O Rappa
Tentando superar traumas recentes com o primeiro disco sem Marcelo Yuka
Entrevista que procura desvendar os motivos da saída de Marcelo Yuka, baterista original e principal letrista do grupo, que sofreu grave acidente em 2000 e ficou impossibilitado de tocar. Além, é claro de falar sobre o lançamento de “O Silêncio Q Precede O Esporro”, o primeiro disco sem Yuka. Depois de falar com toda a banda, foi necessário apurar o famoso “outro lado”. Matéria de capa da Dynamite número 69, de janeiro de 2004. Fotos: Divulgação.
O dia nove de novembro de 2000 jamais será esquecido pelos integrantes d’O Rappa. Nesta data o baterista Marcelo Yuka, ao tentar se afastar do local aonde ocorria um assalto, no Rio de Janeiro, foi alvejado pelos bandidos e acabou numa cadeira de rodas, com um dos disparos tendo atingido sua coluna cervical. Yuka era o responsável pela maioria das letras do grupo, que retratavam justamente esse cotidiano violento, sob a ótica das comunidades mais carentes, vitimadas pela violência do narcotráfico, que tentam sobreviver às desigualdades sociais. Num acontecimento casual, acabou vítima do próprio discurso e, exposto aos olhos da mídia, comoveu a população brasileira.
Três anos se passaram e a banda segurou a onda como pôde. Por sorte, o tecladista Marcelo Lobato não teve dificuldades em se adaptar à bateria e a banda continuou a fazer o que sempre faz, tocando por todo o Brasil, numa média de 150 shows anuais (cerca de um a cada três dias). Em 2001, a banda lançou “Instinto Coletivo”, gravado ao vivo em Curitiba, ainda com Yuka, para tomar um certo fôlego, diante dos acontecimentos. Enquanto isso, Yuka se adaptavas às novas condições e se dedicava a um intenso trabalho de fisioterapia (que dura até hoje) para recuperar os movimentos dos membros inferiores.
Até que o imponderável aconteceu: a banda resolveu gravar o novo disco sem Yuka. Em princípio, o ex-baterista reclamou, em algumas entrevistas, de ter sido expulso da banda, mas depois se calou, e passou a se dedicar aos seus projetos, musicais e sociais (ver Box). Os quatro integrantes remanescentes – Marcelo Falcão (vocais), Xandão (guitarra), Marcelo Lobato (bateria e teclados) e Lauro Farias (baixo) entraram de cabeça nas pesquisas e gravações daquele que seria o quarto disco d’O Rappa, “O Silêncio Q Precede O Esporro”, produzido pela banda e por Tom Capone, e que já é disco de ouro.
Em entrevista exclusiva a Dynamite, o novo Rappa falou sobre a saída de Yuka (coisa aparentemente ainda não tão resolvida), do desafio de, pela primeira vez, compor as novas músicas sem as sempre elogiadas letras dele, da perda do poeta Waly Salomão, homenageado no disco, das novas parcerias e sobre o futuro de um dos maiores (e unânimes) nomes do rock nacional dos anos 1990.
(Enquanto rolava “Reza Vela”, o primeiro single) Agora vocês estão curtindo essa música, mas daqui há uns dois anos vocês já vão ter tocado ela umas trezentas vezes, vocês vão estar de saco cheio ou ainda curtindo?
Lauro Farias: Nós já temos uma discografia que dá para você ficar variando nos shows, essa música mesmo nós já estamos tocando muito mais rápido. O importante é que a cada show nós transformamos a música.
Marcelo Falcão: Nós pervertemos tudo o que nós fazemos. Depois de fazer tudo direitinho, como nós queríamos, na hora do ao vivo damos logo uma pervertida. Às vezes uma nota lembra uma parada, aí você manda uma vez, de onda. Aí os caras desenvolvem e daqui a pouco tá todo mundo nessa, isso é um barato. São erros que se transformam todo dia. Como diz o Chacal (N.E.: poeta carioca), o que seria das pessoas que não tivessem errado na hora que foram falar? Tipo “e aí, cara?”, já virou uma parada, ele poderia falar só “tudo bem?”. É mais ou menos o que nós somos.
