O narrador analfabeto e o medo do fracasso
Golaço de letra de Robinho mostra que tem muita gente trabalhando no futebol que nunca jogou bola; veja as feras de Dunga para o último amistoso antes da convocação para a Copa
Uma das piores coisas no mundo da bola é assistir a um jogo de futebol com um narrador que não é do ramo. Bem, dizer que não é do ramo um profissional que trabalha há mais de vinte anos fazendo narrações esportivas é sacanagem, o que me leva a consertar. É que o cara parece que nunca jogou bola na vida, nem mesmo em peladas quando garoto. Sim, meus amigos, só isso pode explicar um desses narradores não saber que o golaço que Robinho fez no domingo, contra o São Paulo, foi de letra. E o editor de capa da Folha de São Paulo? Além de nunca ter jogado bola, mostrou que desconhece a anatomia do corpo humano ao anotar gol “de calcanhar” na legenda da foto que captou o exato momento da letra. Lamentável.
Mas isso não tira o brilho de uma jogada (e de um jogador) iluminado. Não é só perícia técnica, habilidade, treinamento, experiência, sorte e o escambau que fazem nascer um gol desses. É isso tudo junto, incluindo a vacilada do zagueiro adversário, transformado voluntariamente em reles espectador, e uma luz divina que só os craques têm. Robinho não pensou em fazer isso, não planejou nada. Do jeito que a bola lhe chegou, intuitivamente usou o recurso da letra que surpreendeu a todos – se bobear, até a ele próprio. Não vi a partida e nem precisava ter visto. O jogo valeu pela letra de Robinho, mais garantido que nunca na Copa.
Falei em Copa de propósito, pois vi outro lance do jogo, o do pênalti sofrido por Arouca, pelo destrambelhado Miranda. O zagueiro, que já teve dias melhores, tem abusado da violência, tanto que, se for convocado para a Copa, não poderá atuar nas duas primeiras partidas, já que está suspenso por causa de seu desempenho infeliz nas eliminatórias. Imagina se o sujeito comete um pênalti desses numa partida da fase de mata-mata? Talvez pensando nisso, Dunga convocou agora há pouco, para a zaga, Thiago Silva, que está arrebentando no Milan. A lista é para o último amistoso antes da convocação para a África do Sul, contra a Irlanda, dia 2 de março, em Londres.
Colega de Thiago no Milan, Ronaldinho, o nome mais esperado, ficou de fora, o que dá a entender que, babau, dançou. Outros nomes que chamaram a atenção foram os de Kléberson, que pouco jogou com Dunga; Michel Bastos e o retorno de Gilberto, ambos para a lateral esquerda, prova de que a Copa deve começar e acabar sem um nome consolidado para a posição. E Marcelo dando sopa no Real Madri, meus amigos. Obviamente, nada de Neymar e congêneres, tampouco Fred. A lista completa é a seguinte:
Goleiros
Julio César (Inter de Milão)
Doni (Roma)
Laterais
Maicon (Inter de Milão)
Daniel Alves (Barcelona)
Gilberto (Cruzeiro)
Michel Bastos (Lyon)
Zagueiros
Juan (Roma)
Lúcio (Inter de Milão)
Luisão (Benfica)
Thiago Silva (Milan)
Volantes
Gilberto Silva (Panathinaikos)
Josué (Wolfsburg)
Felipe Melo (Juventus)
Julio Baptista (Roma)
Meias
Kaká (Real Madrid)
Ramires (Benfica)
Elano (Galatasaray)
Kleberson (Flamengo)
Atacantes
Robinho (Santos)
Adriano (Flamengo)
Nilmar (Villarreal)
Luis Fabiano (Sevilla)
Olho para esses nomes e, ao mesmo tempo em que os aprovo, morro de medo. Como de hábito, esta coluna costuma prever, com certa exatidão, as seleções que mais avançam numa Copa do Mundo. Vou fazer isso após a derradeira convocação de Dunga, mas, hoje, estou sendo tentado a escrever que, dessa vez, o Brasil não vai passar nem da fase de grupos, repetindo 1966. Será? Espero mudar de idéia.
Até a próxima, que Luxemburgo já era!!!
















