Metallica
Os sobreviventes do thrash
Matéria analisando a história da banda e, principalmente, as mudanças da fase do álbum “Load”. Capa da revista Rock Press de julho de 1996, ainda como tablóide. Foto: Reprodução/Internet.
Enquanto na Inglaterra a new wave of british heavy metal se consolidava com a queda do punk, nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles, surgia a banda precursora do que mais tarde seria conhecido como thrash metal. Juntando a fúria do hardcore com a técnica do metal, o estilo conseguiu o que parecia impossível: unir punks e heavies, duas tribos que pareciam ter sido criadas para se enfrentar, invariavelmente. Como toda música inovadora, o thrash, com suas letras apocalípticas e maratonas de guitarras distorcidas e no último volume, parecia apenas mais uma massa sonora inaudível e comercialmente inviável. O tempo acabou por mostrar o contrário, e o estilo não só influenciou a cena musical nos Estados Unidos e em todo o mundo – Slayer, Megadeth, Anthrax, Testament, Exodus, e até o Sepultura, no Brasil, são algumas dessas influências -, como subverteu a ordem dos fatos e colocou o heavy metal, que sempre fora uma corrente paralela dentro do mercado do rock, no topo das paradas.
Em 81, o dinamarquês radicado em Los Angeles Lars Ulrich conheceu, através de um anúncio no jornal, o skatista James Alan Hetfield e gravaram em um estúdio de quatro canais a primeira composição do recém-fundado Metallica: “Hit The Lights”, com Lars na bateria e James no baixo, guitarra e vocais. Mais tarde, a faixa foi incluída na coletânea “Metal Massacre”. Biff Byford, vocalista do Saxon, gostou do resultado e resolveu convidá-los para abrir seus shows no Whiskey-A-Go-Go de Los Angeles. Para tanto, foram convocados Dave Mustaine e Rob McGovney, para os postos de guitarrista e baixista, respectivamente. Com essa formação foi gravada “No Life Till Leather”, a primeira demo. Rob mal sabia tocar e deixou a banda para a entrada de Cliff Burton (considerado então um dos melhores baixistas da Califórnia), e Dave Mustaine foi formar o Megadeth (alegando que o Metallica queria fazer um som “lento demais”), dando lugar a Kirk Hammett, que tocava no Exodus e tinha aulas com um tal Joe Satriani.
Em 83, foi lançado o primeiro álbum, “Kill ‘Em All”, que, a princípio, deveria se chamar “Metal Up Your Ass”, grito dos fãs que se tornou marca registrada nos shows da banda. O álbum é um tapa na cara, sem concessões. Os longos solos de guitarra, com evoluções super-rápidas, alternados por riffs cadenciados e pesados dão a tônica do disco. Tudo coberto por vocais gritados e, às vezes, incompreensíveis. São dele os clássicos thrash “Seek And Destroy”, “Jump In The Fire”, “Whiplash” e “The Four Forsemen” (também encontrada no primeiro álbum do Megadeth, sob o título “Mechanix”). Logo foi a agendada a primeira tour na Europa, junto com o Raven. A partir daí o Metallica passou a ser um dos grupos mais pirateados do planeta, já que a distribuição do álbum não era boa fora da América, e a performance da banda ao vivo inaugurava uma nova fase dentro do metal: longa cabeleira sacudida exaustivamente para cima e para baixo, ao passo que o público pogava nas partes mais lentas, clara herança punk.
