Fazendo História

Lançamentos especiais trazem raridades de ícones do metal, punk e grunge

Matéria analisando caixas especiais de Judas Priest, The Clash e Nirvana. Texto do Nirvana de autoria de Cristiano Viteck. Publicado na edição número 81 da revista Dynamite, de março de 2005. Fotos: Reprodução.

Que as gravadoras andam em crise isso é fato, daí a enorme quantidade de lançamentos revivalistas. Mas no meio de tanto engodo, dá para achar coisas interessantes, que, por um ou ouro motivo, ficaram perdidas na história. Garimpamos três desses lançamentos para vocês: a polêmica caixa do Nirvana, “With The Lights Out”, que sequer saiu no Brasil; “Metalbox”, o maior e melhor material retrospectivo do Judas Priest; e a edição comemorativa dos 25 anos do álbum “London Calling”, do The Clash, o disco que pautou o rock da década de 80.

NIRVANA
EM ESTADO BRUTO

nirvanawhen“With The Lights Out” é a caixa de material inédito do Nirvana que ficou guardada durante dez anos, por causa de pendengas judiciais entre os ex-Nirvana Dave Grohl e Krist Novoselic e Courtney Love, viúva de Kurt Cobain. Courtney teve que aceitar a proposta defendida por Grohl e Novoselic, que dividia em três partes iguais o espólio do Nirvana. Como a gravadora não irá lançar o box no Brasil, quem quiser matar a curiosidade terá que desembolsar cerca de R$ 250 ou apelar para os downloads.

“With The Lights Out” - título extraído de um verso de “Smells Like Teen Spirit” - é composto de três CDs, um DVD e um livreto com histórias da banda. A caixa começou a ser planejada no final dos anos 90, e traz nos CDs 61 faixas raras e inéditas, e outras 20 no DVD, que conta com várias cenas gravadas no Brasil. Mas o supra-sumo está mesmo nos CDs. Além de inúmeras faixas demo de canções que mais tarde ganharam versões definitivas, também estão presentes músicas que nunca viram a luz do dia ou que foram executadas em um ou outro show.

Faixas ao vivo, de shows ou gravadas para rádio, são outro atrativo. Exemplo disso é “Heartbreaker”, cover sofrível do Led Zeppelin, extraída da primeira apresentação do grupo, em 87. Os covers, aliás, são algumas das preciosidades da caixa. Além de Led Zepellin, há gravações do Velvet Underground (”Here She Comes Now”), Vaselines (”Jesus Doesn’t Want Me for a Sunbeam”) e do cantor folk Ledbelly (”Where Did You Sleep Last Night”, entre outras).

Mas as curiosidades não param por aí: que tal a primeira versão demo de “Smells Like Teen Spirit”, ou “Rape Me” sendo ensaiada com o choro de Frances Bean ao fundo? Tem também “Beans”, a faixa mais experimental do grupo, com o vocal de Kurt Cobain acelerado eletronicamente, o que deixa a música de letra infantil ainda mais debilóide. Mas são as músicas solo de Kurt Cobain ao violão a maior preciosidade. Registradas num gravador fuleiro, elas trazem o gênio enquanto criava pérolas como “Polly”, “About a Girl”, “Lithium” e “All Apologies”, que mais tarde ganharam poderosas versões com guitarra, baixo e bateria. Esses momentos são de extrema emoção artística, pois captam Kurt Cobain à vontade, experimentando, buscando encontrar a perfeição. Uma alma torturada alcançando o seu nirvana.

JUDAS PRIEST
A ESSÊNCIA DO HEAVY METAL

judasmetalogyEm quase trinta e cinco anos de história uma banda seminal como o Judas Priest não tinha, ainda, uma caixa retrospectiva. Coletâneas são incontáveis, mas uma caixa mesmo, só agora, com a espetacular “Metalogy”. De cara o visual impressiona. Trata-se de uma caixa de papelão com acabamento que imita o couro preto, como o logo da banda e o nome, em prata, no centro. Nas laterais um material prateado que reproduz os adereços que os integrantes da banda usam, e que virou marca registrada até para os fãs. Mas é dentro dela que vem o melhor: quatros CDs (65 músicas) e um DVD com o show gravado ao vivo em dezembro de 82, na turnê do álbum “Screaming For Vengeance”, o mesmo que saiu em 83 sob o nome “Judas Priest Live”.