Como rolou de fazer a música “O Salto” com instrumentos eruditos, numa banda em que os arranjos puxam mais para os samplers e para a percussão?
Xandão: Essa música veio de um amigo meu que tem um trabalho só com guitarra distorcida e voz, uma coisa punk rock pra caralho. Um dia nós escolhemos uma letra dele para fazer e foi essa de “O Salto”, que é uma carta testamento. Conta a história de uma cara que, na época do Plano Collor, perdeu tudo o que tinha, família, dignidade, colocou o filho no colo e pulou de um prédio. Aí ele fez uma letra que parece o testamento desse cara. Como o tratamento dela é todo meio profético, procuramos um caminho diferente.
Falcão: O Xandão me mostrou essa música dentro do avião, e eu achava um barato aquela coisa de “regar as flores com chuvas de inseto”. E de certa forma, depois de ele ter contado tudo o que significava essa letra, existia uma necessidade para trazer ela cada vez mais para as dificuldades que aconteceram na nossa carreira nesses anos todos.
Xandão: No começo era um sampler de cordas, que o Lobato tinha colocado nessa música. Quando levamos para o estúdio, pensamos: “sampler é o caralho, vamos fazer com cordas mesmo essa porra toda!”.
A participação do Waly Salomão acabou crescendo no disco por causa da morte dele, ou já era uma coisa prevista?
Falcão: No ano passado, depois que eu já tinha descoberto que iria ser pai, eu estava amarradão e queria muito o Waly por perto, porque ele sempre foi um dos nossos heróis. Sabe, a mídia puxa para um lado e os verdadeiros, os profetas, os cascudos mesmo falam: “você tá certo, continua nessa onda, juntando seus amigos, não deixa a peteca cair não”. O Waly seria o quinto nessa história, eu já tinha prometido que ele iria estar no disco, não uma coisa de pegar uma parada dele pronta, mas de ele participar como letrista. Nos momentos mais loucos da minha vida ele foi o cara que mais me ajudou, o cara que é dos nossos heróis mesmo. Mas ele foi escolhido pelo Gil (N.E.: o ministro da Cultura, Gilberto Gil), se ocupou e sumiu. Passou um tempo e depois o cara faleceu. Então rolou a intimidade com a família, que cedeu materiais, de modo que a verborragia dele pudesse estar presente em algum momento. Quando nós recebemos o material, o Tom (N.E.: Capone) foi muito sensível, soube expor ele no disco de uma maneira legal. “A memória é uma ilha de edição” (N.E.: uma das falas de Waly no disco), isso é genial. No final, é inacreditável, eu ouço o disco e acho que o cara não morreu.
Apesar de o conteúdo social estar forte no disco, as letras estão menos explícitas, menos “na cara”. Vocês quiseram fazer a coisa assim?
Marcelo Lobato: Nós estamos num clima super leve, apesar das coisas todas pelas quais nós passamos. No momento em que ficamos os quatros lá no estúdio, experimentando e recomeçando tudo, depois dessa separação, nós tivemos que recomeçar. Esse material é todo recente, não tem nada antigo, como foi no disco anterior, no qual nós gravamos sobras do “Rappa Mundi”. Partimos do zero mesmo, e foi legal contar com letristas inusitados, como o caso do Carlos Pombo, que escreveu “O Salto”, do Rodrigo Valle (co-autor de “Reza Vela”), que é nosso técnico de monitor. É a marca d’O Rappa, essa coisa espontânea, não tem muito estudo, é a coisa de deixar rolar, deixar rebater.
Vocês não ficavam assim: “pô, o Yuka fazia todas as letras, e agora, o que é que nós vamos fazer?”