“Ride The Lightning”, o segundo álbum, de 84, traz os garotos “esporrentos” da estreia um pouco mais preocupados com a evolução técnica de cada membro da banda. Daí cada um ter gravado as suas partes separadamente, o que não é muito comum, em se tratando de metal. O resultado, na opinião de muitos, é o Metallica visto como um power trio, onde Kirk Hammett sola todo o tempo em todas as músicas. O fato é que as tours que fizeram entre um álbum e outro, com grupos já consagrados na mídia como Venom, Exciter e Twisted Sister, além de participações em vários festivais de pequeno porte, foi dando maturidade e conjunto à banda. Introduções bem trabalhadas e quase clássicas são encontradas em “Fight Fire With Fire”, ao passo que a lenta, porém pesada “Fade to Black” e a excelente instrumental “The Call of Ktulu” mostram toda a competência técnica de Kirk e Cliff, sem perder a agressividade característica. Sobra ainda espaço para os criativos riffs que dominam “From Whom The Bell Tolls”, marca registrada do que acabou se transformando em uma das melhores performances ao vivo do Metallica. “Ride The Lightning” rendeu também apresentações no “Monsters Of Rock”, na Inglaterra, com Ratt e Bon Jovi, e uma tour de 75 shows com o WASP pelos Estados Unidos.
Apesar dos percalços que estariam por vir, 86 prometia tudo para sua carreira dar certo. “Master of Puppets”, terceiro álbum, conquistou os primeiros discos de ouro para o Metallica, que foi convidado para abrir a “Ultimate Sin Tour”, de Ozzy Osbourne. Mas, em setembro, ocorreu o fatal acidente com o ônibus da banda, na volta de Estocolmo, que resultou nas mortes de Cliff Burton, do motorista e do roadie James Marshall, que substituíra Hetfield, quando este se contundiu com seu skate. Burton estava, podemos hoje dizer, no auge de sua carreira. “Master of Puppets” mostrava um Metallica altamente técnico, pronto pra a conquista das grandes arenas e do grande público. Cliff Burton não só se encaixava bem nesse perfil, como se destacava entre os demais pela garra e dedicação com que empunhava seu baixo, mostrando um carisma inconfundível. Os melhores exemplos disso podem ser conferidos no vídeo-tributo “Cliff ‘Em All”, de 87. Não há dúvidas de que o “Master…” foi o auge da carreira da banda, no que tange à fidelidade ao estilo que ela mesma ajudou a criar, e no ponto certo entre agressividade, alto nível técnico e penetração no grande público. “Battery” e “Damage, INC” abrem e fecham o álbum, respectivamente, com a violência dos velhos tempos, enquanto “Welcome Home (Sanitarium)” e outra ótima instrumental, “Orion”, sobram pela criatividade e o bom gosto do grupo. E a faixa-título, que misturas as duas coisas, quase vira a faixa-símbolo do Metallica. No final do ano foi anunciada a entrada do novo baixista: Jason Newsted, ex-Flotsam & Jetsam, tem a difícil tarefa de substituir Cliff. A estréia em estúdio de Jason aconteceu no EP “The $ 5.98 EP Garage Days Re-Revisited”, uma verdadeira Jam com versões do Metallica para músicas de bandas como Misfits, Budgie e Killing Joke, entre outras, produzidas pela própria banda na velha garagem de ensaio.
Depois da consagração de “Master…” e do sucesso de outras bandas thrash, “…And Justice For All” (88) entrou direto no top tem da Billboard, o que mais tarde renderia matéria na “Times Magazine”. Com o reconhecimento do público em geral, não só do segmento metal, o Metallica roubou a cena da música pop, e viajou por todo o mundo em incansáveis tours (passando até pelo Brasil, em uma apresentação no Maracanãzinho, e outra em São Paulo, no Ginásio do Ibirapuera, no último show). A essa altura, a mudança de postura já começava a se desenhar. A faixa “One” se transformou no primeiro clipe da história da banda, até então avessa a esse tipo de trabalho, e ainda ganhou o Grammy na categoria “melhor apresentação ao vivo”. Na categoria “melhor banda de heavy metal”, o Metallica ficou em segundo, perdendo, pasmem, para o Jethro Tull. “…And Justice For All” é um álbum duplo, com longas faixas bem trabalhadas e riffs irresistíveis, onde todas as características do thrash se fazem presentes: mudanças de andamento, grandes solos se alternando com marcações mais cadenciadas, peso, velocidade e muita, muita técnica mesmo. E justamente esse é o maior problema. O álbum é marcado pelo excesso técnico e virtuoso da banda, onde a busca da perfeição dentro de um estilo acaba por cansar o mais fiel dos fãs. A faixa-título, com quase dez minutos de duração, é claro exemplo disso. Se o rótulo heavy metal não agradava, a essa altura o Metallica já evitava se assumir como uma banda thrash. Contando ainda com uma música composta por Cliff Burton, a belíssima “To Live Is To Die”, “…And Justice” mostrou a banda no limite de seu estilo e carente de mudanças para continuar existindo.