As músicas cobrem todo o período de existência da banda, incluindo a fase com “Ripper” Owens. A relação inclui faixas ao vivo nunca antes editadas em CD (“Breaking The Law”, “The Green Manalishi”), outras inéditas (“Grinder”, “Love Bites”) e uma versão demo para “Heart of a Lion”. Não é o objetivo da caixa, entretanto, apresentar raridades, e sim o conjunto da obra do Judas Priest. Para quem ainda não se deu conta, a banda (que é de Birmingham, cidade industrial próxima a Londres, de onde saiu também o Black Sabbath), nasceu no desenrolar do “rock pauleira” dos anos 70, flertou com o rock progressivo, foi destaque na chamada new wave of british heavy metal (“British Steel”) e teve fôlego para chegar aos anos 90 (“Painkiller”), sendo uma referência fundamental para o nascimento do heavy metal alemão (e europeu) pós-queda do muro.

A história da banda é contada num livro com 60 páginas e mais de 70 fotos, que inclui ainda a relação de todas as músicas (com dados técnicos e origem), discografia completa e uma linha do tempo das mais interessantes, onde até o histórico show do Rock In Rio 2, em 91, no Maracanã, é citado. O livro abre com um texto assinado por Rob Halford, K.K. Downing, Glenn Tipton e Ian Scott. Detalhe: Bruce Dickinson ajudou a escolher as faixas.

E o melhor de tudo é saber que, depois de dar essa geral na história do Padre Judas, o disco novo, “Angel Of Retribution”, com a necessária volta de Rob Halford, já saiu lá fora e logo, logo, estará a venda no Brasil.

THE CLASH
JUBILEU DE PRATA

clashlondon25Que o álbum “London Calling” é considerado o melhor dos anos 80, todo mundo já sabe. Que as 19 músicas do disco, lançado ainda em 79, em vinil duplo, são todas conhecidas, também. O que não se esperava é que fosse parar nas mãos da banda um material inédito, registrado nas sessões de preparação para o disco, dado como perdido. É esse material (dois CDs + um DVD) que integra a edição comemorativa de 25 anos do “London Calling”.

O primeiro disco traz o álbum como foi originalmente lançado. O segundo vem com as “Vanilla Tapes”, uma série de gravações feitas pelo Clash num período anterior ao da gravação do disco, quando a banda passava por uma espécie de ressaca do punk rock, no início de 79. O grupo ensaiava em uma fábrica de borracha que havia sido reformada, parte dela se transformado numa oficina de carros, e outra no Vanilla Studios, daí o nome das gravações. A medida que compunham, os integrantes faziam cópias em cassete para levar para casa para praticar. Reza a lenda que um roadie perdeu o original da fita no metrô, quando deveria entregá-lo ao produtor Guy Stevans. Mas no ano passado, ao fazer uma arrumação, Mick Jones deu de cara com uma das cópias das “Vanilla Tapes”.

O disco traz quase 70 minutos de versões rudimentares para as músicas que entraram em “London Calling”. Há ainda outras quatro que acabaram abandonadas: “Lonesome Me”, “Walking The Sidewalk”, “Where You Gonna (Soweto)” e “Heart & Mind”, além do cover para “The Man In Me”, de Bob Dylan. Nessas versões, é possível ver todo o experimentalismo e as várias vertentes exploradas pela banda (country, reggae, ska, hillbilly). Não é a toa que o álbum apontou as direções que a música pop iria seguir na década seguinte.

O DVD vem com um documentário recuperado para este formato, “The Making of London Calling”, de Don Lets. O filme traz depoimentos dos integrantes (entrecortados com a banda tocando), produtores e até da fotógrafa que flagrou Paul Simonon destruindo o baixo, na cena que virou a capa do disco. O destaque é a descrição dos métodos adotados por Guy Stevens, o produtor porra-louca que atirava cadeiras, escadas e o que mais aparecesse pela frente durante as gravações. Trechos dessas cenas podem ser vistos no documentário, ou, na íntegra, na seqüência do DVD. Seguem ainda os videoclipes para “London calling”, “Train In Vain” e “Clampdown”.

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