Lobato: Nós já tínhamos um referencial, porque “Homem Amarelo” foi uma música que partiu de mim, do Lauro e do Xandão, e que depois todo mundo deu palpite. Mas essa coisa da criação coletiva é muito bacana, você ter banda, poder tocar, dividir a responsabilidade, isso fortalece muito. E o fato de nós estarmos emendando uma turnê na outra, isso faz você ficar muito junto. Nós tivemos tempo para chegar e colocar convidados, como é o caso do “Óbvio”, que teve a participação da rapper argentina Malena D’Alessio, ela tem uma coisa muito politizada.
Vocês a conheciam de onde?
Falcão: Foi numa balada com o Tom Capone e os Detonautas em São Paulo, numa convenção latina. Aí subiram uns cubanos para cantar. Estava faltando uma meia hora para ir embora, eu já desistindo dos cubanos, chatos pra caralho, e essa mina subiu no microfone e mandou uns 15 minutos de free style. E a mina é a maior figuraça.
Lobato: Ela parecia uma cigana, meio hippie.
Falcão: Ela jogou um CD da banda dela na minha mão. Às vezes eu ouço bandas dos outros, e tenho um certo preconceito, porque todo mundo vem querendo imitar o Rappa, o Planet Hemp. Ela me deu a fita, eu fui para o hotel às cinco da manhã e botei, e aí vi o quanto o Orixas não presta. Aí eu encontrei com ela e falei que estava a fim de convidá-la para participar do CD. Há um tempo atrás nós tínhamos chamado o Mano Chao, mas o cara acabou arrumando um dinheiro fazendo umas paradas por fora e foi automaticamente limado. Nós chamamos de coração, e o cara faz três na frente, por causa de dinheiro? Fica aí mesmo, nem volta aqui! Aí eu falei com ela que nós não queríamos que ninguém participasse, para manter a banda bem fechada, e avisamos: “se tu gravar com outra pessoa, tu não serve”. Chegou num dia lá no estúdio, ela pediu um tempo para o dia seguinte. Eu pensei que ela ia me dar um calote, mas voltou, me mostrou a letra num portunhol, e falou que foi o que ela tinha entendido da letra. Ela mandou muito bem, foi o que eu queria para a música.
Mas afinal vocês acham mesmo que as letras ficaram menos explícitas que antes?
Falcão: Estávamos num momento só nosso. Não teve nada premeditado para que fosse mais leve, mas tinha esse sentimento de querer fazer coisas diferentes. É mais legal você trazer uma letra, pegar ela aqui e deixar ela tua. E amanhã você me devolve, com uma vírgula que seja, e eu falar: “caralho, aquela vírgula foi a diferença”. As letras do Yuka, eu já tinha falado isso para ele, são um papel escrito. A partir do momento que essa letra chegava nas mãos d’O Rappa, de nós todos, ela se transformava, virava a maneira do Falcão cantar, a maneira que o Lobato tem de dar uma zoada. E nós não temos medo de ter convivido com essa nossa decisão de o Yuka fazer as coisas que ele quer para a vida dele, e nós fazermos o que queremos com o Rappa. Todo mundo aqui quer projetos individuais, mas o Rappa tá na frente. Eu carrego isso no Rappa, tenho essa liberdade de brincar com as letras. Mas era a oportunidade, dessa vez, de as pessoas conhecerem quem são os quatro. Eu não consigo notar isso que você falou, eu noto que nós continuamos falando do cotidiano, cada vez com mais sensibilidade em falar de uma forma mais poética, menos dramática, menos dolorido, rancoroso. Passamos 11 anos, são quatro discos de platina, é uma viagem de você querer respirar por outros ares, não aquilo que nós já respiramos. Sou feliz com o “LadoB LadoA”, com o “Rappa Mundi”, mas sou feliz também de me propor a uma novidade.
O fato de o acidente que aconteceu com Yuka ter sido uma espécie de retrato daquilo que era mostrado nas letras dele contribuiu para que vocês pegassem mais leve nas letras?
