Bola é Bola Mesmo

Que Copa América que nada

Fora eliminação de França e Itália, tudo na mais perfeita ordem no mundial da África do Sul; qualquer coisa pode acontecer nas quartas de finais, cuja única barbada é a vitória do Uruguai.

Me preocupa o confronto Brasil contra a Holanda na sexta que vem. Não sou do tipo que torce com pessimismo e, como todos sabem, defendo a tese da superioridade da tradição da camisa, sobretudo em Copas do Mundo. Mais ainda, estou certo que o vencedor dessa Copa será uma equipe da América do Sul, conforme cravei anteriormente. O que estaria a me preocupar, então? Ocorre que a Holanda tem um daqueles times em que ninguém é ruim. Do goleiro ao ponta esquerda – e eles têm pontas, no time titular e no banco – não há sequer um perna de pau. Fora de série, é verdade, há dois (Sneijder e Robben) ou no máximo três, incluindo o habilidoso Rafael Van Der Vaart.

O que Sneijder e Robben fazem nos gramados sul africanos e já vinha fazendo nas eliminatórias e nos amistosos (a Holanda está invicta a não sei quantos jogos) tem, para mim, um “quê” de nostalgia. A dupla executa exatamente uma das jogadas que consagrou a Máquina Tricolor dos anos 70. Zé Mário ou Pintinho roubava a bola no na intermediária do Flu e passava para Rivelino, que, de imediato, descolava um lançamento de 50 metros para achar Búfalo Gil na ponta direita. Este driblava para dentro e disparava uma bomba de canhota para marcar. Troquem Riva por Sneijder e Gil por Robben e temos a jogada infalível da Holanda. Parece simples, de tão óbvia, mas vai tentar impedir… A Inter de Milão, com Lúcio e Maicon na zaga, contra o Bayern de Robben, na final da Liga Européia, conseguiu, graças ao técnico José Mourinho. Cabe a Dunga resolver essa parada e é justamente aí que mora o perigo.

Mas o Brasil também tem seus pontos fortes. Será que a Holanda pára o trio Kaká, Robinho e Luis Fabiano? E as subidas de Maicon, Kuyt, ponta que recua para marcar, vai mesmo segurar? Perguntas que serão respondidas só na sexta. O fato é que a Holanda, depois de tantos anos jogando bonito e morrendo depois da praia, agora adquiriu uma quantidade de pragmatismo que pode lhe ser útil, coisa que o Brasil, depois de uma seca de 24, também o fez, em 1994. Só que agora, tecnicamente, a coisa tá pau a pau. Para a seleção de Dunga, um conselho: marque bem os holandeses e busque contra atacar. Senão, babau.

Até agora não entendi, terminada a primeira fase, o que aconteceu com a seleção da França. É óbvio que não foi o futebol de craques como Evra, Henry, Ribery, Malouda e Gallas, entre outros, que eliminou a equipe. Há muita coisa por trás dessa história de fracasso retumbante que precisa vir a público. E a coletiva que Evra iria dar ao voltar ao país? Não rolou? Já a Itália jogou como nas outras Copas, na conta do chá na primeira fase, para passar apertado e só então estrear nas oitavas. Só que, por um ponto, ficou foi eliminada e ficou no último lugar, atrás de Nova Zelândia, o que configura uma pesada derrota para a crônica esportiva. Não para mim, porque, se empatasse na partida final do grupo, com a figurante Eslováquia, teria se classificado com três empates, igualzinho em 1982, ano em que terminou campeã. Na época, o time desqualificado virou um esquadrão. Ou seja: nesse jogo, continua valendo o resultado, e a Itália, sim, faz falta, assim como a França.

