Bola é Bola Mesmo

Não dá pra inventar na várzea

Em tempos de pouca oferta de futebol, Copa São Paulo de Futebol Júnior cria modalidade e joga clubes que investem em categorias de base na lama. Literalmente.

Não há como negar. Todo mundo quer ver futebol o tempo todo e, no início do ano, por tradição, respeito aos direitos trabalhistas e até por falta de visão empresarial, não há o que assistir. Ou, por outra, há, sim, e o pouco que tem acaba virando a estrela da estação. Por isso mais de 70 mil pessoas foram assistir a uma pelada de veteranos em pleno Maracanã, no horário nobre do futebol na TV, num domingo espremido entre o Natal e o ano-novo. Tudo bem que entre os peladeiros estavam craques como Zico, Romário, Júnior, Edu, Cláudio Adão, Jorginho, Renato e tantos outros, mas que era uma pelada, isso era.

Outro dia disse aqui que os ingleses ignoram os feriados de final de ano e aprenderam a faturar alto com eles. Aqui, além de não ter competições nesse período, as TVs a cabo, que cada assinante paga para ter, são incapazes de apresentar uma programação de reprises, no mínimo, satisfatória. Escolhem um ou outro programa, um ou outro jogo e reprisam o tempo todo, em vez de selecionar uma programação com reprises, sim, mas feita com atenção ao assinante. Fosse eu o diretor de programação, ao voltar de férias, nomearia um sujeito experiente e de bom senso para, desde já, assumir o cargo de “programador de fim de ano”. Assim o tal fulano passaria a temporada inteirinha separando jogos e programas para serem exibidos durante os 30, 40 dias de férias. Esse entra, esse não entra. Simples assim.

Reparem que a ESPN Brasil transmitiu diversos jogos da Copa do Brasil desse ano, a segunda competição mais importante do país, mas foi incapaz de reprisar os jogos mais interessantes. E imaginem o Sportv, que tem todos – eu disse todos – os jogos do Brasileirão, da Copa do Brasil e dos Estaduais em seus arquivos, e reprisa umas três, quatro vezes por dia, o mesmo programa da série “Jogos Para Sempre” – muito boa, por sinal. Qual torcedor não gostaria de rever um jogaço do Brasileirão, em que seu time arrebentou? Ou do Estadual? Do campeão aos rebaixados, todos têm motivo para rever certos momentos, só os programadores das nossas tristes TVs a cabo não percebem isso.

Mas o assunto não era esse. No maior estilo “terra de cego quem tem um olho é rei”, a Copa São Paulo de Futebol Júnior (hoje uma competição de uma categoria que não existe, a sub 18), se transforma em principal atração, ao menos até os estaduais que importam começarem, o que acontece no próximo final de semana. Pela tradição que tem em revelar craques desde 1969 – não por ter sido inchada por “clubes” de aluguel, 92! -, muita gente gosta de ver este ou aquele garoto que, no futuro, estará vestindo a camisa do seu clube, ou, nos dias de hoje, brilhando no futebol internacional.

Só que, antes de existir o futebol em São Paulo, existia a várzea, e, hoje, com tanto time pra jogar, não sobrou outro espaço que não fosse ela, a várzea, o pântano, o lamaçal. Nada mais paulista (ou paulistano, pouco importa) que isso, já que São Paulo é mesmo a capital de todos os interiores do Brasil reunidos num só coreto. Há, no entanto, exceções. Se o Cruzeiro se acaba na lama, o São Paulo goleia todos os adversários em campo seco, ou, na pior das hipóteses, molhado, mas com boa drenagem, como jogam Palmeiras e Corinthians, aliás. Para os clubes da capitá, a obsessão pelo título da Copinha é tão grande que vale qualquer artifício, até os usados na… várzea. Pancadaria com mortos e feridos já aconteceu entre as torcidas destes clubes em final de Copa São Paulo.

Mas eis onde eu queria chegar. Este ano, somando tudo isso que eu falei, os caras se superaram e foram criativos a ponto de inventar uma nova modalidade esportiva, algo derivativo do futebol, entre ele e o tal – ridículo – showbol, ou mesmo o bom e velho futebol society. Para começar, inventaram um gramado de dimensões bem menores, de modo que um tiro de meta coloca a bola no bololô (como dizia Jorge Cury) da grande área, e do meio do campo se chuta como se estivesse da intermediária. No lugar da grama, alta ou baixa, aparada ou espessa, um carpete, de modo que a bola quica de um lado a outro, sem parar. Assim, o goleiro chuta, a pelota quica, ninguém domina e o outro goleiro pega, caso ninguém falhe no meio do caminho. Desse modo, saem muitos escanteios e gols de bolas paradas. Para completar, esse carpete, liso, não possui drenagem, e a Copinha acontece num verão tropical que chove pacas todos os dias.

Foi para este cenário lamentável (não vou citar estádio, cidade, etc.) que empurraram a equipe do Fluminense, que até 2004 era o maior vencedor da competição, e desde então só foi superado pelo Corinthians. Para azar (vai saber) a equipe carioca, que recebe investimento pesado de uma grande patrocinadora, além de enfrentar equipes de péssimo nível, o fez nas condições ridículas expostas ali em cima, sempre sob forte chuva. Era comum ver operários com rodos gigantes tentando drenar a água sabe-se lá pra onde, ou mesmo tentando perfurar o piso, com água acumulada por baixo, usando vergalhões de obra inapropriados. Caso típico de interdição do jogo, do estádio, organizadores e TV envolvidos, mas que ficou por isso mesmo – em condições semelhantes, é bom lembrar, o Internacional pagou caro e perdeu o Brasileiro de 2009 para o Flamengo. Como disse, nossas TVs a cabo são uma vergonha.

Mas eis que, em meio a pernas de pau, campos minúsculos e piso de carpete encharcado, saíram dois classificados, e o Fluminense, num suado segundo lugar – dois gols ao apagar das luzes – se classificou e vai (coisas do destino) enfrentar justamente o Palmeiras, que vem sendo preparado para ser um vencedor (embora a equipe principal tenha a vocação para a derrota), só joga em campo bom e com transmissão garantida pela nossa inefável – ela mesmo - TV paga. Pela primeira vez, o Flu vai poder jogar bola, de igual para igual, com um adversário de mesmo nível, em uma condição de jogo satisfatória, em horário nobre do futebol na TV. Se vai vencer, perder, amarelar, dar show de bola, ninguém sabe, meus amigos. Mas, ao menos, o clube que lota o futebol mundial de craques como Marcelo (Real Madri), Rafael e Fábio (Manchester United), Carlos Alberto (Vasco), Diego Souza (Palmeiras) e tantos outros, vai disputar uma partida de igual para igual. Ao menos até não tirarem da cartola outro fator pró várzea…

Até a próxima, que mais um garoto entrou na justiça pra sair do inferno que é o São Paulo!!!

Comentários enviados

Apenas 1 comentários nesse texto.
  1. Josué em janeiro 19, 2010 às 21:56
    #1

    Interessante ver como uma pessoa deixa o lado imparcial, para ser completamente tendencioso em uma matéria. Quando “fatores varzenanos” influenciam em jogos pró times do Rio, eu não ouço isso, nem da imprensa nem da tão criticada SPORTV, há sim, péssimas condições de gramados, exemplo na minha cidade, só que dizer que esse ou aquele time é favorecido vai contra a ética e contra tudo o que já vimos no futebol até hoje.

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