No Mundo do Rock

Faichecleres
Foi o diabo que quis assim

Publicado na Revista Outracoisa número 19, de março de 2007 Fotos: iaskara/Divulgação.

Giovanni Caruso, Marcos Gonzatto e Tuba Caruso

Giovanni Caruso, Marcos Gonzatto e Tuba Caruso

Junte o clássico rock’n’roll dos anos 60, incluindo os tempos do iê iê iê, visual tipicamente Carnaby Street, psicodelia, o lado rock de verdade da jovem guarda. Pegue letras básicas, de duplo sentido, incluindo aí algum sarcasmo e boa dose de sacanagem. O resultado é certamente algo bem próximo do universo do Faichecleres. Diversão, festa, rock e garotas. É isso aí. O grupo existe desde 1998, é de Curitiba e vem traçando uma trajetória de muito trabalho dentro do rock independente nacional.

Para falar de Faichecleres é preciso explicar que se trata de um grupo de Curitiba, sim, mas formado por dois gaúchos e um catarinense. É o que explica o arrastado sotaque que os primos Giovanni Caruso (baixo e vocal) e Tuba Caruso (bateria) conservam até hoje. Eles deixaram Rio Grande, cidade próxima da fronteira brasileira com o Uruguai, e foram viver na capital paranaense. O contato com a música começou ainda na cidade natal, graças aos irmãos de Giovanni, que no início dos anos 90 tocavam num grupo chamado Puberdade. “Eu e o Tuba sempre tocamos juntos, começamos porque meus irmãos tinham os instrumentos da banda deles, e com o tempo fomos descobrindo as coisas”, conta o baixista. Tuba foi o primeiro a se pirulitar para Curitiba, depois foi a vez de Giovanni. Lá, eles encontraram o guitarrista Charles Britto e o trio começou a tocar músicas das bandas que eles curtiam na época, referências até hoje: Little Richards, Rolling Stones, Jerry Lee Lewis, Elvis Presley. Mas Beatles é que foi a banda-chave para os Caruso, ou, ao menos, a que fez a vida deles realmente mudar, como ressalta Tuba: “A gente tava escutando muito anos 50 e 60, depois conhecemos os Beatles e fodeu: ‘É isso que a gente quer da vida, queremos ter banda’.” Afinal, o que podem fazer dois garotos em Curitiba além de montar uma banda de rock’n’roll?

Marcos Gonzatto (guitarra) entraria na banda mais tarde. O rapaz deixou o interior de Santa Catarina aos 11 anos e descobriu o rock na capital paranaense. “Prestava atenção nos caras tocando e ia aprendendo. Nos juntamos porque todo mundo gostava do mesmo som”, conta. Era o ano de 1998, considerado o marco zero, e ele entrou para ser o segundo guitarrista. Havia muitos covers e algumas músicas próprias, mas não um nome. Foi Tuba o primeiro a se encantar com a sugestão de Giovanni, que brinca: “Queríamos um nome que se perdesse no meio dessas bandas que a gente curte, The Kinks, Rolling Stones, Faichecleres, Beatles…” “Não podia remeter a alguma coisa como essas bandas dos anos 80, era preciso um nome que não fosse composto e que tivesse uma sonoridade forte”. Charles e Marcos nem se empolgaram tanto, mas a coisa pegou. Mais tarde, Faichecleres, o nome, iria fechar certinho com a temática de sarcasmo, sacanagens e duplo sentido da banda.

O primeiro disco do Faichecleres quase virou lenda. A banda tocava tanto e crescia tão rapidamente que em todo canto a cobrança pelo CD aumentava. E isso sem falar em Curitiba, onde os rapazes tinham o seu próprio Cavern Club. Durante quase cinco anos, todas às quartas-feiras, era só dar um pulinho ali no Empório São Francisco para vê-los tocando durante toda a madrugada. “Pegamos cancha de palco. Éramos uma bandinha de garagem e rolou o convite para tocar anos 60, jovem guarda… Fizemos bastante coisa, tocávamos as músicas próprias e mais umas 16 de Beatles, Stones, Kinks, Who. A gurizada começou a curtir muito, precisávamos gravar um disco”, resume Giovanni. O tal disco, “Indecente, imoral & sem vergonha”, acabou só sendo lançado em 2004, por conta de problemas comuns à trajetória de qualquer banda independente: a falta de grana e a demorada negociação com gravadoras. Mas o pior de tudo foi o acidente envolvendo Charles Britto, em 2001. “Ele bateu de carro, ficou cinco meses em coma e voltou totalmente debilitado. Hoje, tá melhor; dá pra entender o que ele fala, já consegue tirar uns acordes da guitarra”, conta Giovanni. A partir daí, o Faichecleres passou a ser um trio.

