Rock é Rock Mesmo

Não pode mais ficar parado

Ao invés de Barão Vermelho, Gram. No lugar de um Paralamas, Matanza. Para a vaga de Jorge Ben, Mukeka di Rato. Mombojó, aos que queriam Fernanda Abreu. É assim que funciona o Festival Dosol, em Natal, enfatizando as cenas local e independente.

Meus amigos, o rock tá com a moléstia. Vejam vocês o que é a tecnologia. E o que é a natureza. E o que é esse Brasilzão. Praticamente um continente. Um gigante que se recusa, contrariando um de seus maiores símbolos, a deitar eternamente em berço esplêndido. Posso parecer ufanista, e estou sendo. Mas, vamos e venhamos, estamos diante da era de ouro do rock nacional. Digo isso para voltar a falar de festivais, e, principalmente, de bandas que espocam a todo o momento neste país. E porque acabo de chegar da ensolarada Natal, onde, no último final de semana, aconteceu a primeira edição do Festival Dosol (leia-se dossol).

Em 2001, fui convidado para fazer a cobertura do Mada, um festival emergente que se estabelecia em Natal, e estava, se a memória não me falha, na terceira edição. Uma estrutura modesta era montada no Largo da Rua Chile, no centro histórico da cidade, onde muitas bandas se apresentavam, e era notável que a cidade, de uma forma geral, não tinha bons quadros que representassem o rock natalense. Era notável o despreparo de muitos novos artistas; uma ingenuidade e crueza evidentes a cada show de uma banda local. Naquela oportunidade, estive com Paulo André, produtor do Abril Pro Rock, que estava lá para reconhecer o terreno. “No início é preciso tirar leite de pedra”, ele dizia, admitindo que, também em Recife, que deu o mangue beat ao mundo, as coisas eram difíceis no começo. E ainda que, em Natal, as coisas poderiam evoluir, dependendo da persistência dos organizadores, bandas e público de lá.

Hoje o Mada acontece na Arena do Imirá, na região praiana da cidade, se transformou num dos maiores festivais do Brasil, e é referência dentro de um circuito cada vez rico. Investindo num crescimento a partir da escalação de grandes artistas consagrados no rock nacional - os medalhões – a produção do festival faz caixa e ao mesmo tempo abre espaço para as novas bandas, de todo o Brasil e, particularmente, de Natal. Tanto cresceu que já existe um festival alternativo (no sentido de ser uma alternativa mesmo) à sua grandiosidade. É aí que entra o Festival Dosol. Enquanto o Mada crescia e entrava para o esquemão, tinha gente que vinha fazendo trabalho de formiguinha com independência em Natal. E tinha gente fazendo banda e querendo tocar (não só no Mada), gravar disco, fazer shows, fazer carreira com o rock, enfim. E aí é que vem o Dosol, que antes, é um selo, um estúdio de gravação, um bar/clube de rock onde as bandas tocam, e agora, um festival de banda independentes que já nasce inserido no circuito independente brasileiro.

Olhando para a estrutura montada para o evento, impossível não fazer a comparação com a fase inicial do Mada, voltando cinco anos no tempo. Estar no Dosol é sentir a nostalgia do festival que começou tudo em Natal. E ainda verificar como tanta coisa mudou, e pra melhor, na capital potiguar. De cara, nota-se que a estrutura armada na Ribeira é maior e melhor do que a que era montada nos primeiros dias do Mada, o que significa que o Dosol, de certa forma, já estudou a lição em casa e não retrocedeu no tempo. Depois que, salvo um lapso de memória deste colunista, o público que apareceu para prestigiar esta primeira edição do festival é bem superior àquele que compareceu ao Mada de 2001. Ou seja, em que pese as distorções causadas por esta ou aquela banda, o público de rock de Natal cresceu, e muito. Não vamos usar os números do Mada atual para esta comparação, já que boa parte das pessoas que vai ao Mada, hoje, o faz mais para ver artistas consagrados do que pelo interesse na cena independente nacional.

E é aí que volto a falar no Dosol. Podemos dizer, dada e estrutura e condições acertadas entre produção e artistas, que este festival já nasceu grande. Mas, por princípio, o Dosol foi criado para ser um festival de bandas independentes, que trabalham no meio e são do ramo. No Dosol, medalhão não entra. Ao menos foi o que disse Anderson Foca, idealizador e produtor do evento. O amigo mais cético poderá até dizer que a declaração do produtor esconde o limite de recursos do festival. Pode até ser. Mas eu, se me permitem, não acredito. E explico. Foca e toda a equipe de produção do evento são pessoas que vivem o dia-a-dia do rock em Natal há muitos anos. São do ramo e sabem muito bem o que é trabalhar com independência e fazer o que precisa ser feito para dar exposição a uma cena que cresce a cada ano, mesmo na distante Natal. Ele faz parte da linhagem de outros produtores/fãs de rock/integrantes de bandas que não se conformam com as mazelas do mercado musical brasileiro, arregaçam as mangas e vão a luta. Tal como cidades como Goiânia, Recife, Brasília, Belo Horizonte, etc, onde a cena independente marca presença porque é feita por gente que acredita no rock, Natal também tem sua porção “gente que faz”.

Por isso que, ao invés de Barão Vermelho, Gram. No lugar de um Paralamas, Matanza. Para a vaga de Jorge Ben, Mukeka di Rato. Mombojó, aos que queriam Fernanda Abreu. Nada contra os artistas citados, mas no Dosol, a parada é outra. Por isso, talvez, quem se acostumou, em Natal, a freqüentar edições do Mada com grade comparecimento de público, pode até achar pouco as cerca de duas mil pessoas que compareceram em cada noite do festival. Se, entretanto, compararmos com o Mada dos idos tempos, a coisa muda de figura. E, na verdade, esse é o público rock de Natal, no seu tamanho em verdadeira grandeza. Grande ou pequeno, ele é fruto do trabalho do dia-a-dia do rock, de quem grava, lança discos, produz shows, ouve rádio e assim por diante. E, a bem da verdade, o comparecimento de público até superou as expectativas da produção.

O melhor de tudo, entretanto, é que as bandas melhoram muito também, e hoje não são mais grupos ingênuos, imaturos. Esses, ou evoluíram ou acabaram. O Bonnies, a mais nova revelação da cidade, se insere tranqüilamente no rol de novos artistas, como Volver e Nervoso, só para citar dois. O Jane Fonda, já uma banda, podemos dizer “grande” em Natal, toca e compõe hoje muito melhor que antes. O Bugs, que, falha da produção, não foi escalado, é uma realidade no cenário nacional. E muitas outras estão por vir. Em Natal, como diria Luxemburgo, não tem mais ninguém bobo, não.

Além do otimismo generalizado (mas pé no chão), a lição que fica é que é possível fazer o que tem que ser feito. E o lugar em que você mora não tem o rock que você quer ouvir, faça ele acontecer lá. Se o festival de sua cidade não te agrada, faça o seu. Faça como já faz muita gente por aí, nos lugares mais distantes e insólitos. Eis onde eu queria chegar: não pode mais ficar parado. E isso não é, nem de longe, nenhuma novidade.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

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