Puppets
14- Fade to Black
15- Seek & Destroy
Bis
16- Battery
17- Nothing Else Matters
18- Enter Sandman

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