Som na Caixa

Soulfly

Conquer
(Warner)

soulflyconquerMax Cavaleira é um homem de palavra. Disse que esse ano lançaria os álbuns de suas duas bandas, acertou em cheio com o Cavalera Conspiracy e aqui está o sexto do Soulfly. Mais importante: na seara da música pesada, onde muitas vezes fica difícil separar isso daquilo, conseguiu dar uma cara bem própria para as duas, mesmo ambas tendo em comum, além dele, o guitarrista Marc Rizzo. E, aproveitando uma de suas fases mais extremas desde o álbum “Arise”, ainda com o Sepultura, usou doses cavalares daquilo que o metal tem de melhor: o esporro.

Aqui, neste “Conquer”, tudo parece mais trabalhado, desde os precisos arranjos até a fantástica equalização dos instrumentos – cortesia de Andy Sneap -, o que garante outro fator importante em se tratando de música extrema: a possibilidade de escutar cada mínimo detalhe que contribui para a barulheira geral. Os trabalhos de guitarra são simplesmente matadores em todo o CD, que só arrefece verdadeiramente na tradicional faixa “Soulfly” (no caso a parte VI), que encerra cada disco da banda agregando referências místico-religiosas típicas do Max pós Sepultura. Dessa vez, mesmo a (soturna) capa e o encarte remetem a símbolos budistas transformados, por assim dizer, pelos dogmas do heavy metal. A cara de Max.

Em “Dark Ages”, o álbum anterior, o Soulfly chegou o mais perto do que era o Sepultura com a formação clássica. Mas, agora, foi além, fazendo com que esse disco, conceitualmente, soe como se fosse o trabalho subseqüente do grupo mineiro caso o racha não tivesse ocorrido, há 12 anos. Só que devidamente atualizado para esse final de primeira década do novo século. Como numa busca por sua face mais extrema, Max e o Soulfly voltaram ao ponto de partida, e dali saíram para um caminho diferenciado, deixando as raízes para o Cavalera Conspiracy. Assim, o grupo, que no passado flertou ainda com outros subgêneros do metal, parece ter encontrado o seu, já que evita pegar carona na tal new wave of american heavy metal. Pior para os teóricos da música pesada.

Numa inspirada fase de boas composições por parte de Max, e de grandes idéias com uma guitarra na mão - caso de Rizzo -, o Soulfly abusa do peso, mas adiciona características incomuns, mesmo para uma banda acostumada a buscar novas frentes de trabalho. “Warmageddon”, um novo neologismo típico do Soulfly, impõe uma incrível correria de guitarras; o exagero extremo de “Doom” acaba se convertendo em música para headbanger dormir; os riffs melódicos de “Fall Of The Sycophants” são interrompidos abruptamente por tambores do além; “For Those About to Rot” (outra das tiradas do Max) tem uma bateria programada que atravessa a cabeça do ouvinte como uma faca de Halloween; e o riffaço de “Enemy Ghost” desperta o body surfing por ventura adormecido dentro de cada fã de longa data. Só exemplos de momentos que realçam o que o Soulfly vem buscando há anos, quase sempre sem sucesso: a diversidade na unidade. “Conquer” é um trabalho homogêneo que, entretanto, não soa repetitivo.

A maré é tão boa para Max que, no frigir dos ovos, passam batido (mas merecem registro) as participações de David Vincent, do Morbid Angel, que canta e co-escreveu “Blood Fire War Hate”; e de Dave Peters, do Throwdown, que fez o mesmo em “Unleash”, além de outros menos cotados. A utilização de um didgeridoo (instrumento aborígine) no final de “Touching The Void” é a deixa para “Soulfly VI”, talvez a melhor de todas as partes, fechar muito bem o álbum, colocando Max no rol de artistas do terceiro mundo que se consagraram conectados justamente com suas raízes. Sentado entre Carlos Santana e Bob Marley, não abre mão, de outro lado, da música extrema que carrega como genuína vocação.

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