O Homem Baile

O verdadeiro

Com banda afiada, Slash revive clássicos do Guns N’Roses sem deixar de lado a boa carreira solo que, enfim, começa a decolar. Foto: Bruno Eduardo (1) e Patrick Magalhães/Divulgação (2, 3 e 4).

Slash se diverte feito uma criança tocando o repertório de várias fases da carreira com sua banda solo

Slash se diverte feito uma criança tocando o repertório de várias fases da carreira com sua banda solo

Ainda não é meia-noite no sábado da Lapa e, dentro da Fundição Progresso, no canto direito do palco, um cabeludo sem camisa com uma cartola na cabeça que lhe esconde as vistas está de joelhos, solando uma guitarra empunhada na vertical como se não houvesse amanhã. É o desfecho de uma apresentação memorável do guitarrista Slash e sua banda solo. Enquanto ele debulha a guitarra na parte final de “Paradise City”, quem vai ao paraíso sob confetes esvoaçantes é o público que lotou a casa, recompensado com um show de rock de verdade que revê a carreira o guitarrista, mas tem o olhar apontado para frente.

O polivalente Myles Kennedy: verdadeiro achado

O polivalente Myles Kennedy: verdadeiro achado

Não que não se esperasse de Slash um show do tipo “sem erro” como o que ele fez por aqui no ano passado (veja como foi no Rio), mas o caso é que sua banda está redondinha, bem entrosada. Saiu há pouco do estúdio com “Apocalyptic Love” debaixo do braço, um disco em que todos os integrantes participaram das composições e gravações. O primeiro disco solo, com um vocalista em cada faixa, mais parece uma coletânea de singles que não se pode chamar de “álbum”, muito embora tenha boas composições. Não por acaso, nas duas horinhas de show, sete músicas de “Apocalyptic Love” foram tocadas, muitas delas cantadas em uníssono pelo público, numa resposta imediata à continuidade do trabalho de um dos guitarristas mais representativos de sua geração.

Nesse contexto, o vocalista Myles Kennedy é um verdadeiro achado. Afiadíssimo, manda muito bem no repertório das outras bandas de Slash e apresenta as músicas novas com uma destreza de arrepiar. Em “You’re a Lie”, hit do novo álbum, já na parte final do show, mostra grande sustentação e alcance vocal. Na baladaça “Not For Me”, tem a inusitada companhia do público, que canta o início da música quase à capela, numa demonstração de que o povo tá ligado no material novo. “Starlight”, então, do primeiro disco, é praticamente um clássico, cantado a plenos pulmões pela multidão. Mas é fazendo as vezes de Scott Weiland (na solitária “Slither”, única do Velvet Revolver no set) e sobretudo de Axl Rose, que Kennedy tem sua prova de fogo. E o desempenho é tão bom que não é exagero concluir que a banda de Slash, na prática, é o verdadeiro Guns N’Roses, caso o Guns fosse a banda legal de quando começou até hoje.

Slash acabou ajoelhado no solo de 'Paradise City'

Slash acabou ajoelhado no solo de 'Paradise City'

Myles Kennedy, hoje, canta muito mais que Axl, o que - diga-se - não chega ser grande vantagem, dado o estado de detonação vocal a que este chegou. Até o baixista Todd Kerns, que cantou em três músicas, sendo duas do Guns, manda melhor que Axl. A dobradinha “Doctor Alibi”/“You’re Crazy”, com ele nos vocais, é um dos grandes momentos do show. A primeira, gravada originalmente com Lemmy no gogó, é legitima representante da fusão do punk com o hard rock tão bem explorada pelo Guns N’Roses. A segunda, renovada com peso e velocidade cavalares, surpreendeu até os fãs de longa data, que custaram a se dar conta de que se tratava de outro clássico do inabalável “Appetite for Destruction”.

Mas o show é de Slash, um guitar hero das antigas que sabe colocar o instrumento à favor da música, não da virtuose estéril, como julgam alguns.Tanto que, nos dois momentos solo, a banda participa. No segundo, até Myles Kennedy se vira numa guitarra, junto com o guitarrista de turnê, Frank Sidoris, e o resultado é uma jam session intensa, calcada no blues, com Slash debulhando a guitarra sem perder o feeling; já estava mesmo na hora de deixar de lado o tema do “Poderoso Chefão”. O outro momento solo vem antes, no meio de “Rocket Queen”, quando Slash começa com certa despretensão e depois envolve o público numa evolução espetacular. Não é sempre que solos de guitarra soam tão atraentes para grandes plateias como acontece dessa vez. E isso sem falar no desenvolvimento de cada música, quando o guitarrista quica de lado a outro do palco, denunciando que está se divertindo a valer durante o show.

As músicas do Guns foram o ponto alto do show

As músicas do Guns foram o ponto alto do show

O cancioneiro do Guns N’Roses totaliza outras sete músicas no show, com destaque absoluto para “Sweet Child O’Mine”, tocada com a costumeira precisão. Slash percorre cada nota, fazendo tudo que tem na gravação original, e Myles Kennedy mostra os trejeitos vocais de Axl ensaiadinhos. É o momento mágico no qual é possível ver quem criou cada pedacinho de um clássico gigante do rock, fazendo tudo de novo, bem ali na frente de todos. Uma sensação intensa, completa e indescritível que só o rock pode proporcionar. A novidade – e que leva o público ao delírio - é “Welcome to the Jungle”, reinserida no repertório dos shows de Slash há pouco tempo, e que, segundo ele, só é tocada em ocasiões tidas por ele como especiais. Como a de ontem.

A abertura ficou por conta do Porn Queen, banda formada por brasileiros radicados em Luxemburgo, que volta e meia faz shows junto com Slash. O grupo investe um hard rock clássico dos mais interessantes, muito embora uma pegada mais pesada realce em algumas músicas. Com meia hora para dar o recado, eles nem precisavam mandar o cover de “Man In The Box”, do Alice In Chains, para agradar ao públlico. Mas que a galera gostou, ah, gostou. A turnê de Slash segue amanhã, dia 4, em Brasília, no Opera Hall; São Paulo, dia 6, no Espaço das Américas; Curitiba, dia 7, no Master Hall; e Porto Alegre, dia 9, no Pepsi On Stage. Clique aqui e veja matéria completa sobre a turnê.

Set list completo
1- Halo
2- Nightrain
3- Ghost
4- Standing in the Sun
5- Back From Cali
6- Been There Lately
7- My Michelle
8- Rocket Queen
9- Bad Rain
10- Not for Me
11- Doctor Alibi
12- You’re Crazy
13- No More Heroes
14- Starlight
15- Solo de guitarra/jam
16- Anastasia
17- You’re a Lie
18- Sweet Child O’ Mine
19- Slither
Bis
20- Welcome to the Jungle
21- Paradise City

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