Falcão: Quando se descobriu que a prioridade de alguns era o Rappa e a de outros eram trabalhos individuais, ficou decidido assim: o Yuka foi fazer essas paradas que ele tá afim, porque nós estamos vendo que ele tá a fim de fazer os projetos dele, dar palestras, montar uma banda. E nós vamos continuar porque estamos há um ano na estrada, já conversamos na estrada, nós custeamos a fisioterapia do Yuka. Falam que nós brigamos, saímos na porrada, mas não. Eu abri mão de tudo na minha vida para ter isso que eu queria. Eu queria ter uma banda, se eu quisesse solo eu já tinha entrado numa maluquice aí, mas eu sempre gostei de dividir. O Rappa começou quando eu entrei, foi quando surgiu o nome. Minha preocupação, com os caras que já se conheciam há 12 anos, era de ser apenas mais um dentro de uma banda, que deveria ser conhecida pelo que todo mundo fala. Então eu não noto diferença nas letras, parece que eu continuei escrevendo as coisas que eu sinto. Eles também, e saiu dessa forma.
Lobato: Desde o “LadoB LadoA” que não tem mais nada muito óbvio na parada. Acho que o primeiro disco tinha uma coisa mais messiânica. Esse disco teve uma coisa de olhar para o nosso interior, de se cuidar de você, sacar antes, lavar a roupa suja nós quatro também. Saber até onde é o limite de um, do outro, se respeitar mais, saber que o cara vai até aquele momento.
Falcão: Talvez nós sejamos uma das bandas que mais faz show. Todo dia que toco uma música eu a sinto de forma diferente. Já tocamos em Crato, Rio Branco, e tem a maior multidão, todo mundo deslumbrado. Aí chega o cara e fala: “dá um toque nas outras bandas pra vir tocar aqui também…” Acho sacanagem os caras não tocarem em lugar onde o disco vende muito.
A saída do Yuka então foi uma parada legal? Já li depoimentos dele reclamando, dizendo que foi “saído” da banda…
Falcão: Eu posso jurar para você que briga não houve. Houve momentos em que as pessoas não estão pensando mais iguais mesmo. Nós não conseguíamos imaginar que estávamos fazendo a turnê do “Instinto Coletivo”, e todo dia, quando voltava da turnê, procurava saber muito do cara, mas chegou o momento em que nós queríamos fazer o disco. Na nossa cabeça nós achávamos que em determinado momento ele iria utilizar a música como forma maior de recuperação dele conosco. Essa era a idéia. Falávamos: “Meu irmão, mete bronca aí que a gente tá na estrada aqui, faz fisioterapia, faz os exames tal, pode fazer tudo”. E chegou o momento em que nós perguntamos: “Vamos fazer o disco?”. E nesse momento, em dois meses, ele foi três vezes ao estúdio. Aí nós perguntamos mesmo: ”Tá a fim de fazer o disco?”. E ele disse: “Não tô a fim de fazer o Rappa agora”. Aí tu para e pensa: “Como é que seria não fazer o Rappa agora?”. Nós estávamos dispostos a fazer um disco autoral, com ele. E nesse momento o cara tava compondo com um monte de gente, que é uma coisa que nós respeitamos, afinal o cara é compositor. E nós na estrada. Aí perguntamos novamente, já que nós quatro já estávamos, de certa forma, brincando com algumas coisas novas e tudo mais, já era a hora. E com ele nós fizemos duas ou três músicas, que eu me lembre acho que só uma tem letra, e remetia a alguma coisa d’O Rappa antigo.
