O Homem Baile

Atropelou

Em show intenso e contagiante, Bad Religion passa por cima da plateia do Lollapalooza. Foto: Mila Maluhy/Divulgação T4F.

badreligionlolla-1Quer fazer um show de rock de verdade em um festival cheio de bandas descoladas que não duram mais de 15 minutos de fama, mas só tem uma horinha disponível? Chame o Bad Religion! Foi o que aconteceu na tarde deste sábado (12/3) no primeiro dia do Lollapalooza desse ano, com o veterano grupo expurgando 24 músicas uma atrás da outra, sem blablablá ou refresco para a multidão que chegou cedo ao Autódromo de Interlagos. Nem a previsão sombria de chuvas em rede nacional se confirmou: as nuvens carregadas passaram de passagem pelo festival no primeiro dia. O que certamente também não atrapalharia uma tarde desde já clássica e que fez lembrar a estreia do grupo há 20 anos, no Close Up Planet. Mudam-se os festivais, fica o Bad Religion.

A rigor, o repertório nem teve que ser tão reduzido para ser encaixado no Lolla. Nas duas últimas vezes no Brasil, o quinteto tocou mais ou menos o mesmo tempo: foram 25 músicas em 2011 (veja como foi no Rio) e 29 em 2014 (relembre também). A novidade dessa vez é o baterista Jamie Miller, substituto de Brooks Wackerman, que depois de 14 anos saiu para integrar o Avenged Sevenfold. Miller, que fez carreira no barulhento Trail of Dead, não desaponta e segue impingindo a velocidade que uma banda de hardcore precisa, contribuindo decisivamente para a intensidade do show. Da formação original segue o vocalista Greg Graffin, o baixista Jay Bentley e o controverso guitarrista Brett Gurewitz, que não viaja com a banda, e por isso mesmo não está no palco. Completam o time os guitarristas Brian Baker e Mike Dimkich (que já tocou no The Cult).

“Pra vocês que estão chegando agora, não estão atrasados, podem chegar, somos o Bad Religion”, diz Graffin logo depois de o grupo mandar o superclássico “21st Century (Digital Boy)”, nada menos que a segunda da tarde, para ser ter uma ideia se como o fósforo foi riscado. Ele sabe que as programações sobrepostas de festivais como o Lolla levam a traslados emergenciais que confundem os desavisados. O repertório, contudo, não é aquele apanhado de hits que muitas vezes uma banda se obriga a tocar temendo não agradar a um público grande; e tinha gente pacas no Palco Principal. No set, há blocos inteiros com músicas nem tão bombadas assim, como a sequência “New Dark Ages”, com bela intro melódica, “Supersonic”, “Prove It” e “Can’t Stop It”. Mesmo assim, não há quem não se divirta em rodas de dança, uma atrás da outra.

Pode até parecer o show que o Bad Religion costuma fazer pelo mundo, mas o GPS da banda está em dia. Ainda na parte inicial Greg Graffin relembra os 35 anos de banda e os “20 anos e alguma coisa” da tal primeira vez no Brasil. Em “New America”, Bentley encaixa um “Brazilian” aqui e outro acolá, e é São Paulo que aparece queimando em versos do modificados de “Los Angeles Is Burning”. Ao todo, 13 dos 16 álbuns lançados pelo grupo são comtemplados sem que ninguém perceba o que está realmente se passando, dado o alto poder explosivo que elas carregam. Reforça-se que, além do hardcore melódico urgente praticado durante anos, o Bad Religion é uma das bandas que melhor decifra as mazelas da decadente sociedade americana, na qual, obviamente, está inserido e ativo.

“You” naturalmente é dedicada ao público, que saracoteia de vez na parte final – aí sim – com os grandes sucessos que sempre foram incluídos nas outras sete vezes em que o Bad Religion passou por essas plagas. Entre elas a cadenciada “Infected”, muito tocada no Brasil na década de 1990 e já devidamente alojada no rol das clássicas do grupo. A partir de “Fuck Armageddon… This Is Hell”, com a abertura da maior roda de dança já vista, a adesão da plateia, que já era generosa, é total. Ou alguém duvida da capacidade cativante de pedradas como “Sorrow”, “Generator” e “American Jesus”? Do jeito que adentrou o palco, a banda sai agradecendo ao público mais que fiel, 20 anos depois do primeiro encontro. De agora em diante, só vai se falar daquele Lolla em que tocou o Bad Religion. Ou do dia em que o Bad Religion atropelou o Lollapalooza. Podem anotar.

Set list completo:

1- Fuck You
2- 21st Century (Digital Boy)
3- Overture
4- Sinister Rouge
5- Come Join Us
6- New America
7- Do What You Want
8- You Are (The Government)
9- Delirium of Disorder
10- Suffer
11- New Dark Ages
12- Supersonic
13- Prove It
14- Can’t Stop It
15- Atomic Garden
16- Los Angeles Is Burning
17- I Want to Conquer the World
18- Punk Rock Song
19- You
20- Fuck Armageddon… This Is Hell
21- Infected
22- Sorrow
23- Generator
24- American Jesus

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