No Mundo do Rock

Mais guitarras da Cidade do Rock

Backbiters investe em sonoridade setentista e renova a culto que faz da capital de Goiás a Seattle brasileira; em ótimo disco lançado pela Monstro, grupo mostra que a cidade ainda tem muito a mostrar na cena nacional. Foto: Divulgação.

Os quatro difamadores emparedados apostam nas guitarras para renovar o rock goiano

Os quatro difamadores emparedados apostam nas guitarras para renovar o rock goiano

Depois de tocar em várias bandas, quatro cidadãos goianos decidiram fincar os pés na década de 70 em busca daquilo que dez em dez músicos querem: tocar o que gostam de ouvir. Assim nasceu o Backbiters, há cerca de quatro anos, que hoje conta com Emanuel Mastrella (vocal, guitarra e teclados), Gustavo de Carvalho (guitarra), Gilberto Lima (baixo) e Sérgio Henrique (bateria). “Queríamos fazer um rock and roll setentista, coisa que não se achava tanto por aqui”, conta Gustavo logo de cara, por e-mail. Bastou duas músicas (“Stronger Than Ever” e “Plastic Words”) numa demo para o quarteto pular para o primeiro disco, auto intitulado, lançado esse ano.

Já deu pra perceber que, a exemplo de outras bandas goianas, o Backbiters adotou o inglês para se expressar. Na faixa de abertura, “You’re Not Too Late”, o brado quase refrão já traduz tudo em linguagem universal: “rock is my way”. Está no coração e no sangue. Antes mesmo de Emanuel soltar a voz, percebe-se que a força do grupo está nas guitarras, não somente em riffs, mas em solos estonteantes, por vezes soltos entre um verso e outro. “São poucos riffs, porém muitos solos de guitarra”, acredita Gustavo. “As músicas surgem de uma melodia e depois são encaixadas as letras e os arranjos. Nas músicas que têm riffs, eles foram os últimos a entrar na composição”, admite. Nem parece, se levarmos em conta petardos como “End Of The Road” e “City Of Rock”. Não é fácil.

É bem verdade que faltou um pouco de peso na produção do CD, que, talvez por ter ficado à cargo do próprio grupo, encolheu um pouco o potencial instrumental. Pérolas como “I Believe, I Think”, por exemplo, nas mãos de um produtor experiente poderiam colocar o álbum como um divisor de águas no rock independente nacional – apesar do sotaque estrangeiro. Outra legal é a cadenciada “Don’t Think Your Life Is a Cheat”, com raízes profundas no blues rock americano, mas é “Backbiter”, meio faixa título, escondida quase no final do CD, a mais enguitarrada do repertório. A música é um verdadeiro deleite do rock sujo e que só poderia ter vindo da cidade deles mesmo.

Será que essa moça de família da capa acredita neles?

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E não é de hoje que se tenta entender o que se passa em Goiânia. De um lado, a capital do cerrado revelou um sem número de duplas sertanejas que brilham a cada final de semana nos programas dominicais de TV. De outro, é berço das bandas de rock mais barulhentas do País. É de impressionar como se assemelham boa parte dos grupos surgidos por lá, a ponto de muita gente boa ter detectado a existência de um novo gênero: rock goiano. “Goiânia sempre foi o berço do stoner/garage”, define Gustavo. “Todas as bandas daqui tocavam um rock sujo, com riffs e letras em inglês, por isso o pessoal chamou esse tipo de som de ‘rock goiano’. Não acho correta essa afirmação, são apenas as influências semelhantes entre as bandas daqui”, avalia.

Referências que ele próprio cita, entre um AC/DC aqui, um Johnny Winter (citado nominalmente numa das faixas) acolá, Backyard Babies e Hellacopters. A resposta poderia se a mesma se a pergunta fosse dirigida aos hoje veteranos do MQN e do Mechanics, duas pioneiras do rock goiano que bebem um pouco mais, um pouco menos, nas mesmas fontes. O “garoto” Gustavo nem percebe isso, embora “Plastic Words”, uma das antigas, tenha semelhança com “Sexperienced”, dos gaúchos do Cachorro Grande: “Posso dizer com tranquilidade que nossas influências são de fora do país”, diz. As deles também, Gustavo. Mesmo assim, o grupo traçou um paradoxo sobre o perfil da cidade na faixa “City Of Rock”. “Achamos que Goiânia é a cidade do rock brasileira, apesar disso, ainda falta um ‘quê’ de profissionalismo nessa cena. Viver de rock aqui é quase impossível, mas aos poucos a cena se profissionaliza, cada vez mais bares e boates percebem que Goiânia tem um público voltado ao rock”, acredita o guitarrista.

Não é difícil concluir o porquê da Monstro, que se transformou numa das maiores gravadoras independentes do País, ter contratado o Backbiters. “Uniu a fome com a vontade de comer”, simplifica Gustavo. O guitarrista não se dá por satisfeito e já aponta para o próximo disco. “Estamos em trabalho de pré-produção, o próximo CD vai ter a mesma pegada, com elementos mais setentistas”, arrisca. Se é que dá para confiar num backbiter, que, em tradução livre, é a qualidade singela de mentiroso, difamador. “E quem não é?”, finaliza Gustavo, aos risos.

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