Não tardou para que, em 92, viesse o homônimo álbum, mais conhecido como “álbum preto”. Produzido por Bob Rock, famoso por dar feições pop ao metal a grupos como Bon Jovi, The Cult e Mötley Crüe, consagrou de vez a banda nas paradas de todo o mundo. O primeiro single, “Enter Sandman”, com seu inconfundível riff, mostrava o Metallica muito mais rock do que heavy, e já vinha com um excelente clipe que não parou de rolar na MTV de todo o mundo. Outras músicas de peso, como “Sad But True”, “Holier Than Thou” e “Wherever I May Roam” também se destacaram, mas foram as baladas “The Unforgiven” e “Nothing Else Matters”, de gosto questionável, que marcaram as mudanças, que, se comparadas às vendagens, foram para melhor. Por mais elogios que o álbum pudesse ter, suas músicas soam muito mais acessíveis que antes, e, em consequência, muito mais comerciais. Se fosse o primeiro de uma banda estreante, seria um ótimo álbum de rock, mas sendo de uma que inovou ao criar um estilo cru e pesado como o thrash, há muita coisa em jogo para ser avaliada. Mas, de uma forma ou de outra, foi na tour do “black album” que o Metallica mostrou que ao vivo continuava sendo o mesmo de sempre, com um estilo contagiante e pesado. O show passou pelo Brasil em uma única apresentação, no dia primeiro de maio de 1993, no Parque Antarctica, em São Paulo. Nunca o trabalhador brasileiro foi tão bem presenteado em seu dia como nesse ano.
Muito se falou sobre o Metallica nos últimos anos. Tours eram concluídas e outras começavam em seguida, numa incansável maratona mundo afora. Por diversas vezes era divulgada a sua entrada em estúdio para gravar material novo, mas, depois, lá estavam eles nos palcos de novo. Até a participação no Hollywood Rock desse ano chegou a ser anunciada, para logo em seguida ser desmentida, já que, finalmente, estavam gravando e mixando “Load”, o sexto e mais esperado álbum da banda.
Desconfiança é a palavra que melhor define a expectativa dos fãs em relação a “Load”. Afinal, não é qualquer banda que cria um estilo, o coloca no topo das paradas e consegue se manter fiel àquilo que se julga ser a sua essência. Para piorar, as fotos divulgadas por seu informativo oficial não eram nada animadoras. Todos com cabelos curtos e fazendo pose de pop stars, coisa de fazer inveja a Michael Jackson, que muda de cara a cada novo lançamento. Sem falar nas publicações em todo o mundo, que, antecipando o álbum, fizeram comentários precipitados acerca da integridade do novo trabalho.
As mudanças são claras e assumidas pela própria banda, não de uma forma negativa, mas com a naturalidade de quem já tem uma carreira bem sucedida de reconhecida dentro do universo pop. “Que vida não muda em cinco anos? As pessoas têm de entender o que tem acontecido nas nossas vidas, o que nós temos feito, onde nossas cabeças andam. Como humanos nós temos direito de mudar, é sempre assim”, comenta James Hetfield, justificando o óbvio. Não apenas em termos de visual de seus integrantes, mas a própria afinação e timbre dos instrumentos ganharam nova roupagem também, como afirma Lars Ulrich: “Ter que gravar minha bateria dessa forma, e os vocais desse jeito, da mesma forma baixo e guitarra. Estávamos de saco cheio disso. Agora, estamos vendo como cada pessoa pode gravar seu instrumento de sua própria maneira, e como nós perdíamos tempo”. A vontade e a capacidade criativa do Metallica parece não ter se abalado, afinal mais de 25 músicas foram compostas nesse período, das quais “somente” 14 estão em “Load”. “É uma loucura, nós podíamos ficar fazendo músicas até 2007, temos muita coisa em mente. Temos 14 músicas para esse álbum, e muitas outras já estão prontas”, continua Lars, dando a entender que muitos EPs deverão ser lançados, e que o intervalo para o lançamento dos próximos álbuns não deverá ser tão grande quanto à espera pelo mais recente. Ainda no campo mudanças, até o famoso logo criado por Hetfield, junto com Lars, quando a banda começou, foi suprimido. Em seu lugar surge outro mais “clean”, com as letras mais certinhas, sobrando apenas discretas pontas nas pernas do “m” e do “a”.