Os outros resultados foram absolutamente normais, exceto um Japão aqui no lugar da Dinamarca ou uma Coréia do Sul à frente da Nigéria acolá – também com aquele gol perdido por Yakubu contra a Coréia do Sul… Tudo também teria sido normal nas oitavas caso a arbitragem não tivesse dado o ar da graça. O excelente Jorge Larrionda e Roberto Rosetti acabaram traídos por seus bandeirinhas. Foram eles que induziram o árbitro a erros espetaculares, sobretudo o do gol de Lampard, para a Inglaterra, contra a Alemanha, que teria evitado, no mínimo, a goleada - quiçá a eliminação. Sim, porque com um dois a dois, a Inglaterra não teria partido para cima dos alemães com tanta volúpia a ponto de oferecer os dois contra-ataques mortais que resultaram nos gols que selaram a goleada. Larrionda interferiu, sim, no resultado da partida e deve ser rigorosamente punido.

O erro de Rosetti, nem tão grosseiro assim, também foi induzido pelo bandeira, mas o árbitro poderia ter se corrigido ali mesmo, antes de dar a nova saída. Ocorre que o lance foi repetido no telão, o bandeirinha viu o erro, comunicou ao árbitro que, em vez de consertar a lambança, preferiu insistir no erro. E insistir no erro é burrice, né? Ambos os equívocos poderiam – e podem – ser evitados sem recursos eletrônicos mais sofisticados. Basta colocar um monitor dentro de campo para um quarto integrante a arbitragem conferir o replay e buzinar no ponto no ouvido do juiz. Mas, antes disso, que tal parar de insistir em bandeiras de mesma nacionalidade e adotar o critério técnico para escalá-los? Um desconhecido bandeira uruguaio pode ter acabado com a carreira de Larrionda. Roberto Rosetti se enterrou sozinho mesmo.

Com tudo isso, os bons jogos das oitavas de final aconteceram sem qualquer surpresa. Porque Alemanha ou Inglaterra poderiam ter vencido o clássico, com ou sem roubalheira. E, a bem da verdade, a Argentina bateria o México de um jeito ou de outro, que o diga o zagueirão Osorio. A púnica zebra, para mim, é a ignóbil seleção de Gana, que, como boa parte das seleções africanas dessa Copa, jogam baixando o pau. Não que o adversário Estados Unidos fosse lá uma maravilha, mas é uma equipe tecnicamente bem melhor e que vem crescendo muito nos últimos tempos, a ponto de quase tirar do Brasil o título da Copa da Confederações do ano passado. Mas acho que já deu para Gana, e temos o Uruguai como única certeza nas semifinais; nos demais jogos, tudo indefinido. Até o Paraguai pode armar uma retranca daquelas, levar para os pênaltis e derrotar a favorita Espanha, cuja vocação, sabemos todos, é o fracasso. A única coisa certa, como já disse, é a vitória de um sul americano no final. Só não me pergunte como.

Primeira fase
Melhor equipe: Argentina
Melhor jogador: Sneijder (Holanda)
Gol: Villa, da Espanha, contra Honduras, e contra o Chile
Seleção: Enyeama (Nigéria), Maicon (Brasil), Lúcio (Brasil), Juan (Brasil) e Coentrão (Portugal); Mascherano (Argentina), Sneijder (Holanda) e Messi (Argentina); Tevez (Argentina), Higuain (Argentina) e Villa (Espanha)
Técnico: Gerardo Martino (Paraguai)

Oitavas de final
Melhor equipe: Alemanha e Argentina
Melhor jogador: Sneijder (Holanda)
Gol: Tevez, da Argentina, contra o México
Seleção: Stekelenburg (Holanda), Lugano (Uruguai), Lúcio (Brasil), Juan (Brasil) e Lahm (Alemanha); Schweinsteiger (Alemanha), Sneijder (Holanda), Oezil (Alemanha) e Messi (Argentina); Mueller (Alemanha), Higuain (Argentina) e Villa (Espanha)
Técnico: Joachim Loew (Alemanha)

Até a próxima, que só dá sul americano na Copa da África!!!

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