Imagem é Tudo

Metallica/Judas Priest

Classic Albuns
Black Album/British Steel
(ST2)

metallicajudasclassicO Metallica tinha chegado ao seu limite, técnico e como banda de metal, no álbum “…And Justice For All”. Era um vinil duplo intrincado, cheio de músicas longas, arranjos difíceis e solos atrás de solos. A banda tocava em tudo que era canto, enchia estádios, mas, mesmo assim, não conseguia superar o teto imposto pelo mainstream a uma banda de metal, muito menos precursora do thrash metal, gênero ainda mais sujo, pesado e – por que não – indigesto. Nem o clipe para “One”, artifício que a banda jamais adotara antes, contribuiu para romper as amarras. Era preciso mudar.

A decisão de Bob Rock em assumir a produção do novo disco aconteceu de forma inusitada. Ele havia trabalhado com bandas como o Bon Jovi, e foi o responsável por dar uma cara hard/pop ao britânico The Cult, no ótimo “Sonic Temple”, dois anos antes. Bob havia se tornado amigo de Ritchie Sambora, guitarrista do Bon Jovi, e foi convidado para produzir o disco solo dele, ao mesmo tempo em que o Metallica decidiu chamá-lo. Entre a cruz e a espada, não sabia o que fazer, até que, de férias com a família, no meio de um deserto, encontrou um descendente indígena que usava uma camiseta do grupo. No dia seguinte, ao ver o frentista de um posto de gasolina o atendendo com outra camiseta do Metallica, não teve dúvidas. E assim começava a história de um dos maiores sucessos da indústria fonográfica em todos os tempos. O “Black Album” é o disco mais vendido nos Estados Unidos desde 1991, quando a empresa Nielsen SoundScan iniciou a verificação, superando 15 milhões de cópias.

Essa é apenas uma das histórias contadas no programa da série “Classic Albuns”, que em 2001 levou o batera Lars Ulrich e o guitarrista James Hetfield para o estúdio para lembrar daquelas gravações. Outras dão conta, por exemplo, de que cada faixa teve a bateria gravada entre 30 e 40 vezes (!) até se chegar ao resultado esperado. Ou que a guitarra minimalista de “Sad But True” foi inspirada em The Edge, do U2; que “The Unforgiven” nasceu de um tema instrumental de filme de faroeste; e que em “Wherever I May Roam” um baixo de 12 cordas chegou a ser utilizado. Já em “Nothing Else Matters” foi chamado Michael Kamen, regente da Filarmônica de São Francisco, para escrever o arranjo e a parte da música que Hetfield não sabia como fazer. Ali nasceu a idéia soberba de fundir thrash com erudito, concretizada no álbum “SM”, lançado oito anos depois. Sorte que deu tempo de registrar o depoimento do bem humorado Kamen, antes do seu falecimento, em 2003.

A primeira música a aparecer veio de um riff de Kirk Hammett e era justamente a espetacular “Enter Sandman”, que ficou séculos sem letras até chegar a seu formato final. O disco foi todo construído em torno dela. As demais músicas vinham gravadas canhestramente em demos pela dupla Ulrich/Hetfield, como de hábito. Eles, aliás, assinam a produção junto com Bob Rock, fato nem sempre ressaltado. E a coisa não foi fácil, não. O desgaste de todo o processo fez Lars Ulrich (que parece bem sincero nos comentários) ficar cerca de dois anos sem falar com o produtor, até tê-lo como amigo. Bob Rock produziria ainda mais cinco álbuns com o grupo, além de ter se tornado o quarto Metallica ao tocar baixo no polêmico “St. Anger”, depois que Jason Newsted pulou fora. Com a formação clássica, o Metallica chegou ao auge com o “Black Album”, um disco de metal, sim, pesado, sim, mas com um irresistível componente pop. Os números não nos deixam mentir.

A busca em aproximar o heavy metal, em qualquer uma de suas subtendências, ao pop, também já era algo que passava pela cabeça de Rob Halford e de todos no Judas Priest, 11 anos antes. Foi assim que nasceu o hit instantâneo “Breaking The Law”, do álbum “British Steel”, em 1980, que também apontava, de certa forma, para algo pesado e identificado com o metal, mas com um inequívoco apelo pop. O especial é também preocupado em mostrar a história do grupo em si, formado por operários de Birmingham, na Inglaterra, dez anos antes. Um dos convidados, o então editor da revista britânica Kerrang!, Phil Alexander, vai direto ao assunto ao apontar a dupla de guitarras do Judas como descendente direta de Wishbone Ash e Thin Lizzy. Dali também saíram o Iron Maiden e quase toda a geração que formaria o afamada new wave of british heavy metal, lembrando que, lá no início dos anos 70, o Judas era quase uma banda de rock progressivo.

São os guitarristas K.K. Downing e Glenn Tipton que se reúnem num estúdio com o produtor Tom Allom para relembrar os momentos da gravação do álbum, feita curiosamente numa casa/estúdio que havia sido montada para o Beatle Ringo Star trabalhar. Na época em que o especial foi gravado, Rob Halford havia deixado o grupo (Tim “Ripper” Owens ficou com a vaga), mas participou numa gravação em separado. O Metal God traduz como poucos o heavy metal, explicando com boas tiradas como “Breaking The Law” é a face do adolescente revoltado, querendo romper com tudo que se propõe organizado, ao mesmo tempo em que “Living After Midnight” (única música de que se tem notícia no meio do metal que começa pelo refrão) é sobre “sair por aí e se divertir”. Não por acaso as duas foram grandes sucessos que catapultaram o disco ao topo das paradas e o grupo às grandes arenas. Nada que se possa comparar com o “Black Album” em termos de vendas; como referência e influência para as novas gerações, no entanto, os dois discos têm tudo a ver.

Curioso ver como “Metal Gods”, falando sobre o próprio metal, e que virou codinome de Halford, nasceu numa mesa de bilhar; como “United” vem dos tempos dos trabalhos nas fábricas; e - os fãs vão mais ortodoxos vão fechar a cara – “The Rage” é praticamente uma mistura de metal com reggae. Mas os brasileiros vão gostar mesmo é de “Grinder”, que aparece nos extras, na íntegra de uma gravação feita durante a clássica exibição do grupo no Rock In Rio II, no Maracanã, em 1991. Outros extras legais são os clipes de “Living After Midnight” e “Breaking The Law” (impagável), além de alguns duelos entre os guitarristas feitos no estúdio, junto com o produtor.

Tags desse texto: ,

Comentários enviados

Sem comentários nesse texto.

Deixe o seu comentário

Seu email não será divulgado