Metallica
De volta à garagem para mais covers
Matéria que analisa o álbum “Garage Inc.”, só de covers, e desce o pau nos “traidores do metal”. Publicada na Rock Press número 18, de abril de 1998. Foto: Divulgação.
O Metallica lançou um álbum duplo no final do ano passado. Não, não foi um duplo ao vivo, mas sim um álbum duplo só de covers, sendo que um dos disquinhos é uma coletânea de covers já gravados anteriormente. De “novo” mesmo, “Garage Inc.” só tem os covers do primeiro disco, com 11 faixas.
Havia um tempo em que, quando uma banda resolvia regravar uma música de outro grupo, isso acontecia com um sucesso ou mesmo um trabalho obscuro de uma outra época, e o grande mérito era deixar a versão nova, atual com a referida época. Nos últimos tempos porém, com a máxima de Andy Warhol sobre os quinze minutos de fama cada vez mais próxima, os covers acontecem quase ao mesmo tempo que as versões originais são lançadas. E se, por um tempo o cover aparecia sempre escondido entre as músicas de autoria própria em um determinado álbum, hoje o Metallica tem a ousadia de lançar um álbum duplo, com o nome de todas as músicas na contra capa, e com um etiqueta estampada por fora da embalagem, para facilitar o trabalho do consumidor, com o aviso: “Atenção: álbum só de covers”.
Ousadia? Nem tanto. Se fizermos um breve histórico dessa ingrata banda, a última coisa que restará será algum tipo de ousadia. Depois de chegar ao auge do thrash metal revelado na Bay Area californiana, a banda iniciou uma guinada em sua carreia com o famoso e multiplatinado “Black Album”, e em seguida, com grandes intervalos, lançou “Load” e “Reload”, dois trabalhos quase idênticos. O Metallica deixou o metal de lado, e investiu em um rock pesado muito bem elaborado, mas pecou pela mudança radical de atitude e visual. De repente o fã da banda se viu diante de músicos de cabelo curto, com maquiagem pesada e andróginos estrelando clipes (coisa impensável no início) super produzidos. De ícone do metal, a banda passou a ícone pop, traçando um caminho insólito no cenário mundial.
No ano passado, o baixista Jason Newsted, último a se integrar à formação atual, depois que um acidente com o ônibus da banda tirou a vida do excelente Cliff Burton, esteve por duas vezes em São Paulo. Uma para participar da apresentação oficial de Derrick Green, o novo vocalista do Sepultura, em cujo álbum também participa, e outra para divulgar “Garage Inc.”. O tom da conversa de Jason com a imprensa e com os fãs (ele esteve por duas vezes no Manifesto Bar) foi o mesmo. Tentou sempre se explicar quanto às mudanças do Metallica, defendendo a postura da banda, mas admitindo não concordar com uma série de coisas “impostas pela indústria da música”. Jason é a prova de que a banda aceitou as mudanças porque quis, e todo mundo sabe disso. Se o Metallica traiu seus fãs e é hoje uma banda vendida, Jason ainda é o fio de esperança que resta.
Além de ser um álbum de covers, “Garage Inc.” parece ter a pretensão de ser cover de “Garage Days Re-Revisited”, primeira investida da banda nessa área, lançado 87. A diferença é que, nessa época, o Metallica tinha atitude, e os covers eram (e são) grandes tributos às influências da banda. Agora que o Metallica virou uma caricatura de si mesmo, os novos covers soam como pura armação ou mesmo “tapa buracos de mercado”. Daí a inclusão de nomes como Bob Seger e Nick Cave, por exemplo, em “Garage Inc.”.
O “Garage Days…” aparece na íntegra no segundo disco, e se junta a ele nomes como Motörhead, que aparece com quatro músicas, e Diamond Head, outro preferido da banda, impondo uma diferença abissal em relação ao primeiro CD. É nesse segundo CD que encontra-se pauladas como “Am I Evil?”, do Diamond Head, “Last Caress/Green Hell”, ambas do Misfts e bastante executadas nos shows, e a clássica “The Wait”, do Killing Joke, pioneiro da mistura de pós-punk/metal nos anos 80. Sendo mais antigos, e inéditos no Brasil, esse EP é, já há muito tempo, procuradíssimo pelos fãs nas importadoras, o que já faz desse segundo CD um ítem de colecionador.
Já no primeiro, o que se salva é mais a escolha das músicas do que a performance da banda. Quem por exemplo conseguiria estragar um clássico como “Whiskey In The Jar”, do Thin Lizzy? Ou ainda a balada country “Tuesday’s Gone”, do Lynyrd Skynyrd? Nem mesmo o nefasto Bob Rock, produtor do CD e algoz do metal conseguiu. Outro destaque é “Astronomy”, do Blue Öyster Cult, mas a coisa para por aí. Os piores momentos vêm com o pot-pourri criminoso feito para o Black Sabbath (duas músicas) e para o Mercyful Fate (cinco músicas!).
A diferença entre o Metallica e sua própria caricatura pode ser vista também no encarte de “Garage Inc.”. Nas capas e contracapa, fotos produzidas de uma banda imitando mecânicos de beira de estrada ou mesmo crooners de um grupo dos anos 50. No encarte, várias fotos coloridas de uma banda espontânea gravando suas músicas preferidas dentro de sua própria garagem (repare nas cervejas). Ao fundo, uma grande foto em preto e branco de uma banda que simula uma garagem dentro de um estúdio super equipado (repare nos pedais). Faça você mesmo o jogo dos sete erros!
Não é difícil de se prever que futuro espera o Metallica. Na agenda, muitos shows pelo mundo afora, sobretudo em lugares mais distantes, como na América Latina, inclusive no Brasil, onde a carência de shows suplanta qualquer expectativa de público, mesmo com o dólar e os juros nas alturas. Depois um álbum ao vivo, e na seqüência, quem sabe, um Acústico MTV.
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