Bola é Bola Mesmo

Repertório limitado

Seleção de Dunga tem como grande arma o contra-ataque, mas o melhor do jogo de hoje foi aquilo que o técnico detesta: uma bela e hábil jogada de infiltração, pelo meio da defesa adversária

É uma pena que o técnico Dunga faça de seu trabalho uma espécie de relacionamento ambíguo provocativo com a imprensa, que, no fim, somos todos nós. Ele não consegue dar uma simples resposta que não seja revestida de sarcasmo e tenha conteúdo implícito. Até os jornalistas mais equilibrados que trabalham para os veículos chapa-branca já sacaram e se pronunciaram sobre o assunto. A sorte de Dunga (graças ao seu trabalho, vá lá) é que treina o Brasil e conseguiu ganhar quase todos os títulos desde que assumiu. E o azar é nosso de tê-lo por perto.

Não é querer torcer contra – em 1982 tentei e não consegui -, mas o fato é que, admitamos, temos uma seleção prontinha para a Copa. Isso é quase uma unanimidade, ainda que se discuta preferências sobre este ou aquele convocado para vestir a amarelinha. Ainda assim, vê-se que o time do Brasil não é de se encher os olhos. Qualquer torcedor que olhe para os 23 que devem ser convocados não tem o pensamento “esse eu queria o no meu time” com grande parte deles. Ou seja: tem muito cabeça de bagre na seleção brasileira.

No jogo de hoje de tarde, no qual o time entrou em campo para se poupar diante de uma equipe que se saiu bem nas eliminatórias e só não vai à Copa por causa de uma lambança federal (a mão de Henry), tivemos, ainda assim, uma jogada espetacular. O segundo gol, anotado por Robinho, representa o futebol brasileiro em estado de graça, penetrando bem pelo meio de uma retranca européia com toques rápidos, surpreendentes e de encher os olhos. Dois toques de calcanhar num único lance que resulta em gol é covardia. Pena que, no fim das contas, a jogada é uma exceção. Poderia ser diferente com mais jogadores habilidosos em campo.

Depois da partida (que vi em VT), ainda assisti aos melhores momentos na web, e ficou claro que os melhores lances do Brasil surgiram em jogadas de contra-ataque. Já vem sendo assim, e me lembro dos jogos contra o Chile (lá e aqui) em que o Loco Bielsa mandou o time dele pra frente e levou dois sacodes. Ou contra a Argentina, lá em Rosário. É uma forma de jogar, não resta dúvida, mas e se nossos adversários montarem retrancas ferozes – como bem sabem fazer os europeus -, à exemplo do que fizeram Bolívia e Colômbia, bem aqui no Rio? Aí vamos precisar de mais jogadas raras como essa que resultou no segundo jogo de hoje. Só que faltam jogadores habilidosos.

Isso que estou dizendo é o óbvio, coisa que os técnicos das seleções que vão enfrentar o Brasil já anotaram em seus caderninhos. É provável que só a Costa do Marfim, com a vocação dos africanos para o ataque e a irresponsabilidade, parta pra cima do Brasil. Isso se Guus Hiddink não assumir a seleção deles. Coréia do Norte e Portugal, com Cristiano Ronaldo e tudo, devem se fechar. A primeira para descolar um honroso empate (ou mesmo perder de pouco), e a segunda para tentar surpreender o Brasil com seu próprio veneno: o contra-ataque. Dunga também deve saber disso e imagino que tenha como armar alternativas. Ele também sabe que ter jogadores mais habilidosos numa situação dessas facilita as coisas. O problema é o conceito que o turrão tem de habilidade.

De outro lado, numa visão mais ampliada, é normal que, depois do fracasso de uma seleção que privilegiou a técnica e os jogadores habilidosos, parta-se pra outra menos hábil, com a força do grupo e tal. Costuma se assim no futebol, já que, de acordo com os resultados, mudamos todos de opinião. Por isso, apesar de todos os pesares, Dunga e a seleção que aí está é tudo o que todos queremos desde 2006, e o que fatalmente aconteceria. Se vai dar certo ou não, aí já é outra história.

Até a próxima, que Obina, agora sim, é melhor que o Eto’o!!!

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