Lobato: E eu pesquisando material, porque nós temos muita coisa acumulada ao longo dos anos. O “Instinto Coletivo” mesmo foi um disco que nós fizemos muito em função dele, não era hora de lançar um disco ao vivo. A verdade é a seguinte: talvez poucas pessoas conheçam mais ele do que nós, e ele também, de certa forma, nos conhece como ninguém. Ele é um puta de um cara amigão, nós continuamos a respeitá-lo, acho que ele vai sair com um puta de um disco aí também, ele tem condições de fazer isso. Acho que não interessa o que passou, o que interessa é botar pra frente. Rolou o acidente e tal, mas tudo bem. Temos uma coisa super respeitosa com o Yuka, entramos em acordo com ele sobre as coisas que ele precisa, ele é um cara que faz parte d’O Rappa até hoje, e o que foi feito, tá feito, até porque nós valorizamos demais os textos do cara. Mas chegou uma hora dele ir pra lá e nós pra cá.
Mesmo com a separação, eu pensei que fosse ter letras dele no disco…
Falcão: Eu também, mas eu virava para o cara e ele dizia que não era a hora. Eu achava que um dia ia chegar da estrada e perguntar: “E aí, como é que tá?”, e ele ia mostrar várias coisas. Mas ele falava: “Para o Rappa eu não escrevi nada”. Aí eu vejo lá no CD do Max de Castro uma música dele e do Max. Maneiro, meu amigo, tá fazendo uma letra. Vejo o CD do Simoninha, ta lá Yuka/Simoninha…
Lobato: Eu lamento, porque é uma banda que tem um diferencial, um cara que tem uma forma diferenciada de escrever. Eu também nunca imaginava que fosse acontecer uma coisa dessas.
Falcão: A única coisa que pegou é que ele não queria fazer o Rappa agora, e eu queria. A única coisa que você pode falar aí é que nós queremos que o cara se cuide cada vez mais. É meio recado mesmo, ele deixar na casa dele só quem gosta dele, porque com essa onda do acidente a casa dele fica repleta de pessoas que não têm nada a ver com ele, e o astral precisa ser tomado conta.
Lobato: Com o tempo ele mesmo vai achar o caminho dele e nós vamos continuar procurando o nosso. Acho que a galera enaltece o Marcelo. Só que nós conhecemos ele de uma época que ninguém sabia quem era o Marcelo Yuka. Nossa relação com ele é de amizade, não é de interesse, não é por causa das letras. Nós já recusamos contrato, numa época em que nós ainda dávamos calote no ônibus, em que pediam para mudarmos o conteúdo das letras. Todo mundo vestiu a camisa.
Vocês sempre tiveram um discurso politizado, engajado. Vocês não acham que o Rappa, até para ser coerente com o próprio discurso, poderia trilhar o caminho das gravadoras independentes, ao invés de trabalhar numa multinacional?
Lobato: Nós sempre tivemos uma liberdade muito grande na escolha do repertório, eles quase nunca interferiram, o que é muito raro no Brasil. Desde o começo os caras aqui pensavam numa carreira, e por mais que quisessem, às vezes, sair com uma música mais fácil, quando começou a tocar as músicas mais pesadas a própria gravadora percebeu a diferença.
Falcão: Hoje eu posso te dizer que nós não devemos nada para a Warner. Se tivermos proposta ou quisermos proposta, estamos bem à vontade.
O RAPPA
O Silêncio Q Precede O Esporro
(Warner)
Nenhuma banda é a mesma depois de perder o integrante que escrevia todas as letras, mas o quarteto remanescente se saiu muito bem, e soube como manter o “conceito” d’O Rappa, realmente uma das poucas bandas do universo pop nacional que apresenta um diferencial em relação às demais. Para tanto, recorreram a amigos do dia-a-dia, como roadies e técnicos da banda, além de Waly Salomão, que faleceu pouco antes das gravações, mas teve várias falas inseridas no disco. O resultado, mesmo que continue firme na temática cotidiano/comunidade/violência urbana, mostra letras menos explícitas, mas ainda assim contundentes. No som, parece que o arquivo secreto de Marcelo Lobato, que armazena todas as idéias que a banda tem na estrada, continua dando resultados. Novidade mesmo só os arranjos de cordas de “O Salto”, que empresta à música certa erudição; o sambinha “Maneiras”, de Sylvio da Silva, com a participação de Zeca Pagodinho; a cover tipicamente rappiana para “Deus Lhe Pague”, de Chico Buarque, e a participação da rapper argentina Malena D’Alessio, em “Óbvio”. De resto, por incrível que pareça, é o bom e velho Rappa, muito embora, no conjunto da obra, neste álbum tudo pareça estar um pouco mais tranqüilo. Melhor assim.
