O drama imposto por uma implacável goleada
Nem a crônica esportiva, tradicional defensora da permanência dos treinadores em seus cargos, ousa preservar aquele que vê seu time ser humilhado
Num país onde o treinador é sempre responsabilizado pelas derrotas e/ou fases ruins de uma equipe, e demissão é quase sempre uma atitude indefensável dentro da crônica esportiva. Na grande maioria dos casos reclamam da falta de tempo para o profissional trabalhar. Há, contudo, uma – ao menos uma – grande exceção: a sonora goleada, sobretudo quando sofrida por um rival local. É o que acontece hoje, com a demissão de Estevam Soares, que domingo viu o Vasco lhe enfiar seis a zero de forma inapelável, de acordo com o furo publicado pelo’O Globo. Não deveria ser assim.
Primeiro, que para um clássico terminar dessa forma, é preciso uma equipe falhar muito e a outra jogar bem de mais. Tudo tem que dar certo para um lado e errado para o outro. Não assisti à partida, mas aposto que foi isto que aconteceu. E, depois, apesar da humilhação para o torcedor botafoguense, o resultado rendeu ao Vasco os mesmos três pontos de um ralo um a zero. Considerando que estamos no Campeonato Carioca, em que cada grupo tem oito equipes, sendo seis pequenas e duas grandes, em que há duas vagas para as semifinais, não é difícil a recuperação alvinegra. E olha que ainda temos o segundo turno.
Entre os fatores que levaram a este sonoro seis a zero, considero um primordial, o fato de o Botafogo ter jogado sem o seu tradicional uniforme. Para mim, conta - e muito - o uso do pavilhão que representa a tradição de um clube, coisa que, infelizmente, vem sendo ignorada pelos departamentos de marketing dos clubes em nossos tempos. Aí aparece o Vasco de preto e prata, o Botafogo de cinza, o Corinthians de roxo e o Palmeiras com o uniforme do Olaria. Se quiser mudar radicalmente o uniforme, o clube tradicional sofrerá muito com a adaptação e colecionará derrotas em abundância.
Aconteceu, por exemplo, com o Fluminense. Não por acaso, o início do período em que a FIFA passou a exigir que as equipes joguem com cores diferentes, nas camisas e calções, é o mesmo em que o Tricolor colecionou sucessivos rebaixamentos. É evidente que esta não foi causa única, nem a principal. Havia time ruim, má administração, falta de um bom patrocinador e assim por diante, Mas que o inefável calção grená contribuiu, ah, contribuiu. Mas passou, e hoje, ainda que coloquem jogadores do Flu para jogar com camisas idênticas à da Portuguesa, parece coisa do passado. Para o Botafogo, não.
Ocorre que, enquanto os jogadores usavam camisas de Pierrot, como bem notou Renato Maurício Prado, às vésperas do Carnaval, o torcedor cometia o ato infeliz de queimar a verdadeira camisa botafoguense na arquibancada do Engenhão. Deveria queimar era a outra, horrorosa, mal suada em campo. Ou, por outra, não deveria queimar nada. O ato levou prejuízo ao torcedor, que deve ter comprado a camisa, causou risco de incêndio no estádio, e aumentou ainda mais o sentimento de inferioridade que predomina entre os torcedores. É, no entanto, uma atitude típica de um torcedor botafoguense, que, apaixonado, tem a vocação para o drama e para o sofrimento.
Voltando ao Estevam Soares, não era para ter sido demitido, ao menos não ontem. Se o Botafogo não estava satisfeito com o treinador, pela fraca campanha do Brasileirão do ano passado, que o substituísse já em dezembro, para que seu substituto iniciasse o trabalho do zero. Como o fez agora, Joel Santana terá mais dificuldades, e, a cada novo revés, será citado o senão de ele ter entrado no meio do campeonato. Como disse, a fórmula de disputa favorece ao Botafogo, que pode iniciar recuperação já amanhã, contra o fraco Tigres, jogando, ironicamente, em São Januário. Depois é encarar os clássicos nas semis e na final, e aí tudo pode acontecer. Até a devolução dos sonoros seis a zero.
Até a próxima, que o império do amor é o início do fim!!!
















