Sepultura arrasador
Apresentando músicas do novo álbum, mas enfatizando os clássicos, grupo usou volume altíssimo e precisão instrumental para encantar as 2500 pessoas que foram ao Canecão, ontem, no Rio; na abertura, Angra fez apresentação pálida. Fotos: Site Oficial/Divulgação e Marcelo Martins (ao vivo).
Passou ontem pelo Rio a turnê inédita com Sepultura e Angra, duas das grandes bandas do metal nacional. A iniciativa exemplar só não resultou numa noite memorável porque a diferença entre o momento das duas bandas é abissal. Enquanto o Angra se reestrutura com outra formação depois de mais de dois anos parado, o Sepultura consolida a fase com o baterista Jean Dolabella, no grupo há cerca de três anos, e lança o álbum “A-Lex”.
O fato é notável já nos primeiros acordes do show do Sepultura: o som tem uma potência bem mais “cheia”, está melhor equalizado e num volume altíssimo – fato raro no Canecão. O grupo manda logo três músicas de “A-Lex”, com Derrick Green fazendo vocais mais “cantados” e menos “gritados”, achando um equilíbrio que lhe faltava no passado. Em “Filthy Rot” ele toca um surdo no meio do palco que passa despercebido, dado o volume altíssimo do som e da violência que Jean Dolabella usa para detonar seu kit – enxuto e eficiente. O baterista parece inteiramente integrado ao grupo, já que “A-Lex” foi o primeiro álbum que ele gravou com o Sepultura, assinando, inclusive, todas as faixas.
O primeiro dos clássicos foi “Refuse/Resist”, que continua atualíssima, com uma pegada sensacional. Se Jean destruía a bateria ao fundo, Andreas Kisser não fazia por menos. Para ele não tem essa de “antiguidade é posto”. O guitarrista toca de forma visceral cada passagem, cada acorde, cada solo, suando a camisa como se estivesse em início de carreira. Esse talvez tenha sido o grande benefício da entrada de Jean: ter feito o Sepultura redescobrir a garra que havia perdido em algum lugar do passado. Nesse sentido, hoje se percebe que a saída do desinteressado Iggor Cavalera foi um verdadeiro alívio. Até o sempre oculto Paulo Jr. brilhou, esboçando, em alguns trechos do show, um approach com Andreas, como em “Roots Bloody Roots”.
Em todo o repertório, que coube em cerca de 1h20 de show, o Sepultura mostrou nada menos que oito músicas de “A-Lex”, numa outra prova de vitalidade do grupo. Entre elas, “The Treatment”, seguida da instrumental “A-Lex II” é uma das melhores, concisa e super pesada – característica, aliás, de todo o álbum. Ao vivo, “Moloko Mesto” e “What I Do” ganharam peso extraordinário. Um detalhe que fez a diferença no repertório é que o quarteto desistiu de fazer aqueles pout pourri que juntavam trechos de várias músicas sem obter um bom resultado em nenhuma delas. Coisa típica de banda que está afiada e quer tocar tudo certinho.
Só depois da metade do show é que Andreas se manifesta, lembrando o aniversário de 25 anos do grupo e agradecendo a todos, antes de soltar a jurássica “Troops Of Doom”. Ela abre espaço para o resgate de “Escape to The Void”, outra que há tempos não era tocada nos shows. Os dois melhores momentos ficam, entretanto, com “Dead Embrionic Cells” e “Territory”, ambas tocadas numa velocidade descomunal imposta por Jean. E olha que em “Arise”, “ainda mais rápida”, como anunciou Derrick, é que o bicho pegou pra valer, num encerramento espetacular.
O show dessa sexta lembrou outras duas apresentações inesquecíveis do Sepultura no Brasil. Uma, nesse mesmo Canecão, em 1994, quando o grupo mostrou pela primeira vez no Rio, num lugar de grande porte, toda a evolução construída nas turnês pelo mundo. E outra, em 1996, duas noites seguidas, na verdade, que seriam as duas últimas apresentações com a formação clássica no Brasil, no finado Imperator. Assim como Jean Dolabella, Iggor estava possesso e tocou com uma velocidade impressionante, com o Sepultura em grande forma. Outra amostra de que o grupo, tocando em cima de um palco, está bem perto daqueles tempos.
No bis, Andreas surpreendeu cantando “Polícia”, do Titãs, além de outra das novas, “Conform”, e o encerramento definitivo com “Roots Bloody Roots”, um clássico mundial que já superou as fronteiras do metal e arrematou com impacto uma apresentação – não custa repetir – arrasadora.
Fora de forma, Angra decepciona
A introdução de “Carry On”, no início da noite prometia um show marcante do Angra também, mas a impressão se desfez logo de cara. Primeiro porque Edu Falaschi estava com a voz rouca, e, embora nunca tenha conseguido cantar as músicas da fase Andre Matos da mesma forma, ontem não estava numa boa noite. Depois, porque o som estava mal equalizado, embolado (mais de uma vez as guitarras sumiram) e com um volume decepcionantemente baixo. A cruel soma desses dois fatores fez com que algumas músicas custassem a ser reconhecidas, caso da boa “Metal Icarus”, pinçada num repertório repleto de clássicos.
Num deles, “Angels Cry”, o Angra mostrou o que ainda tem de melhor: o duelar de Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt. Apesar do desentrosamento geral entre os integrantes, eles continuam afiados, seja em solos sempre precisos ou em passagens simples no meio de cada música. Foi assim também no início de “Acid Rain”, outra que, no meio, teria as guitarras desaparecidas por algum problema técnico. Rafael e Kiko também brilharam nos riffs pesados de “The Course Of Nature” e na intro matadora de “Nothing To Say”. Afora a inclusão de “Last Redemption” (aquela feita com Milton Nascimento e com trechos em português), o repertório foi bem sacado, mas no fim das contas revelou uma banda totalmente fora de forma e que precisa ensaiar e tocar muito para voltar ao patamar que a consagrou.
Depois do show do Sepultura, os músicos se reuniram para uma jam session das mais interessantes. Com todos no palco e Jean Dolabella na bateria, tocaram “The Immigrant Song”, do Led Zeppelin, e com Ricardo Confessori mandaram “Paranoid”, do Black Sabbath. Entre elas muitos riffs de outros clássicos da música pesada, incluindo a introdução completa de “Seek And Destroy”, do Metallica. Acabou soando como um momento de relax depois da intensidade matadora do Sepultura.
Set list completo Angra
1- Carry On
2- Nova Era
3- Waiting Silence
4- Lisbon
5- Angels Cry
6- The Course of Nature
7- Make Believe
8- Acid Rain
9- Metal Icarus
10- Last Redemption
11- Nothing to Say
Bis
12- Rebirth
13- Spread Your Fire
Set list completo Sepultura
1- A-Lex I/Moloko Mesto
2- Filthy Rot
3- What I Do!
4- Refuse/Resist
5- Manifest
6- Convicted In Life
7- Atittude
8- We’ve Lost You!
9- A-Lex II/The Treatment
10- Dead Embrionic Cells
11- Troops OF Doom
12- Escape to The Void
13- Innerself
14- Sepulnation
15- Territory
16- Arise
Bis
17- Polícia
18- Conform
19- Roots Bloody Roots
Set list completo Angra + Sepultura
1- The Immigrant Song
2- Paranoid






