Para as letras, a referência/inspiração veio de bandas que escreveram o nome na história do rock gaúcho fazendo de picardias e bandalheiras juvenis motivo de grande diversão. Traduza-se isso por Cascaveletes, TNT e Júpiter Maçã. “O que me deu um empurrão para fazer esse tipo de letra foi o lançamento do ‘Sétima efervescência’, do Júpiter Maçã. As composições desse disco são as mais sensacionais que já fizeram, tudo o que ele falou ali era o que eu sentia. Foi o disco de libertação da minha mente, queria imitar, fazer uma coisa semelhante”, admite Giovanni.

As zoadas gaúchas dão o tom num disco que só poderia mesmo ter esse nome: “Indecente, imoral & sem vergonha”. E nem é preciso escutá-lo para se dar conta disso, basta dar uma olhadinha nos títulos. “Ela só quer me ter” (o hit), “Aninha sem tesão”, “Metida demais”, e “A boca dela”, entre outras, somadas à excelente “Casalzinho pegando fogo”, do próprio Júpiter, fazem parte de um almanaque de temática picante e de duplo sentido sem par no rock nacional. “Isso vem desde o começo”, acredita Tuba. “É o que prevalece nas letras, achamos legal nos expressarmos dessa forma, chama a atenção. A gente só se preocupa em escolher a palavra certa”, completa. E eles sabem escolher direitinho. Ou alguém duvida da força de versos como “ela não quer, nem pensa em namorar / ela só quer me ter e nada mais”, “eu bebo o teu licor / Aninha sem pudor / tu come o meu mingau / não vai fazer dodói” e “me deixa ser um porco pra você / me deixa ver o teu lado B”, todos cantados no bom e velho rock’n’roll? Não por acaso “Indecente, imoral & sem vergonha” virou um clássico instantâneo do rock nacional independente, e levou o Faichecleres a desbravar novos caminhos nos palcos desse Brasil varonil. A tiragem esgotou-se em pouco tempo. Desse disco, saíram três vídeos. E o de “Metida demais” foi indicado para concorrer como Clipe Independente na premiação da MTV. Todos estão disponíveis na página oficial da banda na internet: www.faichecleres.com.br.

O trio se veste como os Beatles e os Stones o tempo todo

O trio se veste como os Beatles e os Stones o tempo todo

O problema é que os moralistas de plantão não curtiram tanto esse duplo sentido. Se o Brasil livrou-se da censura oficial, ainda sofre com os censores avulsos espalhados por aí. “Teve uns programas em que disseram para não tocar certas músicas. Em rádio, eles mandavam escolher uma música, mas o DJ dizia: ‘Essa não, que vai pegar pra mim.’”, conta Giovanni. “‘Ela só quer me ter’, por exemplo, sempre censuram”, emenda Tuba. “Disseram que ‘A boca dela’ era uma indução ao lesbianismo; e ‘Aninha sem tesão’, ao estupro… Adoramos quando isso acontece, chama a atenção. São pessoas que não trepam”, conclui. É, se a rádio não quis tocar, pior para as rádios.

E melhor para os que transam e já viram os caras de perto. Porque já sabem que as roupinhas combinadinhas que eles usam não são só figurino de videoclipe ou de sessões de fotos como estas espalhadas nesta matéria. Tal como legítimos heróis do rock, os caras se vestem assim o tempo todo. Sem falar nos cabelos… “Tu é adolescente e quer ter alguma semelhança com teus ídolos. Os nossos são Beatles e Stones, então cortamos o cabelo assim, compramos terninho…”, explica Giovanni. Mas é Tuba, o da gravatinha, o mais animado: “Adoramos esse tipo de visual inglês dos anos 60, é tudo bem natural, não tem nada forçado.” Giovanni, que se vale do guard-roupa do Seu Caruso, entrega: “Ele manda fazer as roupas, porque não acha nada nas lojas, e o Marcos compra tudo nos brechós de igreja, a um real.”

É a deixa para falar de Tuba, o baterista porra-louca que é símbolo da banda. Menos pela perícia técnica (que ele possui) e mais pelo jeito espalhafatoso de tocar, se balançando todo, Carlos Eduardo é um show à parte. “Tinha visto o filme do Jerry Lee Lewis, ‘A fera do rock’, e ele tocava balançando a cabeça. Achei aquilo muito a foder e passei a tocar bateria assim também”, entrega. Mas e fora a bateção de cabeça, o que será que rola? Ele responde: “Depois, conheci The Who, que tinha o Keith Moon; e o John Bonham, do Led Zeppelin, e fiquei louco.” E tem que ser louco mesmo para ver o show dos Stones na Praia de Copacabana, no meio do povão, grudado na grade desde cedo, trajado à rigor. É Isso aí, Tuba, rock!