Não era pra menos. Tantas modificações tinham que gerar apreensão e desconfiança. Mas basta uma única audição de “Load” para tudo isso ir por água abaixo. Ainda com a produção de Bob Rock, ficou muito mais bem acabado e homogêneo que seu antecessor, o inseguro “black album”. É um disco de rock pesado que tem a marca de quem entende do assunto, e se não tem a medida certa de peso e velocidade que o Metallica mostra para o mundo há 15 anos, começa a reescrever seu destino. Como sugere a capa, parece que a banda foi jogada dentro de um vulcão, de onde, em meio às chamas, surgiu “Load”.
Sem os exageros técnicos de um “…And Justice For All”, por exemplo, e sem os solos “maratônicos” que o thrash consagrou, “Load” prima pela simplicidade e pela opção por um rock básico e pesado, sem soar inovador ou ultrapassado. Com quase 80 minutos de duração, ao longo das 14 faixas se pode observar, como em todo rock básico, que são os solos das guitarras que se destacam mais, cabendo a Jason e Lars a tarefa de ditar o ritmo das músicas. E é aí que Kirk Hammett mostra todo o seu potencial criativo e sua capacidade de adaptação e variação, sendo ele o responsável pelos ótimos riffs e solos encaixados aqui e ali em cada música.
Em um álbum longo, com tantas faixas, muitas passam batido e outras se destacam mais. É o caso de “Wasting My Hate”, rock energético e veloz; “Bleeding Me”, a mais bem acabada e com um belo arranjo, lembrando os tempos de “Fade to Black”; “The Outlaw Torn”, que fecha o álbum com pura alma; e “King Nothing”, com guitarras viajantes e a energia “rockão” à La “Enter Sandman”. O primeiro single, cujo clipe já deve estar rolando, é “Until It Sleeps”, e tem grande apelo pop, devendo subir nas paradas com facilidade. “Mama Said”, uma balada bem baba, deve ser o segundo. Mas a música mais característica do Metallica é “The House Jack Built”, a medida certa entre peso, simplicidade e boas guitarras, marca registrada desse trabalho. Como a banda se comportará nos palcos com o novo repertório poderá ser conferido no Lollapalooza e na tour mundial, que deverá incluir o Brasil em 97.
“Load”, enfim, não apresenta nada de inovador e nem coloca o Metallica na linha de vanguarda do metal mundial (posição que já ocupou) onde hoje estão Helmet, White Zombie e Prong, entre outros. Mas, por outro lado, tira a banda do clichê thrash, de onde muitas outras não conseguem sair, sem as escorregadas do “black album”. Mais do que isso, mostra que o talento de seus músicos ultrapassa o limite do estilo criado por eles próprios, sem a perda da identidade musical, e, sobretudo, com o peso e a atitude do rock’n’roll, coisa às vezes difícil de se encontrar em bandas mais novas.
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Ouvindo hoje em dia o “Load” soa muito mais autêntico. Gostei dele logo nas primeiras audições, mas tinha a impressão que eles queriam na verdade era grana fácil. Eles estavam tão confiantes no material que lançaram um disco longo, aliás, longo demais, penso que se ele tivesse 30 minutos a menos seria bem melhor.