No Mundo do Rock

Carona boa

Regravando a íntegra de discos clássicos do rock em versão reggae, o Easy Stars All-Stars se consolida no mercado antes de partir para uma carreira autoral. Fotos: Divulgação/Reprodução.

As estrelas do Easy Stars All-Stars, que se especializaram em versões reggae para clássicos do rock

As estrelas do Easy Stars All-Stars, que se especializaram em versões reggae para clássicos do rock

O que os álbuns “The Dark Side Of The Moon”, do Pink Floyd, “OK Computer”, do Radiohead, e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, têm em comum? Além de serem clássicos eternos de diferentes épocas da história do rock, foram todos convertidos em versões reggae por uma turma chamada “Easy Stars All-Stars”. Numa ideia que surgiu por puro acaso, os malandros ficaram conhecidos em todo o mundo por causa do CD “Dub Side Of The Moon” (2003) e fazendo turnês pelos cinco continentes, incluindo o Brasil. A última faceta deles é o “Easy Stars’s Lonely Heats Dub Band” - cujo original você sabe de quem é -, lançado agora no Brasil, com cerca de um ano de atraso.

O dono da bola é o produtor e multiinstrumentista Michael Goldwasser, tendo como cúmplices Victor Axelrod aka Ticklah, Patrick Dougher e Victor Rice, que fazem de tudo um pouco. Mas os álbuns costumam ter vários convidados, incluindo nomes consagrados como o britânico Steel Pulse e os clássicos jamaicanos Israel Vibration e The Meditations. Goldwasser também comanda a Easy Stars Records, especializada – claro – em reggae e adjacências. Depois do EP “Until That Day”, com seis músicas próprias, o grupo está trabalhando num álbum inteirinho autoral, mas pretende continuar reggaezando o rock por aí.

Nessa entrevista feita por e-mail, Michael Goldwasser explica como é o processo de escolha dos álbuns a serem revistos, dos músicos que participam de cada faixa, da dificuldade de regravar músicas do Radiohead (em “Radiodread”, de 2006), e sobre os lançamentos da sua gravadora. Ele aproveita para detonar os downloads ilegais, que considera “roubar dinheiro de música honestos”. Ué, mas mesmo pagando os direitos autorais, do ponto de vista artístico não é isso que o Easy Stars All-Stars anda fazendo? Veja no que deu a conversa:

Rock em Geral: Como vocês começaram com essa história de regravar álbuns clássicos do rock em versões reggae/dub?

Michael Goldwasser: Meu sócio na Easy Star Records veio com essa ideia, ele é um grande fã do “Dark Side Of The Moon”. Um dia, há uns dez anos, ele estava ouvindo esse disco e pensou: “ei, talvez possamos fazer uma versão reggae”! Aí e trouxe a ideia para mim e para ou outros sócios, eu fiz uma demo com arranjos para algumas músicas do disco e vimos que poderíamos fazer.

Pink Floy: o maior sucesso da turma

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REG: Vocês já tiveram problemas com direitos autorais dos artistas que compuseram originalmente os discos?

Goldwasser: Nunca tivemos problema nenhum. O pessoal que cuida dos direitos do Pink Floyd, por exemplo, são muito colaborativos. E, depois, por causa do sucesso do disco “Dub Side of the Moon”, ficou mais fácil fechar acordo com os outros artistas.

REG: Em geral há muitos convidados nos discos. Como você escolhe esses músicos? Eles tocam nos shows também?

Goldwasser: Escolhemos os convidados com base em quem pode se sair melhor em cada uma das músicas. Nem sempre conseguimos aquele que foi o primeiro a ser escolhido, mas há muitos cantores de reggae, de modo que não é difícil ter mais de uma opção para cada música. Conhecemos um monte de artistas de reggae pessoalmente, e se não conhecemos, não é difícil conseguir os contatos. Em geral não temos esses artistas nos acompanhando no palco porque eles têm suas próprias carreiras e suas agendas. Mas alguns integrantes do Easy Star que participam das turnês também tocam nos discos, como Kirsty Rock e Menny More.

REG: Quando vocês decidem regravar um disco, vocês planejam fazer as músicas de uma forma que ela fique identificada com o tipo de música original ou só convertem os arranjos para a versão reggae/dub?