A última aventura antes de o trio voltar ao estúdio para gravar o segundo disco foi uma empreitada ousada e bem-sucedida. A banda participou da Tour Independente, projeto que colocou seis bandas (além do Faichecleres, Rock Rocket, Zefirina Bomba, Daniel Belleza, Vanguart e Ecos Falsos) dentro de um ônibus numa turnê pelo Nordeste. Isso virou um especial para a TV. E além de a(s) banda(s) conhecer(em) novos espaços para tocar, a projeção na mídia garantiu o crescimento do bafafá em torno dela(s).

É aí que entra em cena o impagável “Calçada da fama”, que o dileto leitor já deve ter colado no tocador de CDs desde que começou a ler este texto. Foi no ocaso de 2006, um ano em que tudo deu certo para o Faichecleres, que o disco começou a ser gravado. “Foi tri rápido, até o início de dezembro não sabíamos que íamos gravar”, conta Giovanni. “Só tínhamos seis músicas finalizadas. Então, nos reunimos e ensaiamos todo dia, metemos o pau”, continua –dessa vez, sem querer dar duplo sentido. “Fechamos com 11, as demais ficaram para um terceiro disco.” Com tão pouco tempo, a coisa só deu certo porque, honra seja feita, os rapazes aprenderam muito na gravação do álbum de estréia e nos palcos – lembram da cancha adquirida no Empório citada pelo vocalista lá em cima? Pois então… Marcos também se preocupou: “Achava que ia ser complicado pra caralho, porque a gente se fodeu muito no primeiro, mas assim foi melhor pra todo mundo”, avalia.

Melhor mesmo. Se considerarmos que “Indecente, imoral & sem vergonha” é um clássico, este “Calçada da fama” é certamente um passo adiante, e resume aquilo que toda banda quer: evoluir sem deixar de lado suas características principais. E ainda com um plus a mais, a qualidade sonora e de produção, fruto da experiência dos meninos e do entrosamento entre a equipe (entenda-se Ricardo Moura e Dickie Costa), a mesma que gravou o disco anterior. O melhor é que, acima de tudo, os rapazes têm aquilo que parece estar em falta no mercado: boas músicas. “O seu cafajeste”, por exemplo, tem um riff típico do estilo Faichecleres, capaz de agradar ao ouvinte mais desinteressado.

Mas o começo do disco é que traz uma trinca excepcional: a) “A calçada da fama”: uma sátira ao universo das celebridades, sarcasticamente retratada na capa do disco. Atualíssima, tira sarro de tudo; b) “Alice D”, a segunda, é a lentinha que provavelmente será o primeiro clipe, mesmo porque é a preferia de todos. Fala da famosa história da fã que se deslumbra com a banda predileta. Faichecleres? Nada, os Beatles mesmo. c) A picardia costumeira vem em “Garotinha da mamãe”, parente próxima de personagens já conhecidos como “Aninha sem tesão”, “Garota do bar” e “Metida demais”. Não por acaso é também a cara do rock gaúcho, afinal foi composta pelo irmão de Giovanni, aquele mesmo da banda Puberdade, da qual os meninos pegavam os instrumentos emprestados. A porrada da vez é a avassaladora ”O que eu bem entender”, que atualiza a jovem guarda de Eduardo Araújo e adjacências, e desde já é hino da juventude em todos os tempos. A novidade está no country “Eu sei, foi o diabo que quis assim”, que não recua: “Sei que você é louca pra dar pra mim / Eu não vou negar, eu também sou a fim.”

A avaliação dos rapazes é a melhor possível. “É o meu disco predileto”, dispara Marcos. “Todo artista fala assim do disco mais recente, mas é verdade, é um discão de rock, um passo à frente em relação ao que vínhamos fazendo”, comemora. Giovanni também vê a fase atual com bons olhos e atribui tudo ao trabalho na estrada. “É o reflexo do que a gente vem fazendo há muito tempo, desde que a tínhamos só cinco músicas. É muito tempo tocando, já vínhamos montando esse cenário há muito tempo”, acredita. O tempo parece ser mesmo o principal aliado do Faichecleres, e todos os percalços deixados pelo caminho hoje fazem sentido. Nunca o mercado do rock nacional, depois da consolidação dos conterrâneos do Cachorro Grande, esteve tão especialmente aberto para o trio. Nem vai ser preciso prestar tanta atenção assim, mas fique ligado que, já, já o Faichecleres vai conquistar você. Que assim seja.

Faichecleres: Sarcasmo, sacanagem e duplo sentido

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