YUKA PREPARA ATAQUE MULTIMÍDIA
Quem pensa que Marcelo Yuka passa seus dias trancafiado em salas entre aparelhos de fisioterapia se engana redondamente. A rigor, às vezes ele tem até dificuldade para se concentrar nas atividades que visam a recuperação dos movimentos de seus membros inferiores, dada a sortida agenda que inclui palestras, a montagem de uma rádio e um livro, além, é claro, dos projetos musicais. Isso sem falar que Yuka costuma ser visto em shows e eventos como TIM Festival. Afinal, ninguém é de ferro.
A Dynamite saiu à cata do músico, e foi encontrá-lo num hotel em Porto Alegre, onde participava do evento “A Paz Depende de Nós”, promovido pela Prefeitura local. Além das palestras, que ainda envolvem temas díspares como mídia independente e população carcerária, Yuka disse, por telefone, estar participando de vários outros projetos: “Estou envolvido num ataque multimídia, que inclui rádio educativa, cuja concessão eu disputei com uns dez conglomerados de comunicação e ganhei, um livro sobre meninas grávidas em comunidades carentes, que possivelmente vai virar uma história de ficção, um estúdio, que tem a intenção de mostrar algumas pessoas folclóricas e artistas que mereceriam um espaço melhor na mídia, e uma banda, que vai ser o lado mais vitrine de todas as idéias que estão em curso”.
A banda, assim como o ambicioso projeto ao qual ele se refere já tem nome e está em atividade. Trata-se da FURTO – Frente Urbana de Trabalhos Organizados, e tem como integrantes, além de Yuka, Peat Andrade (poeta jamaicano), os percursionistas pernambucanos Mr. Jam e Garnizé (ex-Faces do Subúrbio), Maurício Pacheco (guitarrista, também Stereo Maracanã) e Florence (teclados e programações). Ainda não há previsão de lançamento do primeiro álbum, mas todos já trabalham juntos no estúdio de Yuka. A idéia principal de todo o projeto é resgatar a identidade cultural das comunidades, afetada pelo narcotráfico, como ele próprio exemplifica: “hoje o artista de uma comunidade é impedido de freqüentar uma outra comunidade de uma facção rival. O samba, por exemplo, que é um ícone nacional, em sua formação tinha vários compositores que passeavam livremente. Uma vez que isso agora tá tolhido, o que será da arte que é feita hoje?”
Perguntado sobre sua saída d’O Rappa, embora tenha se mostrado reticente, Yuka voltou a afirmar que não deixou o grupo por vontade própria: ”na verdade eu não saí da banda, foi a banda que saiu de mim, mas eu não quero falar nada sobre isso. Eu preservo com carinho o tempo que eu estive lá, e não quero cair no lugar comum de todas as bandas, de jogar na imprensa uma relação pessoal. Quero ser um pouco mais nobre”, afirmou. Quando soube que seu nome foi comentado na entrevista feita com o Rappa, Yuka, que ainda não ouviu o primeiro disco da banda sem ele, ironizou: “Sei lá se eles tão falando de mim… Eles têm que cuidar do lançamento do disco, eu não sei porque eu tenho tanta importância na hora em que eles estão lançando o disco, não tem nada que falar de mim. O Rappa é uma excelente banda, tá seguindo o seu curso, e eu vou seguir o meu. Eu não vou lavar roupa suja na mídia, de jeito nenhum”.
















