On the road
Seguia o exemplo de Neil Peart, o baterista intelectual do Rush que desandou a viajar solitariamente de moto para superar a perda quase simultânea de esposa e da filha.
Tomou um ônibus e partiu para São Paulo. Não que tivesse alguma coisa para fazer lá do outro lado da Dutra. Precisava de tempo. Tempo para refletir. Morando na Cidade Maravilhosa, poderia ter simplesmente ido à praia, para uma caminhada no calçadão. Ou, ainda, fazer uma trilha numa das frescas florestas que embelezam ainda mais a região. Não. Preferiu, sem saber o porquê, a via mais importante do País. Lembrava do velho fanzineiro que tomava decisões dentro das longas viagens dos circulares que cortam a cidade de lado a outro, em viagens que superavam uma hora. Se sentia, ao mesmo tempo, um Sal Paradise às avessas, o personagem criado por Jack Kerouac em sua mais famosa narrativa. Mas seis horas já eram demais, pensava.
Não para ele. Ou, ao menos, não para o tamanho do problema que precisava resolver. Tinha que dar uma resposta para a pequena. Era continuar ou cessar. Achava que se chegasse ao Tietê com tudo encaminhado seria meio do caminho andado, literalmente. Desde que fora implantada a ponte rodoviária ele não tinha mais problemas de espera na Novo Rio. Sabia o horário das linhas que saíam por menores preços. Não fazia questão do lanche, jornal, água, café, manta e quetais que passaram a ser oferecidos como forma de concorrer com a siamesa aérea. Só precisava do ar condicionado. Seguia o exemplo de Neil Peart, o baterista intelectual do Rush que desandou a viajar solitariamente de moto para superar a perda quase simultânea de esposa e da filha.
Sabia, de cabeça, qual poltrona escolher. A informação de que as ímpares são as da janela é praticamente de domínio público, mas preferia as de número 33, 35. Trinta e um, talvez. Achava que, na parte de trás, por causa do motor, a temperatura não ficaria tão baixa a ponto de tornar a viagem uma geladeira daquelas. Por ser uma das linhas de preço mais acanhado, o motorista não iria exibir aqueles blockbusters que todo mundo já viu, inclusive ele, que nem cinéfilo era. Na parte de trás, teria mais chances de ninguém sentar ao seu lado, e poderia ocupar a poltrona com livros, CD player e vários CDs. Instrumentais como “La Villa Strangiato” e “YYZ”, ou o clássico “Tom Sawyer” seguramente iriam ajudar na difícil tomada de decisão.
A programação era detalhada e incluía a parada para almoço, a cerca de duas horas, duas horas e meia, ou até três, dependendo do ânimo do condutor do veículo. Nunca sabia ao certo o nome do local ou da cidade do Vale do Paraíba que recebia a empresa responsável pela linha. Tinha o hábito de, enquanto selecionava as porções de comida no balcão de banho maria, para posterior pesagem e consumo imediato, ficar tentando lembrar. Três Garças, Guaratinguetá, Queluz e Itatiaia eram nomes próprios que habitavam sua cabeça naquela espécie de intervalo do tempo que tinha reservado para resolver a vida. A brincadeira só acabava com o chamado da moça, que o fazia lembrar o processo que Mike Patton levou da eterna Íris Lettieri.
Com o aparelho digestivo em ação, era o único momento que se permitia tirar uma pestana. Celular devidamente fora de combate, percebeu que já desembarcava na terra dos Bandeirantes. Súbito, sentiu ter decorado, de cor e salteado, tudo que precisava dizer para a moça. Disparou para o guichê a fim de adquirir uma passagem na primeira partida de volta para o Rio. Descobriu que jamais deveria ter saído de lá. E que o lugar dele era realmente no colo daquela recalcitrante de saias. O problema era esperar outras seis horas para dizer isso, ainda mais sabendo que as chances de mudar de idéia, no trajeto, eram gigantes. Ao menos ainda havia as emblemáticas “Finding My Way” e “Freewill”, pérolas do cancioneiro canadense, para ir ouvindo.
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