O Homem Baile

Porrada

Em apresentação arrasadora, Max Cavalera estreia o Soulfly no Rio e revive os tempos áureos do Sepultura; peso e calor transformam Circo Voador em panela de pressão gigante. Fotos: Luciano Oliveira.

Max Cavalera mostra o símbolo do metal para o agitado público que se acaba em rodas de pogo sem fim

Max Cavalera mostra o símbolo do metal para o agitado público que se acaba em rodas de pogo sem fim

Na última vez em que esteve no Rio, Max Cavalera consolidava o Sepultura como a banda brasileira mais bem sucedida no exterior em todos os tempos. Os dois shows lotados realizados – que diria - no Imperator, no Méier (veja como foi), encheram os brasileiros de orgulho e trouxeram a inabalável certeza e que havíamos chegado lá. Antes do final de 1996, no entanto, o castelo de areia já tinha se desmoronado e hoje tudo isso é história. Passados 15 anos, ontem, com o Soulfly, Max fez um apanhado de sua trajetória para um público apenas razoável, mas que, no fim das contas, não fez feio e seguramente trouxe ao “boy from Brazil” lembranças de outros tempos; aqueles em que os garotos do Sepultura, Ratos de Porão e Dorsal Atlântica faziam a festa no mesmo Circo Voador.

O filhão Zyon Cavalera detonando a bateria sem dó

O filhão Zyon Cavalera detonando a bateria sem dó

O que se anunciava antes de o show começar teve confirmação logo na segunda música da noite. O riff de “Prophecy”, num volume ensurdecedor, mostrou que o guitarrista Marc Rizzo, notório debulhador, não estava para brincadeira e, sob um calor descomunal, transformou a moderna e isolante lona do Circo numa panela de pressão dos infernos. Max certamente nunca esteve tão perto do escritório do capeta como ontem. A sensação de sufoco, pânico e falta e ar era, no entanto, convertida em satisfação pelo volume descomunal dos instrumentos. Não havia dente quebrado nem boca torta, era porrada atrás de porrada. Como um trator desembestado, o Soulfly passou o rodo nos resquícios carnavalescos que encheram o saco nos últimos dias e restabeleceu a ordem natural das coisas.

Nos fundos, Max colocou na bateria aquele mesmo bebê erguido na Praça da Apoteose, em 1994, em pleno Hollywood Rock. Hoje com 19 anos, o filhão Zyon se transformou num baterista esguio, um Bruce Lee das baquetas que, ágil, não pára quieto. Se o Sepultura tem um jovem batera prodígio, o Soulfly também tem, muito embora Zyon ainda tenha que comer muito angu para chegar perto de Eloy Casagrande. Em “Revengeance”, a única música do novo álbum, “Enslaved”, incluída no set, o outro filho, Igor, e um dos enteados de Max se revezam nos vocais e outros membros do clã dos Cavalera gravam tudo lá atrás do palco. Os garotos se divertem com moshs e revivem o Max em início de carreira que se jogava daquele mesmo palco sobre a multidão heavy metal, mais de vinte anos antes.

O debulhador Marc Rizzo mostra ao que veio

O debulhador Marc Rizzo mostra ao que veio

Embora o Soulfly esteja prestes a lançar o oitavo álbum, era de se esperar que músicas do Sepultura fossem as preferidas do público, mas o grupo se superou. A versão ultra porrada pra “Refuse/Resist”, mais acelerada que o normal na segunda parte, emendada com “Territory” foi de uma exuberância esporrenta que banda brasileira em geral não alcança. “Innerself”, que um dia a Globo proibiu, atinge uma perfeição thrash de impressionar. Atônito, o público se movia e lado à outro, em resposta ao chamado de Max para que todos agitassem sem parar. A entrega dele é também notável. Por mais que o show tenha um roteiro e deva ser o mesmo noite após noite, tudo que sai de cima daquele palco parece vir do fundo da alma, incluindo as camisetas do Celtic Frost e do Dorsal Atlântica, banda com a qual Max tem indestrutível elo.

Há quem reclame de muitas músicas do Sepultura no set, mas como deixar pra trás a história depois de tanto tempo ausente? Com o Soulfly, Max sofreu duro afastamento da mídia dita especializada no Brasil, por “não fazer metal”, e só agora parece ter de volta às portas abertas. Talvez por isso o público não tenha sido o bastante para lotar o Circo e até músicas das mais conhecidas do grupo, como “No” e “Rise Of The Fallen”, com poderosos refrões, não tiveram a acolhida que têm ao redor do mundo. É sempre um recomeço para quem já fez história. A duração de hora e meia do set, com 22 músicas, incluindo as emendadas, poderia ser estendida, mas, bem engendrado, o show detona como deve ser: curto, direto, pesado, extremo e matador. Uma porrada nos cornos que não permite câmera lenta. Que não demore tanto tempo assim para voltar.

Fardado para a guerra, Max comanda a tropa

Fardado para a guerra, Max comanda a tropa

Set list completo

1- Intro
2- Rise Of The Fallen
3- Prophecy
4- Back to Primitive
5- Dowstroy
6- Seek N’ Strike
7- Refuse/Resist
8- Territory
9- Porrada
10- Solo de bateria/tambores
11- Tribe
12- No Hope = No Fear
13- Bring It
14- Troops Of Doom
15- Arise/Dead Embrionic Cells
16- Innerself
17- No
18- Attitude
19- Revengeance
Bis
20- Roots Bloody Roots
21- Jumpdafuckup/Eye For An Eye

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Comentários enviados

Apenas 1 comentários nesse texto.
  1. Nilton jR. em fevereiro 28, 2012 às 19:29
    #1

    Raiva do caralho de não ter ido nesse show!

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