Goldwasser: Nosso conceito é dizer “o que aconteceria se este disco tivesse sido gravado na Jamaica na era de ouro do reggae?”. Tentamos manter o espírito do álbum original, mas dando a ele vibrações do reggae.

REG: De todos esses discos que vocês fizeram, qual foi o mais difícil de gravar?

Goldwasser: É difícil dizer isso. Uma vez que a banda aprende a tocar todo o material, não acho que há algo realmente difícil de tocar, apesar de músicas com características próprias do autor serem difíceis de serem mexidas. O disco mais complicado de fazer, para mim, como produtor, na hora dos arranjos, foi provavelmente o “Radiodread”, porque o Radiohead usou muitas dessas características próprias no “OK Computer”.

REG: Como foi a experiência de fazer o show do “The Dub Side Of The Moon” no Brasil?

Goldwasser: A banda adora tocar no Brasil! Acho que todos adorariam tocar aí sempre que possível. Os fãs são ótimos, as culturas locais são ótimas e a vibração também.

O 'Ok Computer' virou 'Radiodread'

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REG: Agora que vocês têm três álbuns, vocês costumam tocar músicas de todos eles nos shows, ou só tocam a íntegra de cada um? Têm tocado músicas próprias também?

Goldwasser: Um típico show nosso tem músicas dos três álbuns tributo e algumas de composição própria da banda. Ocasionalmente temos tocado a íntegra de um dos álbuns numa noite, o que é sempre divertido para o público.

REG: Em 2008, vocês lançaram o EP “Until That Day”, só com músicas próprias. Vocês pretendem impulsionar uma carreira de músicas autoral?

Goldwasser: Todos na banda são compositores, o EP foi uma boa oportunidade de nos expressarmos. O EP foi bem recebido, tanto que agora estamos trabalhando num disco inteiro só com músicas próprias.

REG: Qual dos discos de vocês é o de maior sucesso?

Goldwasser: O “Dub Side Of The Moon” tem feito mais sucesso. Duas razões principais: é baseado num disco muito popular e foi lançado em 2003, quando as pessoas estavam comprando mais música, legalmente. Agora é muito mais difícil vender música porque muita gente pensa que a música deveria ser gratuita e não percebe que o download ilegal ou “queimar” CDs é roubar dinheiro de música honestos, produtores e gravadoras que estão fazendo boa música.

REG: Assim como vocês fazem com o reggae, você acha que todo o tipo de música pode ser convertida em todos os tipos de gêneros/estilos? É possível fazer versões heavy metal ou bossa nova (só para citar dois) de qualquer tipo de música?

Goldwasser: Música é música. Uma pessoa criativa pode fazer qualquer coisa com ela. Mas isso não é dizer que toda música soaria bem em todo gênero. Quando escolhemos um disco para adaptar, somos muito conscientes de como cada música dele pode funcionar, de alguma maneira, de um jeito reggae – não queremos fazer isso só por fazer.

REG: Como anda a Easy Star Records? Muitos novos artistas contratados?

Goldwasser: Estamos bem. Temos um novo cantor, Cas Haley, que vocês devem conhecer do espetáculo “America’s Got Talent”, ele participou há algumas temporadas. O estilo dele é reggae misturado com pop, soul, rock, blues – muitas influências. O disco dele se chama “Connection” e sai no dia 14 de setembro. Também temos um novo álbum, “Dubber Side of the Moon”, que são remixes das músicas do “Dub Side…” feitos por vários DJs, incluindo o Victor Rice, de São Paulo, que sai em outubro. Estamos bem ocupados!

REG: Vocês fazem muitas turnês. Fale como é tocar ao vivo mundo afora:

Goldwasser: É incrível tocar em tantos lugares diferentes. Estivemos em todos os continentes, exceto a Antarctica. As platéias são ótimas em todos os lugares – estão sempre interessados por um bom reggae e um bom show, e a música é verdadeiramente uma linguagem universal. Eu pessoalmente adoro tocar em Israel, minha terra natal – é muito gratificante poder compartilhar música que eu produzi com meus amigos e familiares.

Vítima mais recente: Beatles

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REG: Já tem um ano que vocês lançaram o “Lonely Hearts Dub Band”. Já há planos para outro tributo? Depois de discos dos anos 70, 90 e 60, chegou a vez de um dos anos 80?

Goldwasser: Sim, estamos tramando o próximo. Não posso falar de qual década, mas só queremos fazer aquilo que fique melhor.

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