Som na Caixa

Deep Purple

Stormbringer
35th Anniversary Edition
(EMI)

deeppurplestormbringer35No dia 8 de agosto de 1974 a terceira formação do Deep Purple entrava em um estúdio em Munique, na Alemanha, para gravar seu segundo álbum, depois do estouro que foi o primeiro, “Burn”, lançado incrivelmente no início do mesmo ano. Isso porque, após a saída de Ian Gillan (vocal) e Roger Glover (baixo), que haviam consagrado o grupo na formação anterior, eram poucos os que acreditavam que o discreto baixista do Trapeze e um inexperiente balconista de boutique fossem dar conta do recado. Mas eles estavam certos.

Embora seja “Stormbringer” um grande álbum, e essa versão de aniversário de 35 anos vir bem a calhar, não é certamente o que traz as melhores lembranças para banda, fãs e afins. Foi depois dele que o racha entre o temperamental guitarrista Ritchie Blackmore se tornou evidente e a separação mal pôde esperar o lançamento do disco e turnê subsequente. Turnê que incluiria a banda Elf, cujo vocalista, Ronnie James Dio, seria recrutado por Blackmore para formar o Rainbow, deixando o Purple com o apenas razoável Tommy Bolin. Era o começo do fim do DP, que se dissolveria em 1976 depois da morte precoce de Bolin e só voltaria com Gillan e Glover, em 1984, no excelente “Perfect Strangers”. Mas essa é outra história.

“Stormbringer” foi o disco do Purple em que as referências ao funk e à música negra de uma forma geral, trazidas por Coverdale e – sobretudo – Huges ficaram mais evidentes. Embora desagradasse Blackmore, o resultado mantém o peso que não desapontou os fãs e nem fez feio durante as turnês. Músicas como a faixa-título, que Coverdale jura ter escrito sem tomar conhecimento dos livros de Michael Moorcock - nos quais “stormbringer” é o nome de uma espada negra com poderes especiais -, “Lady Double Dealer” e “High Ball Shooter”, ainda que se perceba o insistente baixo “funky” de Hughes, garantem o peso típico do Purple, engrossado pela voz mais grave de Coverdale e tendo como contraponto os agudos semi-histéricos do baixista. Uma mistura de alta combustão.

Mas “You Can’t Do It Right”, de outro lado, é funk até o caroço – ou até a guitarra. “Love Don’t Mean a Thing” e o coro da ótima “Hold On”, quase acústica, remete ao gospel de uma década atrás, assim como “Holy Man”, uma das duas do disco que Blackmore preferiu não ter a autoria creditada a ele. Pode ter sido por acaso, mas o encontro de Hughes com Stevie Wonder, que gravava alguma coisa no mesmo estúdio, além da presença de David Bowie, dançando enquanto Coverdale gravava os vocais de “Hold On”, contribuem para a aura funk/soul/black music. Que, contudo não retira a marca do Purple, muito menos a grandeza do disco em si e dessa formação.

As histórias de que Blackmore vivia insatisfeito por estar perdendo o controle artístico sobre o grupo são confirmadas no encarte dessa edição por um bom texto de Simon Robinson, responsável pelo principal fã clube do grupo. Ele acrescenta que inclusive David Coverdale foi convidado para seguir com Blackmore – o que anteciparia o fim do Deep Purple, na época – mas o vocalista declinou ao tomar conhecimento que o guitarrista pretendia usar as mesmas idéias que haviam sido rechaçadas na feitura de “Stormbringer”. Mais ou menos o que foi desenvolvido no ótimo “Ritchie Blackmore’s Rainbow”, tido como álbum solo, lançado um ano depois, em 1975. A contribuição mais preciosa do guitarrista talvez tenha sido na lenta e dramática “Soldier Of Fortune”, parceria com Coverdale e seguramente o ponto de partida para o sem número de baladas consagradas anos mais tarde no Whitesnake. Outras lendas incluem a de que “Love Don’t Mean a Thing” teria sido cantarolada por um estranho que foi levado ao avião particular do grupo, e depois desaparecido anonimamente.

De especial essa edição tem o álbum todo remasterizado, em CD e DVD, para se ouvir com áudio 5.1. O CD vem com quatro remixes feitos por Glenn Hughes no estúdio Abbey Road em 2006, enfatizando sua “fração do disco”. As músicas escolhidas são “Holy Man”, “You Can’t Do It Right”, “Love Don’t Mean a Thing” e “Hold On”. Já “High Ball Shooter” aparece numa versão instrumental, realçando uma escondida guitarra “funky”.

O bom texto de Simon Robinson (apesar das letras minúsculas) destrincha outros detalhes e curiosidades, como o título, que em princípio deveria ser “Silence” (há a reprodução de um esboço de capa feita para esse caso); a admissão de que só o Pégasus na foto original da capa não é original; e o logo da MKIII, que só foi usado nesse disco, embora nos shows mais recentes, curiosamente, é ele que aparece no pano de fundo, acompanhando a MKVIII – e lá se vão 35 anos. A cereja no bolo é a reprodução de fotos raras que ilustram o encarte e aparecem no DVD enquanto rolam as músicas.

Tags desse texto:

Comentários enviados

Apenas 1 comentários nesse texto.
  1. marcio silva de almeida em julho 2, 2009 às 8:07
    #1

    Este album é ótimo, para todo o purplemaniaco que se preze, antenado em todas as fases. Para se ter uma excelente idéia da sonoridade diabólica que a banda sempre transmitiu, embora neste, mais sofisticada, é necessario apreciar e ouvir todas as formações!

Deixe o seu comentário

Seu email não será divulgado